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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Sérgio Abranches

A tragédia dos comuns

"Para sair da crise, FHC tem de recuperar
a coordenação política e ter uma agenda
que mobilize apoio. A crise energética é
uma oportunidade para retomar a iniciativa"



O governo parece estar se acabando em denúncias, crises e pendengas. Nas sessões parlamentares que os canais da Câmara e do Senado mostram só se vê oposição. Na defesa só os líderes, quando ocupam as tribunas, monopolizadas pelos críticos do governo. Há uma crise de governança e a coalizão governista se rompeu. Mas não há uma crise de governabilidade, o presidente não está incapacitado de governar nem acossado por lideranças alternativas, favoritas à sucessão de 2002. Ao contrário, hoje, o cenário que se desenha é uma eleição sem favoritos e com muitos concorrentes.

As reações nos partidos que estavam na coalizão governista e seu entorno, os conflitos entre facções partidárias e a relação deles com o governo federal não estão focados em questões éticas ou na sucessão presidencial. Em outra coluna argumentei aqui que quando o presidente não exerce forte atração sobre sua base ela tende a se fragmentar. Predominam os interesses das partes, quase sempre adversos aos interesses comuns desse conjunto de forças que esteve no poder governamental por quase dez anos.

Manda a lógica dos interesses regionais. A sucessão que está hoje no cálculo dos políticos é a dos governos estaduais. No Brasil, essa lógica da federação é parte do presidencialismo de coalizão e precede a negociação das candidaturas presidenciais. Nos períodos pré-eleitorais, domina todos os grandes partidos, em função das rivalidades estaduais, seja entre facções do mesmo partido, seja entre partidos aliados no plano nacional mas concorrentes estaduais.

O PFL baiano é um bom exemplo: é o mais forte no Estado, Antonio Carlos Magalhães tem o comando do partido sem contestações, mas o PMDB e o PSDB lhe são adversários ferrenhos.

No PMDB de São Paulo, as fortes rivalidades estaduais racharam a convenção partidária entre Orestes Quércia – 53% – e Michel Temer – 47%. Quércia ficou com o comando contestado. Os dois grupos voltarão a se enfrentar na escolha do candidato do partido ao governo do Estado. Os dois postulam a candidatura. Terão de se entender até lá, ou baterão chapa. Suspeita-se que o grupo de Temer deixe o partido se Quércia sair candidato. Em São Paulo, a história pode se repetir. O PSDB nasceu dessas rivalidades e da inconformidade com a convivência com Orestes Quércia.

Iris Rezende e seu grupo sempre foram governistas, desde o governo Sarney. Disse, na convenção de seu partido em Goiás, que o movimento de afastamento do partido do governo federal é como o de um rio a caminho do mar, irresistível e crescente. O senador Maguito Vilela, presidente em exercício do PMDB e virtual candidato ao governo do Estado, tem feito sistemática oposição ao governo federal. O PMDB goiano não está reagindo a nenhum estímulo ético ou ideológico. Reage à pressão que vem sofrendo do governador tucano, Marconi Perillo, de um lado, e do prefeito petista, Pedro Wilson, de outro.

Como a popularidade do presidente caiu, ele perdeu parte do poder de atração sobre as estruturas descentralizadas dos partidos da coalizão. O esgotamento da agenda de reformas e a falta de uma nova agenda tiraram outro naco de atratividade da Presidência. As falhas de coordenação política, que levaram ao rompimento do pacto que cimentava a aliança governista, tiraram o que restava de recursos políticos para atrair os aliados e fazer frente às tendências centrífugas do presidencialismo de coalizão. O resultado é uma governança atribulada, precária e fragilizada, permanentemente sujeita a perturbações.

Para sair dessa crise, o presidente Fernando Henrique teria de recuperar a coordenação política e ter uma agenda que mobilizasse apoio. A crise energética complica o quadro. Mas é uma oportunidade para que o governo retome a iniciativa, demonstre competência, coerência e transparência.

A junção da desgovernança com a crise energética representa o maior desafio de Fernando Henrique desde o Plano Real. E, como ele, tem potencial para salvar ou afundar de vez seus últimos meses de mandato e o próprio registro histórico de seu governo.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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