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Dono
dos sete mares
Desde que achou o
Titanic, o maior
explorador marinho da atualidade
só pensa numa coisa: encontrar
os segredos deixados pelo homem
no oceano
Isabela
Boscov
AP
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"A
suástica na
proa do Bismarck
me
arrepiou. É
algo que uma
pessoa da
minha idade
só viu em filmes ou
museus"
|
O
explorador americano Robert Ballard, de 58 anos, é o maior desbravador
de uma porção ainda misteriosa do planeta: os oceanos. Formado
em geologia marinha e geofísica, ele passou os primeiros anos de
sua carreira desvendando fenômenos naturais. Em 1985, descobriu
os destroços do transatlântico Titanic, naufragado
em 1912, e sua vida se transformou. Ballard, que era famoso no meio científico,
se tornou uma celebridade mundial. Ele começou a escrever livros
de divulgação científica e reportagens para a revista
National Geographic, da qual é explorador-residente, e a
fazer documentários para a televisão. Ballard também
foi tomado de uma nova febre: estudar as marcas deixadas pelo homem nos
mares. De suas 110 expedições, boa parte foi dedicada à
investigação de naufrágios. Recentemente, esteve
em Pearl Harbor, no Havaí, onde tentou localizar os restos de um
minissubmarino japonês e fez as primeiras imagens mostradas ao público
do interior do couraçado USS Arizona, afundado em 1941.
Grande impulsionador de novas tecnologias, ele agora as aplica a um novo
filão: os navios afundados na Antiguidade. Toda essa atividade
irradia do Institute for Exploration, que ele fundou em Mystic, no Estado
de Connecticut, de onde falou a VEJA.
Veja O senhor passou anos investigando cordilheiras, vulcões
e formas de vida sob a água. Mas desde que encontrou o Titanic,
em 1985, deixou de fazer isso e começou a se interessar pelas marcas
deixadas pelo homem nos oceanos. Por quê?
Ballard
Muitos anos atrás, decidi que jamais pararia de fazer aquilo que
amo, que é a exploração. Mas é fácil
se cansar de um assunto. A certa altura, os fenômenos naturais já
não pareciam mais tão divertidos. Por isso me interessei
por naufrágios históricos, como o do Titanic, do
Lusitânia, do Bismarck, entre outros. Inevitavelmente,
me cansei também desse filão. Agora a minha mania é
a Antiguidade. Comecei uma série de expedições pelo
Mediterrâneo, fazendo arqueologia em águas profundas. Achamos
navios romanos e fenícios de imenso valor. No momento, meu foco
está no Mar Negro, onde estamos recolhendo provas de uma grande
inundação ocorrida há 7 500 anos, que pode ter dado
origem ao mito do dilúvio e da arca de Noé. Tendo a seguir
uma linha de pesquisa por dez ou doze anos, e daí saio em busca
de novos territórios.
Veja Como o senhor estabelece suas metas de pesquisa?
Ballard
Para o trabalho render frutos, é preciso planejar cada passo com
três ou quatro anos de antecedência. Sou oportunista: quando
vejo que há uma nova tecnologia emergindo, ou uma área que
está começando a ser desbravada, trato de agarrar a chance.
Meu próximo lance será a criação de santuários
subaquáticos. Em vez de contar às pessoas o que encontrei
lá embaixo, vou "levá-las" até lá. Do Mystic
Aquarium, em Connecticut, elas poderão acompanhar os movimentos
de robôs equipados com câmaras no fundo da Baía de
Monterey, na Califórnia. É o que chamo de "telepresença".
Veja O senhor visitou o interior de alguns importantes navios
militares naufragados, como o couraçado USS Arizona, afundado
em Pearl Harbor, e o porta-aviões Yorktown, que foi a pique
na batalha de Midway. Esses episódios foram muito bem documentados.
O que se pode aprender ao revisitá-los?
Ballard
Faço diferentes tipos de expedição. Algumas têm
por objetivo alimentar a ciência básica. Uma delas foi a
que nos levou a descobrir fendas hidrotermais em Galápagos, um
dos achados mais sensacionais dos últimos 100 anos. É o
caso também da busca a navios da Antiguidade, que podem trazer
revelações sobre as primeiras civilizações.
Mas há uma outra família de expedições, na
qual se incluem as visitas a esses navios célebres. A meta, aí,
é reacender o interesse por uma história relevante. A razão
para descer até esses navios não é anunciar que o
Titanic colidiu com um iceberg, e sim recriar um momento importante.
Na nossa ida a Pearl Harbor, por exemplo, buscamos sem sucesso
os restos de um minissubmarino japonês que foi alvejado por
um navio americano horas antes do ataque-surpresa. A maioria das pessoas
nem sabe desse episódio e pensa que o primeiro tiro foi disparado
pelos japoneses. Quando possível, levo sobreviventes comigo, para
que eles rememorem sua história e a transmitam por meio das reportagens
e documentários que fazemos.
Veja O senhor mesmo projeta seus equipamentos?
Ballard
Eu
os imagino, e cabe aos meus engenheiros dizer o que é possível.
Os veículos e robôs operados por controle remoto são
fundamentais para pesquisar em profundidades em que a presença
humana é arriscada ou inviável. Com esses equipamentos,
podemos descer a 6.000 metros, o que cobre 98% dos oceanos da Terra. Nesta
semana, terminamos de construir um novo sonar, capaz de varrer áreas
subaquáticas com maior precisão. A nossa menina-dos-olhos
atual é o Hércules, o primeiro robô projetado para
fazer escavação arqueológica em águas profundas.
Ele ficará pronto em 2003. Com o Hércules, nosso nível
de conhecimento irá aumentar de modo espetacular. Neste momento,
realizamos as descobertas, mas não temos condições
de esmiuçá-las. O Hércules poderá trabalhar
em condições de visibilidade zero e será tão
sofisticado que poderia até fazer uma cirurgia a grande profundidade.
Ele localiza objetos, tira fotografias e, com seus braços mecânicos,
recolhe amostras.
Veja O que o senhor sente no instante de uma descoberta
por exemplo, no momento em que viu o casco do Titanic pela primeira
vez?
Ballard
É
uma emoção ambígua. Até aquele momento, é
como se você estivesse tomando parte numa competição
esportiva. Você está lá no mar com seu time, o tempo
está ficando curto, parece que você vai perder o jogo
e aí, nos segundos finais, você marca um gol e ganha o campeonato.
Ao mesmo tempo, olha-se para o lado e vê-se um sobrevivente chorando,
como no caso da nossa visita a Pearl Harbor. Você se dá conta,
então, de que está se intrometendo num momento histórico
que, para outras pessoas, é imensamente triste. Lembro-me de que
levei meu filho de 7 anos comigo para Pearl Harbor. Diante do memorial
de guerra onde os nomes dos combatentes mortos estão gravados,
expliquei que a maioria daqueles homens ainda está lá, sepultada
no mar. Ele permaneceu em silêncio por alguns minutos e em seguida
me disse: "Papai, este é um lugar muito especial mas é
triste demais". Esse é o significado desse tipo de expedição:
levar as pessoas a refletir.
Veja Em que instante a dimensão humana supera a euforia
da descoberta científica?
Ballard
Imediatamente.
É como levar dois socos em seguida, algo meio esquizofrênico.
No caso do Titanic, esse segundo soco veio no momento em que vi
todos aqueles sapatos espalhados pelo interior do navio ou as centenas
de botas alemãs dentro do Bismarck. No Lusitânia,
encontramos sapatos de mulher ao lado de um par de sapatos de criança
uma mãe e seu filho. Os corpos se vão, mas os sapatos
continuam inteiros. Até nos navios romanos ainda é possível
ver sandálias. Como não se emocionar? Mas é preciso
dizer que, no caso dos naufrágios da Antiguidade, eles apelam a
um compartimento diferente da minha alma, o lado que está procurando
respostas para o mistério da nossa origem. É como ser um
detetive.
Veja O que esse seu namoro com a Antiguidade já lhe
proporcionou?
Ballard
Adoro descobrir coisas que surpreendem os especialistas. A maioria dos
historiadores modernos, por exemplo, acredita que os antigos costumavam
navegar próximo à costa ao contrário do que
pregam os próprios textos da época, como os que falam de
Ulisses ou de Jasão e os Argonautas. Pois bem, estamos provando
que eles foram, sim, viajantes muito corajosos. Alguns desses navios foram
localizados em águas profundíssimas. Eu adoraria também
realizar uma expedição no Brasil e descobrir algum naufrágio
que surpreendesse a vocês por exemplo, de um navio romano.
Não seria o máximo?
Veja O seu campo de atuação é hoje muito
disputado por caçadores de tesouros. O que o senhor pensa dessas
pessoas?
Ballard
Bem, digamos que eles não são da minha turma. Os ladrões
de túmulos existem desde que o mundo é mundo, infelizmente.
Vou dar um exemplo do mal que eles podem causar. É comum, hoje
em dia, haver excursões ao Titanic durante o verão.
Pois a gávea de onde os marinheiros avistaram o iceberg já
não está mais lá. Ela foi destruída na tentativa
dessas pessoas de roubar o sino que lá havia. Como alguém
é capaz de violar esses sítios? Com que direito? Esses caçadores
são uma gente muito primitiva.
Veja O senhor já deparou com um desses caçadores
em suas expedições?
Ballard
Não, e acho que não manteria um comportamento cavalheiresco
em um encontro desse tipo. Sinceramente, não quero ser testado
a esse ponto.
Veja De todas as suas descobertas, qual lhe trouxe a emoção
mais intensa?
Ballard
Acho que foi olhar a proa do couraçado alemão Bismarck
e ver uma suástica pintada ali. É uma coisa que uma
pessoa de minha idade nunca viu numa situação autêntica,
fora de um filme ou de um museu. Não esperávamos encontrá-la.
Era comum que esses símbolos fossem cobertos para não atrair
a atenção do inimigo. Mas, quando chegamos lá embaixo,
vimos que a tinta havia descascado com a ação da água
e deixado a pintura original à mostra. Foi de arrepiar os cabelos.
Veja Em quantos projetos o senhor está trabalhando
neste momento?
Ballard
Tenho sempre vários em andamento. Agora estou divulgando os resultados
da viagem a Pearl Harbor e finalizando a primeira etapa da expedição
ao Mar Negro. Em fevereiro partirei em busca do Endurance, o navio
do explorador irlandês Ernest Shackleton que afundou na Antártica
em 1915. Também estou planejando uma exploração nos
lagos andinos do Peru, onde os incas esconderam uma série de tesouros
isso sem falar na volta ao Mar Negro, daqui a alguns anos. Minha
agenda está lotada até 2004. Só considero que um
trabalho está concluído quando o conhecimento proporcionado
por ele passa a ser compartilhado. Não basta descobrir é
preciso fazer os especiais de televisão, escrever livros e reportagens,
conversar com os jornalistas e assim por diante. Assim, um único
projeto pode tomar até cinco anos.
Veja A sua família gosta do mar tanto quanto o senhor?
Ballard
Todos nós gostamos dessa vida. Conheci minha mulher no trabalho.
Ela era chefe de projetos especiais para a National Geographic Television.
Logo que nos casamos tivemos de adiar o projeto de ter filhos, por causa
da medicação fortíssima contra a malária que
tomamos à época da expedição de Guadalcanal,
no Pacífico Sul. Meu garotinho, Benjamin, que tem 7 anos, e minha
filhinha, Emily, de 3, também adoram a água. Levei Benjamin
à expedição de Pearl Harbor e ele pilotou o robô.
Veja O senhor também se esmera na divulgação
de seus projetos. Esse é um talento inato?
Ballard
Acho
que foi minha mãe quem me treinou. Ela adorava me fazer vender
coisas de porta em porta objetos decorativos de Natal que ela mesma
fazia, por exemplo. Minha família era especial. Meu pai era órfão
o pai dele foi morto numa briga de tiros em Wichita, Kansas
e um verdadeiro caubói. Durante a II Guerra, ele virou engenheiro
e trabalhou com mísseis e aviação. Meu pai sempre
encorajou a mim e a meu irmão para que buscássemos a melhor
instrução possível. Tenho um doutorado em geologia
marinha e geofísica, e meu irmão tem um Ph.D. em física.
Lembro-me, porém, de meu pai me dizer que eu tinha de aprender
não só matemática, mas também a falar em público.
Na juventude, eu fazia a narração de shows de golfinhos
e baleias no Sea Life Park, no Havaí, o que foi um ótimo
treino nesse sentido.
Veja Entre os golfinhos que o senhor treinava naquela época,
havia um favorito?
Ballard
Sim,
uma fêmea chamada Ho, com que eu trabalhava oito horas por dia.
Era um relacionamento maravilhoso. Nunca fui tão próximo
de um ser não-humano quanto dela. É uma ligação
que transcende muito aquela que se pode ter com um cão, por exemplo.
Pelos olhos, pela voz, pelo toque há uma comunicação
que deixa muito claro quanto esses animais são inteligentes e capazes
de afeto. Antes de tentar falar com seres extraterrestres, deveríamos
aprender a falar com os golfinhos.
Veja A vida no mar é tida como um tanto áspera
para o ser humano, mas o senhor mantém uma aparência jovem.
Ao que o senhor a atribui?
Ballard
A verdade é que me sinto tão jovem no espírito que
essa sensação deve ter contaminado o meu físico.
É o amor pelo trabalho e, principalmente, pela vida. Tive momentos
muito duros. Há alguns anos, perdi um filho adolescente num acidente
de automóvel. Foi uma perda trágica. Mas tudo pode ser enriquecedor
quando se consegue encontrar a mensagem que está por trás
dos acontecimentos.
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