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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
Entrevista: ROBERT BALLARD

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Dono dos sete mares

Desde que achou o Titanic, o maior
explorador marinho da atualidade
só pensa numa coisa: encontrar
os segredos deixados pelo homem
no oceano

Isabela Boscov

 
AP

"A suástica na proa do Bismarck me arrepiou. É algo que uma pessoa da minha idade só viu em filmes ou museus"

O explorador americano Robert Ballard, de 58 anos, é o maior desbravador de uma porção ainda misteriosa do planeta: os oceanos. Formado em geologia marinha e geofísica, ele passou os primeiros anos de sua carreira desvendando fenômenos naturais. Em 1985, descobriu os destroços do transatlântico Titanic, naufragado em 1912, e sua vida se transformou. Ballard, que era famoso no meio científico, se tornou uma celebridade mundial. Ele começou a escrever livros de divulgação científica e reportagens para a revista National Geographic, da qual é explorador-residente, e a fazer documentários para a televisão. Ballard também foi tomado de uma nova febre: estudar as marcas deixadas pelo homem nos mares. De suas 110 expedições, boa parte foi dedicada à investigação de naufrágios. Recentemente, esteve em Pearl Harbor, no Havaí, onde tentou localizar os restos de um minissubmarino japonês e fez as primeiras imagens mostradas ao público do interior do couraçado USS Arizona, afundado em 1941. Grande impulsionador de novas tecnologias, ele agora as aplica a um novo filão: os navios afundados na Antiguidade. Toda essa atividade irradia do Institute for Exploration, que ele fundou em Mystic, no Estado de Connecticut, de onde falou a VEJA.

Veja – O senhor passou anos investigando cordilheiras, vulcões e formas de vida sob a água. Mas desde que encontrou o Titanic, em 1985, deixou de fazer isso e começou a se interessar pelas marcas deixadas pelo homem nos oceanos. Por quê?
Ballard – Muitos anos atrás, decidi que jamais pararia de fazer aquilo que amo, que é a exploração. Mas é fácil se cansar de um assunto. A certa altura, os fenômenos naturais já não pareciam mais tão divertidos. Por isso me interessei por naufrágios históricos, como o do Titanic, do Lusitânia, do Bismarck, entre outros. Inevitavelmente, me cansei também desse filão. Agora a minha mania é a Antiguidade. Comecei uma série de expedições pelo Mediterrâneo, fazendo arqueologia em águas profundas. Achamos navios romanos e fenícios de imenso valor. No momento, meu foco está no Mar Negro, onde estamos recolhendo provas de uma grande inundação ocorrida há 7 500 anos, que pode ter dado origem ao mito do dilúvio e da arca de Noé. Tendo a seguir uma linha de pesquisa por dez ou doze anos, e daí saio em busca de novos territórios.

Veja – Como o senhor estabelece suas metas de pesquisa?
Ballard – Para o trabalho render frutos, é preciso planejar cada passo com três ou quatro anos de antecedência. Sou oportunista: quando vejo que há uma nova tecnologia emergindo, ou uma área que está começando a ser desbravada, trato de agarrar a chance. Meu próximo lance será a criação de santuários subaquáticos. Em vez de contar às pessoas o que encontrei lá embaixo, vou "levá-las" até lá. Do Mystic Aquarium, em Connecticut, elas poderão acompanhar os movimentos de robôs equipados com câmaras no fundo da Baía de Monterey, na Califórnia. É o que chamo de "telepresença".

Veja – O senhor visitou o interior de alguns importantes navios militares naufragados, como o couraçado USS Arizona, afundado em Pearl Harbor, e o porta-aviões Yorktown, que foi a pique na batalha de Midway. Esses episódios foram muito bem documentados. O que se pode aprender ao revisitá-los?
Ballard – Faço diferentes tipos de expedição. Algumas têm por objetivo alimentar a ciência básica. Uma delas foi a que nos levou a descobrir fendas hidrotermais em Galápagos, um dos achados mais sensacionais dos últimos 100 anos. É o caso também da busca a navios da Antiguidade, que podem trazer revelações sobre as primeiras civilizações. Mas há uma outra família de expedições, na qual se incluem as visitas a esses navios célebres. A meta, aí, é reacender o interesse por uma história relevante. A razão para descer até esses navios não é anunciar que o Titanic colidiu com um iceberg, e sim recriar um momento importante. Na nossa ida a Pearl Harbor, por exemplo, buscamos – sem sucesso – os restos de um minissubmarino japonês que foi alvejado por um navio americano horas antes do ataque-surpresa. A maioria das pessoas nem sabe desse episódio e pensa que o primeiro tiro foi disparado pelos japoneses. Quando possível, levo sobreviventes comigo, para que eles rememorem sua história e a transmitam por meio das reportagens e documentários que fazemos.

Veja – O senhor mesmo projeta seus equipamentos?
Ballard – Eu os imagino, e cabe aos meus engenheiros dizer o que é possível. Os veículos e robôs operados por controle remoto são fundamentais para pesquisar em profundidades em que a presença humana é arriscada ou inviável. Com esses equipamentos, podemos descer a 6.000 metros, o que cobre 98% dos oceanos da Terra. Nesta semana, terminamos de construir um novo sonar, capaz de varrer áreas subaquáticas com maior precisão. A nossa menina-dos-olhos atual é o Hércules, o primeiro robô projetado para fazer escavação arqueológica em águas profundas. Ele ficará pronto em 2003. Com o Hércules, nosso nível de conhecimento irá aumentar de modo espetacular. Neste momento, realizamos as descobertas, mas não temos condições de esmiuçá-las. O Hércules poderá trabalhar em condições de visibilidade zero e será tão sofisticado que poderia até fazer uma cirurgia a grande profundidade. Ele localiza objetos, tira fotografias e, com seus braços mecânicos, recolhe amostras.

Veja – O que o senhor sente no instante de uma descoberta – por exemplo, no momento em que viu o casco do Titanic pela primeira vez?
Ballard – É uma emoção ambígua. Até aquele momento, é como se você estivesse tomando parte numa competição esportiva. Você está lá no mar com seu time, o tempo está ficando curto, parece que você vai perder o jogo – e aí, nos segundos finais, você marca um gol e ganha o campeonato. Ao mesmo tempo, olha-se para o lado e vê-se um sobrevivente chorando, como no caso da nossa visita a Pearl Harbor. Você se dá conta, então, de que está se intrometendo num momento histórico que, para outras pessoas, é imensamente triste. Lembro-me de que levei meu filho de 7 anos comigo para Pearl Harbor. Diante do memorial de guerra onde os nomes dos combatentes mortos estão gravados, expliquei que a maioria daqueles homens ainda está lá, sepultada no mar. Ele permaneceu em silêncio por alguns minutos e em seguida me disse: "Papai, este é um lugar muito especial – mas é triste demais". Esse é o significado desse tipo de expedição: levar as pessoas a refletir.

Veja – Em que instante a dimensão humana supera a euforia da descoberta científica?
Ballard – Imediatamente. É como levar dois socos em seguida, algo meio esquizofrênico. No caso do Titanic, esse segundo soco veio no momento em que vi todos aqueles sapatos espalhados pelo interior do navio – ou as centenas de botas alemãs dentro do Bismarck. No Lusitânia, encontramos sapatos de mulher ao lado de um par de sapatos de criança – uma mãe e seu filho. Os corpos se vão, mas os sapatos continuam inteiros. Até nos navios romanos ainda é possível ver sandálias. Como não se emocionar? Mas é preciso dizer que, no caso dos naufrágios da Antiguidade, eles apelam a um compartimento diferente da minha alma, o lado que está procurando respostas para o mistério da nossa origem. É como ser um detetive.

Veja – O que esse seu namoro com a Antiguidade já lhe proporcionou?
Ballard – Adoro descobrir coisas que surpreendem os especialistas. A maioria dos historiadores modernos, por exemplo, acredita que os antigos costumavam navegar próximo à costa – ao contrário do que pregam os próprios textos da época, como os que falam de Ulisses ou de Jasão e os Argonautas. Pois bem, estamos provando que eles foram, sim, viajantes muito corajosos. Alguns desses navios foram localizados em águas profundíssimas. Eu adoraria também realizar uma expedição no Brasil e descobrir algum naufrágio que surpreendesse a vocês – por exemplo, de um navio romano. Não seria o máximo?

Veja – O seu campo de atuação é hoje muito disputado por caçadores de tesouros. O que o senhor pensa dessas pessoas?
Ballard – Bem, digamos que eles não são da minha turma. Os ladrões de túmulos existem desde que o mundo é mundo, infelizmente. Vou dar um exemplo do mal que eles podem causar. É comum, hoje em dia, haver excursões ao Titanic durante o verão. Pois a gávea de onde os marinheiros avistaram o iceberg já não está mais lá. Ela foi destruída na tentativa dessas pessoas de roubar o sino que lá havia. Como alguém é capaz de violar esses sítios? Com que direito? Esses caçadores são uma gente muito primitiva.

Veja – O senhor já deparou com um desses caçadores em suas expedições?
Ballard – Não, e acho que não manteria um comportamento cavalheiresco em um encontro desse tipo. Sinceramente, não quero ser testado a esse ponto.

Veja – De todas as suas descobertas, qual lhe trouxe a emoção mais intensa?
Ballard – Acho que foi olhar a proa do couraçado alemão Bismarck e ver uma suástica pintada ali. É uma coisa que uma pessoa de minha idade nunca viu numa situação autêntica, fora de um filme ou de um museu. Não esperávamos encontrá-la. Era comum que esses símbolos fossem cobertos para não atrair a atenção do inimigo. Mas, quando chegamos lá embaixo, vimos que a tinta havia descascado com a ação da água e deixado a pintura original à mostra. Foi de arrepiar os cabelos.

Veja – Em quantos projetos o senhor está trabalhando neste momento?
Ballard – Tenho sempre vários em andamento. Agora estou divulgando os resultados da viagem a Pearl Harbor e finalizando a primeira etapa da expedição ao Mar Negro. Em fevereiro partirei em busca do Endurance, o navio do explorador irlandês Ernest Shackleton que afundou na Antártica em 1915. Também estou planejando uma exploração nos lagos andinos do Peru, onde os incas esconderam uma série de tesouros – isso sem falar na volta ao Mar Negro, daqui a alguns anos. Minha agenda está lotada até 2004. Só considero que um trabalho está concluído quando o conhecimento proporcionado por ele passa a ser compartilhado. Não basta descobrir – é preciso fazer os especiais de televisão, escrever livros e reportagens, conversar com os jornalistas e assim por diante. Assim, um único projeto pode tomar até cinco anos.

Veja – A sua família gosta do mar tanto quanto o senhor?
Ballard – Todos nós gostamos dessa vida. Conheci minha mulher no trabalho. Ela era chefe de projetos especiais para a National Geographic Television. Logo que nos casamos tivemos de adiar o projeto de ter filhos, por causa da medicação fortíssima contra a malária que tomamos à época da expedição de Guadalcanal, no Pacífico Sul. Meu garotinho, Benjamin, que tem 7 anos, e minha filhinha, Emily, de 3, também adoram a água. Levei Benjamin à expedição de Pearl Harbor e ele pilotou o robô.

Veja – O senhor também se esmera na divulgação de seus projetos. Esse é um talento inato?
Ballard – Acho que foi minha mãe quem me treinou. Ela adorava me fazer vender coisas de porta em porta – objetos decorativos de Natal que ela mesma fazia, por exemplo. Minha família era especial. Meu pai era órfão – o pai dele foi morto numa briga de tiros em Wichita, Kansas – e um verdadeiro caubói. Durante a II Guerra, ele virou engenheiro e trabalhou com mísseis e aviação. Meu pai sempre encorajou a mim e a meu irmão para que buscássemos a melhor instrução possível. Tenho um doutorado em geologia marinha e geofísica, e meu irmão tem um Ph.D. em física. Lembro-me, porém, de meu pai me dizer que eu tinha de aprender não só matemática, mas também a falar em público. Na juventude, eu fazia a narração de shows de golfinhos e baleias no Sea Life Park, no Havaí, o que foi um ótimo treino nesse sentido.

Veja – Entre os golfinhos que o senhor treinava naquela época, havia um favorito?
Ballard – Sim, uma fêmea chamada Ho, com que eu trabalhava oito horas por dia. Era um relacionamento maravilhoso. Nunca fui tão próximo de um ser não-humano quanto dela. É uma ligação que transcende muito aquela que se pode ter com um cão, por exemplo. Pelos olhos, pela voz, pelo toque há uma comunicação que deixa muito claro quanto esses animais são inteligentes e capazes de afeto. Antes de tentar falar com seres extraterrestres, deveríamos aprender a falar com os golfinhos.

Veja – A vida no mar é tida como um tanto áspera para o ser humano, mas o senhor mantém uma aparência jovem. Ao que o senhor a atribui?
Ballard – A verdade é que me sinto tão jovem no espírito que essa sensação deve ter contaminado o meu físico. É o amor pelo trabalho e, principalmente, pela vida. Tive momentos muito duros. Há alguns anos, perdi um filho adolescente num acidente de automóvel. Foi uma perda trágica. Mas tudo pode ser enriquecedor quando se consegue encontrar a mensagem que está por trás dos acontecimentos.

 
 
   
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