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Edição 2058

30 de abril de 2008
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O anjo da História

Como o passado assombra os personagens
do extraordinário escritor alemão W.G. Sebald


Carlos Graieb

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Trecho do livro

Numa de suas páginas mais célebres, o ensaísta alemão Walter Benjamin imaginou desta forma o anjo da história: "Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde diante de nós aparece uma cadeia de eventos, ele vê uma catástrofe única, que sem cessar acumula escombros sobre escombros, arremessando-os diante dos seus pés. Ele bem gostaria de poder parar, de acordar os mortos e recompor as ruínas. Mas uma tempestade sopra do paraíso, aninhando-se em suas asas, e ela é tão forte que ele não consegue mais fechá-las". Benjamin morreu em 1940, pouco depois de completar esse texto, tentando escapar do nazismo. Quatro anos mais tarde, já perto do fim da II Guerra, nasceria, também na Alemanha, um escritor cujos personagens observam o mundo com o mesmo assombro e a mesma impotência descritos por Benjamin – exceto que não são anjos e só dispõem de suas frágeis habilidades humanas para lidar com o fardo que herdaram do passado. Esse escritor soberbo é W.G. Sebald, cujo último e melhor romance, Austerlitz (tradução de José Marcos Macedo; Companhia das Letras; 287 páginas; 44 reais), chega agora ao Brasil.

"Eu nunca soube quem na verdade sou", diz Jacques Austerlitz no início do romance que leva seu nome. Na boca dos personagens de Sebald, essas palavras têm um significado literal e sombrio. Suas vidas sempre foram afetadas pelas tragédias recentes da história européia. E assim eles se debatem entre o desejo de bloquear memórias excessivamente dolorosas e o de recompor sua biografia a partir de fragmentos. Sebald – ou, antes, seu substituto ficcional – é aquele que os acompanha nessa jornada entre fantasmas e destroços, recolhendo seus relatos e compartilhando de sua melancolia. No caso de Austerlitz, a jornada o leva a descobrir a identidade de seus pais, os judeus checos Maximilian e Agáta, que o puseram a salvo, ainda criança, no País de Gales, antes de serem devorados pela guerra – Agáta, no campo de concentração de Terezín.

Sebald morreu no fim de 2001. Tinha 57 anos, a maior parte dos quais vivida como professor universitário na Inglaterra. Sua estréia literária foi tardia. Depois de publicar um volume de poesia em 1988, ele deu início à seqüência de quatro romances que o consagrou: Vertigem (1990), Os Emigrantes (1992), Os Anéis de Saturno (1995) e Austerlitz (2001). Na verdade, a palavra romance deve ser utilizada de maneira elástica. Seus livros combinam ficção e ensaio, relato de viagem e ruminação filosófica. São ainda álbuns de imagens: gravuras e fotografias se sobrepõem à narrativa – algumas talvez feitas pelo próprio autor, outras tiradas de antiquários ou sabe-se lá de quais arquivos. Mas a originalidade de Sebald não deriva do seu passeio pelos gêneros, nem da linguagem que ele usa – na essência, límpida e contida, apesar dos extensos parágrafos. Ele não foi um inovador no sentido banal, exibicionista desse termo. Sua originalidade resulta de algo mais profundo – do sentimento trágico do mundo que emana de cada uma de suas frases. "Será possível, ainda, a grandeza literária?", perguntou, há alguns anos, a escritora americana Susan Sontag. Os livros de Sebald, inimitáveis e comoventes, lhe deram a resposta afirmativa.

 

Contra o Tempo

"Um relógio sempre me pareceu algo ridículo, algo absolutamente mendaz, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo em virtude de um impulso interno que eu mesmo nunca entendi, excluindo-me dos chamados acontecimentos atuais, na esperança de que o tempo não passasse, de que eu pudesse me virar e correr atrás dele, de que lá tudo fosse como antes, ou melhor, de que todos os momentos do tempo existissem simultaneamente uns ao lado dos outros, ou seja, de que nada do que nos conta a história seja verdade."

Trecho de Austerlitz



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