Ser contemporâneo dos fatos
que pretende estudar pode representar uma perigosa armadilha
para o historiador. Apesar de saber disso, muitas vezes ele
não resiste ao empuxo de certos episódios do presente,
que saltam da condição de meros acontecimentos
para se alojar no patamar da história. Foi o que ocorreu
em 1989 com o inglês Tony Judt um intelectual londrino
formado no Kings College e na École Normale Supérieure,
e hoje professor titular de estudos europeus na New York University.
Enquanto fazia uma baldeação no movimentado terminal
ferroviário de Viena, proveniente de Praga, Judt teve
a idéia de escrever um livro que sintetizasse a história
européia entre 1945, quando as forças aliadas
venceram o embate contra as potências do Eixo, e os tumultuados
dias que estava vivendo. A inspiração não
era gratuita na capital checa, ele acabara de presenciar
a derrocada do regime comunista. A resposta de Judt ao seu próprio
desafio veio à tona em 2005 sob a forma do extraordinário
Pós-Guerra Uma História da Europa
desde 1945 (tradução de José Roberto
OShea; 880 páginas; Objetiva; 79,90 reais), que
chega agora às livrarias brasileiras.
O
historiador reconstitui um período complexo e decisivo sessenta
anos de história, da derrota do nazi-fascismo à consolidação
da União Européia, passando pelos anos da Guerra Fria em
um texto fluente e esclarecedor. Didático, ele se demora nos capítulos
referentes aos projetos de reconstrução da Europa, uma terra devastada
em 1945, com recursos do bem urdido Plano Marshall (1948-1951). Segundo Judt,
para os europeus, o maior impacto do programa difundido pelo ex-secretário
de estado americano George Marshall foi psicológico a confiança
na idéia de que era possível recomeçar , embora os
gastos tenham chegado a 13 bilhões de dólares (hoje, calcula o historiador,
seriam 200 bilhões). Nesse vasto painel histórico, o ponto forte
é o relato da desintegração do comunismo na Europa, que culminou
com o desaparecimento da União Soviética. Ao contrário de
historiadores como o americano John Lewis Gaddis, notável estudioso da
Guerra Fria, Judt não atribui a Ronald Reagan nem ao papa João Paulo
II o lugar de atores-chave da debacle comunista. Para o autor de Pós-Guerra,
a figura central do processo foi o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev.
"Ele não planejou os eventos e apenas vagamente entendia a importância
dos fatos a longo prazo. Mas permitiu e precipitou os acontecimentos", enfatiza
Judt, convencido de que os Estados Unidos não derrubaram o comunismo
ele "implodiu sozinho".
Pós-Guerra,
adverte modestamente o autor, não traz nenhuma "grande teoria"
a respeito da Europa atual. Mas mostra como o continente outrora imperialista
forjou um novo modelo político, econômico e social que, consubstanciado
na instituição da União Européia, pretende servir
de parâmetro para o resto do planeta. Esse "modelo europeu" contempla
mecanismos para regular as relações (muitas vezes complicadas) entre
os diferentes estados-membros e, sobretudo, tenta conciliar o poder do estado
e a liberdade econômica, numa alternativa ao liberalismo mais ortodoxo do
"modelo americano" assim como o estilo de vida à moda
européia rivaliza com o american way of life. Se tal fórmula
for bem-sucedida, é possível que "o século XXI seja
o da Europa", diz Judt. Otimista em relação à força
da história, o autor faz uma profissão de fé na ciência
a que se dedica: "Se em anos vindouros quisermos nos lembrar por que nos
pareceu tão importante construir um determinado tipo de Europa a partir
dos crematórios de Auschwitz, somente a história poderá nos
ajudar. A União Européia pode ser uma resposta à história,
mas jamais poderá ser uma substituta", ensina.
Três faces da Europa
Avaliações
do historiador Tony Judt sobre líderes que marcaram a segunda metade
do século XX
Charles
de Gaulle, presidente da França de 1958 a 1969 "Tinha um
estilo tradicional e um declarado descaso pelos detalhes do planejamento econômico.
Os adversários atacaram a maneira pela qual o general exercera o poder,
mas os recursos e ornamentos de um poder presidencial irrestrito agradaram aos
sucessores do general, de todas as inclinações políticas."
Hulton
Archive/Getty Images
Margaret
Thatcher, primeira-ministra da Inglaterra de 1979 a 1990 "Seu
fascínio era inegável. Uma surpreendente variedade de estadistas
durões confessava, extra-oficialmente, achá-la sensual. François
Mitterrand, bem versado no assunto, a descreveu como tendo olhos de Calígula
e boca de Marilyn Monroe."
Mikhail
Gorbachev, o último secretário-geral do partido comunista soviético,
de 1985 a 1991 "O feito de Gorbachev foi inusitado. Nenhum outro
império registrado pela história abandonou seus domínios
de maneira tão súbita. A Gorbachev, diretamente, não pode
ser atribuído o crédito pelo que ocorreu em 1989. Mas ele precipitou
os acontecimentos. Foi a revolução de Gorbachev."