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Edição 2058

30 de abril de 2008
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Internacional
Começar com a Casa Branca na mão e terminar
apenas com dois candidatos voando é...

... o dilema democrata


André Petry, de Nova York

Jessica Rinaldi/Reuters
O Gandhi de paletó e a candidata a Pinóquio, num enésimo debate na televisão: risco de infecção petista

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Perguntas e respostas: A campanha eleitoral

Estará o Partido Democrata dos Estados Unidos na rota de contrair a mesma infecção do Partido dos Trabalhadores de Lula na década passada? Nas sucessivas eleições que disputou até ganhar, Lula saboreou a liderança nas pesquisas, em alguns casos com dianteira que parecia imbatível, mas sua candidatura, por uma razão ou outra, acabava derretendo antes da linha de chegada. Em 1994, por exemplo, faltando seis meses para a eleição, Lula tinha quase o dobro das intenções de voto de Fernando Henrique Cardoso. Nas urnas, com a lavada do Plano Real, perdeu já no primeiro turno. Será esse o destino dos democratas: largar bem e murchar lá na frente? Há poucos meses, a eleição deste ano estava na mão deles. Por razões óbvias. Depois de sete anos sob o comando do republicano George W. Bush, os Estados Unidos ficaram um país pior. Estão metidos numa guerra impopular e interminável, escorregam para uma recessão cada vez mais provável e sua influência mundial sofre contestações em todas as frentes. Setenta por cento dos americanos querem ver Bush pelas costas. Nada disso mudou nas últimas semanas, a popularidade do presidente continua pedestre, mas o otimismo democrata começa a exibir sintomas de exaustão.

Tudo porque, uma primária após a outra, a disputa entre os senadores Barack Obama e Hillary Clinton continua sem um vencedor. Na semana passada, depois da votação na Pensilvânia, os democratas permaneceram diante de um cenário imutável. Hillary venceu Obama com 10 pontos de vantagem, 55% a 45%, cravando uma vitória inequívoca, mas o quadro geral mantém o Partido Democrata no pior dos mundos: nem Hillary está fraca demais para desistir (tanto que ganhou na Pensilvânia) nem Obama está forte demais para se proclamar vencedor (tanto que perdeu na Pensilvânia). Assim encruadas, as primárias democratas estão ficando com a cara dos discursos do senador Eduardo Suplicy: não mudam nada e não terminam nunca, mas todo mundo aplaude. Sim, as primárias são um sucesso de público e crítica, exibem o vigor da democracia americana e a diversidade ímpar de um partido que lança uma mulher e um negro, mas a duração da disputa já causa apreensão no consistório democrata. Enquanto Obama e Hillary pulam de debate em debate na televisão e brigam entre si, o republicano John McCain, com a candidatura já garantida, faz campanha sem ser importunado. Na semana passada, dava-se ao desfrute de visitar "lugares esquecidos da América", nos quais colhia aplausos, votos e imagens para seus programas eleitorais na TV.

A cúpula democrata teme que uma batalha longa e sangrenta fragilize o escolhido na hora de disputar a eleição em novembro, mas não existe um padrão histórico em que se possa confiar. Em 1960, John Kennedy enfrentou uma disputa demorada e amarga dentro do Partido Democrata, mas, depois de levar a indicação, venceu o republicano Richard Nixon – vitória apertadíssima, mas inquestionável. Os longos meses de primárias talvez tenham sido até uma vantagem para Kennedy. Aos 43 anos, ele ganhou um palco permanente para se tornar conhecido pelo eleitorado. Duas décadas mais tarde, deu-se o contrário. O presidente Jimmy Carter, querendo concorrer à reeleição, suou para conquistar a candidatura, mas acabou levando uma surra histórica do republicano Ronald Reagan. Quem descobrir o que faz um candidato de sucesso terá encontrado o Santo Graal da política, mas, enquanto isso não acontece, parece que os fatos, fabricados ou não, pesam mais que a duração de uma prévia. Antes da eleição de 2004, a aparição de Osama bin Laden num vídeo ajudou Bush a derrotar o insosso John Kerry e reeleger-se. Em 2006, quando o eleitor já trocara o medo do terrorismo pelo espanto diante da inépcia da Casa Branca em socorrer as vítimas do Katrina, os democratas deram o troco e fizeram maioria no Congresso.


Uriel Sinai/Pool/Reuters
McCain, ao vento, mas com lenço e com documento: viagens a lugarejos, votos, aplausos e óculos prafrentex

Ainda que se saiba se contendas intermináveis são boas ou ruins, é certo que ninguém as recomenda. Afinal, não é preciso ser um PMDB para que uma competição demorada degenere num confronto agressivo e abra feridas difíceis de cicatrizar. Além disso, quanto mais longa a corrida, maior a probabilidade de os candidatos tropeçarem nos próprios pés. Obama e Hillary têm sido maratonistas exímios nesse quesito. Ninguém perguntou a Obama o que ele achava daquele pedaço do operariado branco da Pensilvânia que insiste em lhe negar o voto, mas ele resolveu dizer – em privado, mas vazou para o público – que era uma gente "amarga" que, na hora da dificuldade, "se aferra à fé e às armas". Depois disso, é surpreendente que ainda tenha levado 45% dos votos locais. Hillary, que gosta de apresentar-se mais como candidata ao posto de comandante-em-chefe do que ao cargo de presidente da República, inventou de dizer que, em 1996, desembarcou na Bósnia debaixo de fogo cruzado. A lorota destinava-se a reforçar sua imagem de mulher de pulso forte capaz de liderar um país "em guerra" num mundo "em perigo". Logo apareceu um vídeo que mostrava Hillary desembarcando no aeroporto calmamente, junto com a filha Chelsea. Ambas sorriam.

Não fosse o estrago das primárias, Hillary poderia concorrer com McCain sem se expor ao risco de ser chamada de Pinóquio, e Obama ainda ostentaria aquela aura de Gandhi de paletó. Uma das boas piadas políticas da temporada diz o seguinte: "Os democratas precisam escolher um de dois candidatos: Hillary, que nasceu em Illinois e fez carreira em Nova York, e Obama, que fez carreira em Illinois e parece que nasceu numa manjedoura". Parecia, antes do bombardeio das primárias. Agora, abriu-se uma divisão dentro do próprio eleitorado democrata. Uma pesquisa recente mostrou que 19% dos eleitores de Obama dizem que não votarão em Hillary em novembro se ela for a candidata do partido. Preferem McCain. Se Obama for o candidato, três em cada dez eleitores de Hillary afirmam que votarão em McCain. É uma sangria perigosa. Talvez seja efeito da luta fratricida que expõe à luz os podres de cada lado, mas também pode ser conversa mole de eleitor. Em 2000, nas prévias dos republicanos, mais da metade dos que apoiaram McCain diziam que negariam seu voto a Bush e escolheriam John Kerry. A maioria estava só fazendo marola. Na urna, sete em cada dez cravaram Bush.


Wilson/AP
AP
Os dois tiveram prévias duras e destino desigual: Carter (à esq.) levou uma surra, Kennedy levou a Casa Branca

Apesar da derrota da semana passada, Obama mantém o jogo a seu favor: tem mais votos populares, mais delegados eleitos, mais vitórias estaduais – e, embora ainda perca em número de superdelegados, a cada semana rouba de Hillary o apoio de um deles. Obama, portanto, tem tudo para levar a indicação, mas não leva. Os superdelegados, codinome da cartolagem que tem direito previamente assegurado de votar na convenção do partido, poderiam colocar um ponto final na pendenga. O fato de não tomarem uma atitude, seja anunciando sua preferência, seja conclamando Hillary a desistir, emite dois sinais: mostra a influência que os Clinton exercem sobre a máquina do partido e revela uma insegurança em relação à consistência da candidatura de Obama. Em que pese sua dianteira, Obama ainda não venceu em estado com peso eleitoral e não consegue atrair a turma que veste macacão, tem pele branca e vai à igreja. Na Pensilvânia, Hillary ficou com 60% dos votos dos brancos e 70% dos católicos. Obama compensou abocanhando 92% dos negros, deixando apenas 8% para Hillary. Mas será que um candidato que não atrai o voto dos brancos e religiosos é capaz de vencer um republicano como McCain?

Com sua estampa simpática e óculos escuros de velhinho prafrentex, McCain vem crescendo pelos méritos próprios e pelos deméritos alheios. Sua campanha é bem orientada, tem bússola, lenço e documento, e tenta equilibrar-se numa distância clínica do impopular Bush: nem tão longe que pareça desprezo covarde, nem tão perto que pareça aliança ardente. Os ataques de Obama contra Hillary (pesos-pena, pontuais) e os ataques de Hillary contra Obama (pesos-pesados, generalizados) fazem o resto do serviço a favor de McCain. Em números. No ano passado, foram divulgadas 59 pesquisas confrontando Hillary e McCain. A senadora apareceu na frente em 34, empatou em cinco e perdeu em vinte. No caso de Obama, foi um rolo compressor. Em cinqüenta pesquisas, ele venceu McCain em 33, empatou em oito e perdeu em apenas nove. No balanço total, o saldo é o seguinte: de 109 pesquisas divulgadas no ano passado, os democratas ganharam em 67 e perderam em 29. Isso mostra que, com qualquer dos candidatos, os democratas estavam sobrando no jogo. Mas o quadro mudou. Nas pesquisas mais recentes, McCain perde para os dois, mas pode ser apenas ilusão estatística: a diferença, em ambos os casos, diminuiu tanto que agora fica dentro da margem de erro.



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