Uma reportagem da
presente edição de VEJA mostra que é um
erro comum confundir o potencial de tratamentos e curas que
se podem obter com o uso de células-tronco embrionárias
com os benefícios terapêuticos prometidos pelas
células-tronco adultas. Essa diferenciação
é crucial. Enquanto as primeiras podem cortar caminho
rumo ao tratamento eficaz de uma miríade de doenças
hoje consideradas irreversíveis, as segundas, infinitamente
menos potentes, projetam uma rota bem mais longa e tortuosa.
Seria apenas uma confusão comum e compreensível,
dada a complexidade do tema, se ela não estivesse sendo
usada de forma proposital para tentar convencer os ministros
do Supremo Tribunal Federal (STF) da inutilidade do uso de células-tronco
embrionárias.
Como se sabe, o STF
está em processo de julgamento da constitucionalidade
das pesquisas com embriões liberadas pela Lei de Biossegurança
em 2005. O mesmo lobby religioso que levou a questão
até o STF trata agora de confundir a cabeça dos
ministros. Faz-se uso da tese falaciosa e desamparada pela ciência
de que as duas linhas de pesquisa se equiparam. Elas são
coisas totalmente diferentes. Uma não anula a outra.
O uso de células
embrionárias é, no atual estágio da ciência,
a mais tangível promessa de cura de doenças sérias
e incapacitantes. Quanto mais cedo as pesquisas começarem,
mais rapidamente os resultados serão atingidos. Por essa
razão, é inquietante que a votação
esteja há quase dois meses parada no STF em razão
do pedido de vista do processo feito pelo ministro Carlos Alberto
Menezes Direito. A maioria dos colegas do ministro Direito já
fez saber que é favorável à liberação
das pesquisas. Eles foram tocados pela argumentação
de que não se atenta contra a ética ou a moral
religiosa, uma vez que os embriões usados nas pesquisas,
obtidos em tubos de ensaio, são inviáveis para
o implante em úteros maternos e destinados a ser descartados
quando ainda invisíveis a olho nu. A posição
dissidente do ministro Direito é conhecida. Ele vota
como quiser. Mas não é razoável atrasar
por mais tempo o desfecho de um processo capaz de melhorar a
qualidade de vida de milhares de brasileiros.