O
Nobel de Economia diz que a recessão americana ainda não começou
e que o Brasil tem tudo para se beneficiar da crise
André
Petry, de Nova York
David Karp/AP
"O
dólar em queda não será bom para as exportações
brasileiras, mas pode fazer bem à produção e ao emprego"
Edmund Phelps é um dos acadêmicos
que mais incomodaram a vida dos políticos perdulários e populistas.
Junto com Milton Friedman, um dos papas do liberalismo, Phelps criou os fundamentos
da moderna política monetária. Com seus trabalhos, ele provou que
era furada uma tese que reinou absoluta por anos a de que a inflação
podia reduzir o desemprego. A tese fazia a delícia de governantes populistas,
que se descuidavam da inflação achando que seriam premiados com
a queda do desemprego. O trabalho de Phelps é a razão pela qual,
hoje, não há banco central no mundo que deixe de cuidar com zelo
da estabilidade de preços. Nesta entrevista, o ganhador do Nobel de Economia
de 2006 mais uma vez rema contra a maré. Para ele, a recessão dos
Estados Unidos ainda não deu as caras, país nenhum deve lutar para
ter pleno emprego e, com a crise atual, o Brasil tem muito a ganhar, ampliando
a produção de riqueza e a oferta de emprego. "Fiz algumas checagens
estatísticas e descobri que essa tese pode realmente funcionar", diz
ele, que participará de um seminário no Brasil no fim de maio. Na
modesta sala que ocupa na Universidade Columbia, onde é professor, sentado
a uma pequena mesa atulhada de livros, Phelps deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
Os eleitores democratas da Pensilvânia votaram nas primárias
da terça-feira passada pensando na economia. Uma pesquisa com eles mostrou
que 90% acham que os Estados Unidos já estão em recessão.
Eles têm razão? Phelps Ainda é cedo demais
para dizer. Para caracterizar uma recessão, não bastam três
ou quatro meses de crescimento negativo, é preciso mais tempo. Uma recessão
típica promove uns oito meses de declínio. Agora, é inegável
que há uma impressão generalizada de que os Estados Unidos já
estão em recessão, sobretudo porque o desemprego está aumentando.
Isso acaba tendo um efeito na economia.
Veja
Se ainda não é possível afirmar que a recessão
já chegou, é possível especular se virá ou não? Phelps
São grandes as probabilidades de a recessão chegar. A
dificuldade de fazer uma afirmação peremptória está
no fato de que os dados se entrecruzam e se entrechocam. Por exemplo, as exportações
americanas vão muito bem, a taxa de produtividade também. São
dados que caminham contra a idéia de recessão. Mas, apesar disso,
eu diria que é grande a possibilidade de que ela ocorra.
Veja
Ela será longa ou curta? Phelps Não
tenho bola de cristal, tudo depende de quanto tempo será preciso para o
setor financeiro retomar seu funcionamento normal. E também da capacidade
de recuperação dos gastos com bens de capital, do nível de
investimento que teremos.
Veja
Será leve ou pesada? Phelps Olhando
para o cenário deste momento, eu diria que não será muito
pesada, mas é bom não esquecer que os desdobramentos vão
depender do comportamento dos consumidores, das grandes empresas, do mercado acionário.
Veja Na base
da atual crise está o estouro da bolha imobiliária. Por que a situação
chegou a esse ponto? Phelps Os Estados Unidos não
são o único país a viver essa situação. A Irlanda,
a Holanda e a Inglaterra, por exemplo, tiveram um aumento de preço no setor
imobiliário ainda mais espetacular do que o ocorrido no mercado americano.
O fato é que qualquer boom, seja em que área for, tende naturalmente
a ir longe demais. Com o mero término do boom imobiliário, já
teríamos um desaquecimento da economia americana. Mas eu acredito que o
mercado financeiro foi ingênuo ao não se dar conta da possibilidade
na verdade, da probabilidade de que as taxas de juro voltariam em
algum momento a seu patamar normal, histórico. O mercado estava despreparado
e, por isso, foi pego de surpresa.
Veja
Faltou o quê? Phelps Faltou visão
estratégica.
Veja Com a ordem econômica mundial em transformação e os países
emergentes ganhando espaço, os Estados Unidos já não fazem
tanta diferença como antes? Phelps Certamente, não.
Os Estados Unidos hoje respondem por uma fatia menor da riqueza mundial, e a economia
da Europa, graças ao euro, ganhou em dinamismo e em capacidade de recuperação,
tanto que os países europeus têm respondido razoavelmente bem à
crise financeira.
Veja O Brasil tem algo a ganhar com essa crise? Phelps Geralmente,
uma situação como a atual gera duas conseqüências conflitantes.
A primeira, obviamente, é que as exportações brasileiras
vão sofrer, se é que já não começaram a sofrer.
O outro ponto é que, se a economia americana de fato entrar numa recessão,
seja ela longa ou curta, a demanda por investimento nos Estados Unidos vai se
enfraquecer. Isso tenderá a derrubar as taxas de juro pelo mundo afora.
Disso resultará um efeito positivo no nível de investimento no Brasil.
Uma situação semelhante aconteceu nos anos 70. Não lembro
se a década de 70 foi um período de prosperidade para o Brasil,
mas a lógica indica que deve ter sido.
Veja
Nos anos 70, o Brasil cresceu em ritmo chinês. Phelps
Isso fortalece uma hipótese que tenho aventado sobre a América
Latina. Entre 1920 e 1940, talvez até nos anos 50, os Estados Unidos passaram
por uma brutal transformação da indústria, com um crescimento
fenomenal da produtividade. O modo como as coisas eram produzidas e também
o tipo de coisas que eram produzidas mudaram. Um processo semelhante, embora muito
menos profundo, aconteceu na Itália, na França, na Alemanha, no
início do século passado. A América Latina ficou para trás,
mas entre os anos 50 e 70 as economias latino-americanas começaram a reagir.
Depois, voltaram a desacelerar, porque o fosso de produtividade entre a América
Latina e os Estados Unidos ficou gigantesco.
Veja
Se a América Latina pode ganhar com a crise, o Brasil pode
ganhar com o real forte? Phelps Pode, sim. A moeda forte
no Brasil poderá levar a uma disciplina na produção doméstica
brasileira, com o objetivo de manter seu mercado e seus consumidores, os quais,
se não forem bem tratados, podem ir embora. Isso poderá ter repercussão
positiva na produção de riqueza e no mercado de trabalho, aumentando
a oferta de empregos. Talvez seja a hipótese mais estranha que você
já tenha ouvido de um economista acadêmico, mas cheguei a fazer algumas
checagens estatísticas e descobri que essa hipótese pode realmente
funcionar nesse sentido. É claro que o dólar em queda não
será bom para as exportações brasileiras, como já
disse, mas pode fazer bem à produção como um todo e ao emprego
como um todo. Aliás, os brasileiros não têm muito do que reclamar
sobre queda nas exportações. Elas cresceram tanto nos últimos
anos que o país pode conviver bem com alguma perda agora.
Veja
Dos candidatos presidenciáveis que estão aí,
qual deles está mais preparado para administrar os Estados Unidos em crise
econômica? Phelps Qualquer resposta representará
uma preferência pessoal. Acho melhor não discutir isso, portanto.
Veja
Em quem o senhor vai votar? Phelps Nem sei
dizer se o meu candidato terá seu nome na cédula.
Veja
Uma vez que John McCain está garantido como candidato republicano,
isso significa que o senhor vota num democrata? Phelps Pode
ser. Mas também pode ser o contrário.
Veja
Os democratas Barack Obama e Hillary Clinton parecem disputar o
troféu de quem é mais protecionista, de quem critica mais os acordos
de livre-comércio. Se um deles for eleito, o país ficará
mais protecionista do que já é? Phelps É
preciso observar que, muito antes da atual disputa eleitoral, já estava
aberta a temporada de crítica ao livre-comércio por parte do Congresso
americano. Lá dentro, deve haver um, talvez dois parlamentares a favor
do livre-comércio. Essa é a realidade. O Congresso americano é
brutalmente protecionista. Como seus eleitores sofreram com os tratados comerciais,
e eles querem ser reeleitos, então batem duro nos acordos comerciais. Não
digo que os deputados e senadores americanos defendam zero de livre-comércio.
Digo apenas que eles defendem o mínimo possível. E isso não
é de hoje.
Veja Com a crise financeira, voltou-se a falar sobre a necessidade de regular mais
o mercado. O senhor concorda que é preciso colocar rédeas em Wall
Street? Phelps Seria útil se os Estados Unidos colocassem
em prática a regulamentação que já existe. Minha impressão
é que o Federal Reserve (o banco central americano) não foi
tão crítico quanto deveria ter sido em relação às
práticas de empréstimo no mercado. Gramlich (ele se refere a
Edward Gramlich, diretor do Federal Reserve, que, até agosto de 2005, cuidava
da área de regulamentação do mercado financeiro. Morreu de
leucemia, aos 68 anos, em setembro do ano passado) era muito correto, sério
e respeitado por seus colegas. Era meu amigo. A certa altura, ele teve um atrito
com Alan Greenspan, que foi presidente do Fed até 2006, e é difícil
dizer se isso o deixou de algum modo intimidado no trabalho. O fato é que
a maioria das pessoas acha que o Fed tinha de ter sido mais ativo contra as práticas
predatórias de empréstimo.
Veja
O pleno emprego, ou taxa de desemprego de 0%, é uma utopia? Phelps
É uma utopia.
Veja
Uma utopia desejável? Phelps Nem desejável
é. Quando uma pessoa é demitida, é bom que passe algum tempo
em busca de algo melhor para si mesma. Não é desejável que
alguém fique desempregado hoje, saia correndo atrás de outro emprego
e esteja reempregado amanhã. Numa situação em que há
oferta de emprego, é bom olhar, pensar, ponderar diante das opções.
Infelizmente, a natureza humana é tal que, com 0% de desemprego, muita
gente abusaria do sistema, e o custo do emprego ficaria muito alto. Karl Marx
sabia disso perfeitamente. É uma pena que várias gerações
de economistas tenham vivido sem entender isso.
Veja
Como estudioso da inflação, o senhor diria que ela
pode estar de volta? Phelps Acredito que não.
Veja
Existe uma taxa ideal de inflação? Phelps
Isso muda de país para país, de circunstância para
circunstância. De modo geral, quando eu era mais jovem, admitia uma inflação
na faixa de 4%. Hoje, como estou mais velho e mais conservador, ficaria satisfeito
com uma taxa entre 2% e 3%.
Veja
O senhor disse que, no Ocidente, há dois sistemas econômicos,
ambos capitalistas. O dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, que é
aberto à inovação, e o da Europa continental, que se preocupa
mais em proteger os interesses dos agentes econômicos, dos parceiros, dos
trabalhadores, o que tira dinamismo do sistema. O Brasil é como a Europa? Phelps
Conheço pouco o Brasil, mas, por ser casado com uma argentina
há 34 anos, tenho alguma informação. O Brasil, para começar,
tem uma legislação trabalhista inspirada no fascismo de Mussolini,
e isso provoca muitas dificuldades para os empreendedores, para os que querem
abrir um negócio, e essa gente é o celeiro das inovações,
é a personificação do dinamismo econômico. Por isso,
eu diria que o Brasil está mais para a Europa do que para os Estados Unidos.
Veja
O Brasil é um país pouco inovador? Phelps
Eu diria que não. Talvez o Brasil seja um dos países
mais inovadores da América Latina, certamente mais do que a Argentina ou
a Venezuela. O Brasil deve ser até admirado pelo espírito empreendedor
de seus agentes econômicos, mas não sei se o sistema financeiro é
de alto nível, se está capacitado para trabalhar com essa demanda.
Tenho curiosidade em descobrir. Se eu tiver tempo, farei isso na minha próxima
viagem ao Brasil.
Veja Qual é o país mais inovador da América Latina? Phelps
Apostaria que é o próprio Brasil, mas talvez porque eu
não conheça o Chile o bastante. Isso não quer dizer que não
haja inovação em outros países. Claro que há, em alguns
setores. Na Argentina, por exemplo, a produção de vinhos na região
de Mendoza é uma prova disso. Não sei por que o Brasil não
produz vinhos como a Argentina.
Veja
Qual deveria ser a prioridade número 1 do Brasil para crescer? Phelps
Inovação, justamente. Quanto mais inovação,
melhor. A inovação aumenta o nível de investimento, produz
emprego, estimula a criatividade. Sempre haverá altos e baixos, mas é
melhor viver num país que inova do que num país que não inova.
Veja
É comum o Nobel de Economia ser dividido entre dois ou mais
economistas. O senhor recebeu o Nobel sozinho. Isso fez diferença? Phelps
Suponho que me deu um pouco mais de visibilidade e não fiquei
perdido no meio da multidão.
Veja
O que o senhor fez com o prêmio de 1,4 milhão de dólares? Phelps
Está a salvo, depositado no banco. Bem, isso se o banco estiver
a salvo...!