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Livros Como o passado assombra
os personagens
Numa de suas páginas mais célebres, o ensaísta alemão Walter Benjamin imaginou desta forma o anjo da história: "Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde diante de nós aparece uma cadeia de eventos, ele vê uma catástrofe única, que sem cessar acumula escombros sobre escombros, arremessando-os diante dos seus pés. Ele bem gostaria de poder parar, de acordar os mortos e recompor as ruínas. Mas uma tempestade sopra do paraíso, aninhando-se em suas asas, e ela é tão forte que ele não consegue mais fechá-las". Benjamin morreu em 1940, pouco depois de completar esse texto, tentando escapar do nazismo. Quatro anos mais tarde, já perto do fim da II Guerra, nasceria, também na Alemanha, um escritor cujos personagens observam o mundo com o mesmo assombro e a mesma impotência descritos por Benjamin exceto que não são anjos e só dispõem de suas frágeis habilidades humanas para lidar com o fardo que herdaram do passado. Esse escritor soberbo é W.G. Sebald, cujo último e melhor romance, Austerlitz (tradução de José Marcos Macedo; Companhia das Letras; 287 páginas; 44 reais), chega agora ao Brasil.
Sebald morreu no fim de 2001. Tinha 57 anos, a maior parte dos quais vivida como professor universitário na Inglaterra. Sua estréia literária foi tardia. Depois de publicar um volume de poesia em 1988, ele deu início à seqüência de quatro romances que o consagrou: Vertigem (1990), Os Emigrantes (1992), Os Anéis de Saturno (1995) e Austerlitz (2001). Na verdade, a palavra romance deve ser utilizada de maneira elástica. Seus livros combinam ficção e ensaio, relato de viagem e ruminação filosófica. São ainda álbuns de imagens: gravuras e fotografias se sobrepõem à narrativa algumas talvez feitas pelo próprio autor, outras tiradas de antiquários ou sabe-se lá de quais arquivos. Mas a originalidade de Sebald não deriva do seu passeio pelos gêneros, nem da linguagem que ele usa na essência, límpida e contida, apesar dos extensos parágrafos. Ele não foi um inovador no sentido banal, exibicionista desse termo. Sua originalidade resulta de algo mais profundo do sentimento trágico do mundo que emana de cada uma de suas frases. "Será possível, ainda, a grandeza literária?", perguntou, há alguns anos, a escritora americana Susan Sontag. Os livros de Sebald, inimitáveis e comoventes, lhe deram a resposta afirmativa.
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