Sérgio
Abranches
A
tragédia dos
comuns
"Para
sair da crise, FHC
tem de recuperar
a
coordenação política e
ter uma agenda
que mobilize apoio. A crise energética é
uma oportunidade para retomar a iniciativa"
O
governo parece estar se acabando em denúncias, crises e pendengas.
Nas sessões parlamentares que os canais da Câmara e do Senado
mostram só se vê oposição. Na defesa só
os líderes, quando ocupam as tribunas, monopolizadas pelos críticos
do governo. Há uma crise de governança e a coalizão
governista se rompeu. Mas não há uma crise de governabilidade,
o presidente não está incapacitado de governar nem acossado
por lideranças alternativas, favoritas à sucessão
de 2002. Ao contrário, hoje, o cenário que se desenha é
uma eleição sem favoritos e com muitos concorrentes.
As reações nos partidos que estavam na coalizão governista
e seu entorno, os conflitos entre facções partidárias
e a relação deles com o governo federal não estão
focados em questões éticas ou na sucessão presidencial.
Em outra coluna argumentei aqui que quando o presidente não exerce
forte atração sobre sua base ela tende a se fragmentar.
Predominam os interesses das partes, quase sempre adversos aos interesses
comuns desse conjunto de forças que esteve no poder governamental
por quase dez anos.
Manda a lógica dos interesses regionais. A sucessão que
está hoje no cálculo dos políticos é a dos
governos estaduais. No Brasil, essa lógica da federação
é parte do presidencialismo de coalizão e precede a negociação
das candidaturas presidenciais. Nos períodos pré-eleitorais,
domina todos os grandes partidos, em função das rivalidades
estaduais, seja entre facções do mesmo partido, seja entre
partidos aliados no plano nacional mas concorrentes estaduais.
O PFL baiano é um bom exemplo: é o mais forte no Estado,
Antonio Carlos Magalhães tem o comando do partido sem contestações,
mas o PMDB e o PSDB lhe são adversários ferrenhos.
No PMDB de São Paulo, as fortes rivalidades estaduais racharam
a convenção partidária entre Orestes Quércia
53% e Michel Temer 47%. Quércia ficou com
o comando contestado. Os dois grupos voltarão a se enfrentar na
escolha do candidato do partido ao governo do Estado. Os dois postulam
a candidatura. Terão de se entender até lá, ou baterão
chapa. Suspeita-se que o grupo de Temer deixe o partido se Quércia
sair candidato. Em São Paulo, a história pode se repetir.
O PSDB nasceu dessas rivalidades e da inconformidade com a convivência
com Orestes Quércia.
Iris Rezende e seu grupo sempre foram governistas, desde o governo Sarney.
Disse, na convenção de seu partido em Goiás, que
o movimento de afastamento do partido do governo federal é como
o de um rio a caminho do mar, irresistível e crescente. O senador
Maguito Vilela, presidente em exercício do PMDB e virtual candidato
ao governo do Estado, tem feito sistemática oposição
ao governo federal. O PMDB goiano não está reagindo a nenhum
estímulo ético ou ideológico. Reage à pressão
que vem sofrendo do governador tucano, Marconi Perillo, de um lado, e
do prefeito petista, Pedro Wilson, de outro.
Como a popularidade do presidente caiu, ele perdeu parte do poder de atração
sobre as estruturas descentralizadas dos partidos da coalizão.
O esgotamento da agenda de reformas e a falta de uma nova agenda tiraram
outro naco de atratividade da Presidência. As falhas de coordenação
política, que levaram ao rompimento do pacto que cimentava a aliança
governista, tiraram o que restava de recursos políticos para atrair
os aliados e fazer frente às tendências centrífugas
do presidencialismo de coalizão. O resultado é uma governança
atribulada, precária e fragilizada, permanentemente sujeita a perturbações.
Para sair dessa crise, o presidente Fernando Henrique teria de recuperar
a coordenação política e ter uma agenda que mobilizasse
apoio. A crise energética complica o quadro. Mas é uma oportunidade
para que o governo retome a iniciativa, demonstre competência, coerência
e transparência.
A junção da desgovernança com a crise energética
representa o maior desafio de Fernando Henrique desde o Plano Real. E,
como ele, tem potencial para salvar ou afundar de vez seus últimos
meses de mandato e o próprio registro histórico de seu governo.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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