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Edição 2058

30 de abril de 2008
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Internacional
Vitória do hidropopulismo

A promessa de renegociar o contrato de Itaipu com o Brasil ajuda bispo a vencer a Presidência paraguaia e põe o Itamaraty à prova


Duda Teixeira, de Assunção

Fernando Lugo, o presidente eleito: ele quer ganhar mais pela energia que o Paraguai vende ao Brasil


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O resultado das eleições presidenciais no Paraguai, na semana passada, representa uma bênção e um risco. Uma bênção porque interrompe uma hegemonia de 61 anos de um único partido no poder, o Colorado, que reina sobre uma máquina estatal corrupta e morosa. Um risco porque o eleito foi Fernando Lugo, um bispo católico que construiu seu capital político defendendo invasões de fazendas por agricultores sem-terra e passou boa parte da campanha tentando provar que não será um governante populista ao estilo do venezuelano Hugo Chávez ou do boliviano Evo Morales. Se Chávez inventou o petropopulismo, Lugo triunfou nas urnas com uma variante, o hidropopulismo. Em comum, a retórica de ambos apresenta a riqueza natural (petróleo, rios, terra cultivável) como a solução para as mazelas do país, desde que deixe de ser indevidamente explorada por estrangeiros. No caso do Paraguai, os estrangeiros "exploradores" são os brasileiros: a principal promessa de campanha de Lugo é exigir que o Brasil pague mais pela energia que compra da cota paraguaia na usina de Itaipu. Pelo contrato em vigor, cada país tem direito a metade da produção da hidrelétrica binacional – e, se houver excedente, ele tem de ser vendido ao parceiro.

Com seu plano de aumentar em mais de cinco vezes o preço a ser pago pela energia, Lugo toca fundo em um mito absurdo, mas enraizado entre os paraguaios – o de que o Rio Paraná, na fronteira com o Brasil, lhes pertence. "Se a água do rio é nossa, não há razão para a eletricidade ser do Brasil", diz Jorge Galeano, cabo eleitoral de Lugo, dirigente do Movimento Agrário Popular (os sem-terra paraguaios) e membro do grupo Tekojoja, especializado em fazer passeatas contra o "imperialismo brasileiro". Detalhe: a construção de Itaipu foi integralmente paga pelo Brasil. A mistura de nacionalismo, crença nas riquezas naturais como solução para a pobreza e sentimento antibrasileiro já rendeu problemas na Bolívia, onde Morales expropriou refinarias da Petrobras, em 2006. As nacionalizações tiveram como efeitos a queda nos investimentos estrangeiros no país e a incapacidade da Bolívia de cumprir com o contrato de fornecimento de gás ao Brasil. No episódio boliviano, o governo brasileiro foi pego de surpresa pelas expropriações. Agora, com Lugo, o Itamaraty enfrenta um novo teste na defesa dos interesses brasileiros. "O governo precisa afinar melhor o seu discurso em relação à questão da usina", diz Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos. No início da semana passada, o presidente Lula disse que o Brasil não vai rever o Tratado de Itaipu. No mesmo dia, o chanceler Celso Amorim não descartou a possibilidade de um eventual reajuste dos preços da energia pagos ao Paraguai. A declaração do ministro agradou aos paraguaios. Na sexta-feira, o Itamaraty confirmou que a posição oficial do governo brasileiro é que não haverá renegociação do preço.

Há pelo menos dois indícios de que será mais fácil para a política externa brasileira lidar com Lugo do que com Morales ou Chávez. O primeiro é que o bispo foi eleito com a ajuda não apenas de grupos de esquerda e militantes sem-terra mas também de partidos de centro-direita, como o Liberal, que havia décadas buscavam uma oportunidade para quebrar o domínio colorado no país. Ou seja, há moderados na base de apoio de Lugo, que vai precisar de seus votos no Congresso para poder governar. "O programa de Lugo não é estatizante nem pretende criar tensões com investidores externos", diz o senador Juan Carlos Ramírez, do Partido Liberal. "Estamos muito longe de seguir os passos de Hugo Chávez." O segundo sinal de que Lugo pode incomodar menos que outros colegas populistas da América Latina é o fato de que não há muito que ele possa fazer na questão de Itaipu. Ao contrário do ocorrido com as refinarias na Bolívia, Lugo não poderá nacionalizar a hidrelétrica nem ocupá-la com soldados. Na semana passada, comentando a recusa de Lula em negociar o preço da energia, Lugo disse que poderia utilizar outras vias para conseguir seu objetivo – entenda-se recorrer à arbitragem internacional.

Os brasileiros com mais probabilidade de se incomodar com Lugo são os fazendeiros. Nos últimos anos, eles transformaram o Paraguai no quarto maior exportador de soja do mundo. Lugo quer assentar mais de 300.000 famílias sem-terra em fazendas sem títulos de propriedade, o que afetaria muitos produtores brasileiros. Como diz o ditado paraguaio, "um manco só se revela quando anda". Da mesma forma, Lugo vai mostrar sua verdadeira faceta apenas quando começar a governar. Por enquanto, ele é mais uma inusitada figura política do tipo que a América Latina é pródiga em criar: o primeiro bispo católico no mundo a ser eleito presidente de um país. Ao se candidatar, ele desobedeceu às regras do Vaticano e foi suspenso temporariamente de suas funções sacerdotais. Celibatário, Lugo já avisou que sua irmã, Mercedes, assumirá as tarefas de primeira-dama.



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