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Edição 2058

30 de abril de 2008
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André Petry
O tronco e o carvão

"Europeus estão voltando a apostar no carvão.
Mas espera-se que o Greenpeace não se esqueça
do Brasil. E nem do atum dos mares do Pacífico.
Não há luta mais comovente do que proteger atuns"

Há poucos dias, o Greenpeace colocou um enorme tronco de tauari, com 10 metros de comprimento e 10 toneladas de peso, em frente à Embaixada do Brasil em Berlim, capital da Alemanha. Era um protesto contra o desmatamento. Como todas as ações do Greenpeace, essa também foi cênica, midiática. O tronco, disseram os morubixabas do Greenpeace, simbolizava "milhares de árvores que são queimadas diariamente na Amazônia", jogando gás carbônico na atmosfera e agravando o efeito estufa. Os brasileiros devem ficar gratos pelo incansável esforço do Greenpeace em manter a Floresta Amazônica de pé.

Pouco antes, o Greenpeace fez outro protesto, só que no Rio de Janeiro. Em frente à sede da Eletrobrás, militantes colocaram vários vasos sanitários, pintados de amarelo e preto, e simularam jogar moedas gigantes lá dentro. Vestidos com roupas que parecem de astronauta mas são próprias para proteger da irradiação nuclear, eles protestavam contra a construção da usina nuclear de Angra 3. Dizem que vai custar os olhos da cara. Os brasileiros devem ficar gratos porque o Greenpeace, além de cuidar da ecologia, também zela pelo bom uso do dinheiro público no Brasil.

Enquanto o Greenpeace fazia todas essas coisas boas para o Brasil, os principais países da Europa seguem refazendo uma aposta: investir em usinas a carvão, a fonte de energia mais suja e poluidora do planeta. A Enel, a maior empresa energética da Itália, está nesse caminho. Nos próximos cinco anos, a Itália pretende duplicar sua dependência do carvão. Nesse mesmo período, deve ser construída meia centena de usinas a carvão na Europa. Nesse projeto, além da Itália, estão a Alemanha, a República Checa e até a Inglaterra, que havia mais de uma década não fazia uma usina a carvão.

O pessoal do Greenpeace tem protestado contra a renascença do carvão na Europa, mas a coisa acontece com uma delicadeza que pouca gente fica sabendo. É mais bacana, e mais rentável, fazer protesto na Floresta Amazônica, convencer gringo a adotar pé de tauari e evitar que republiquetas inventem de seguir o caminho da França, dona da segunda maior oferta mundial de energia nuclear, atrás apenas dos Estados Unidos.

A energia nuclear é a mais limpa do planeta, mas o pessoal do Greenpeace combate o que chama de "sujo poder nuclear". E diz que energia nuclear é muito perigosa. Exemplo? Chernobyl, o pior desastre nuclear da história. Aconteceu há 22 anos. Three Mile Island, o pior desastre dos Estados Unidos. Aconteceu há 29 anos. Césio 137, o pior desastre nuclear do Brasil. Aconteceu há vinte anos, e mais uma leva de vítimas acaba de ganhar direito à pensão vitalícia, de quase 500 reais, concedida pelo governo de Goiás.

Os europeus dizem que suas novas usinas serão de "carvão limpo", exotismo que a humanidade ainda desconhece, mas vá lá. Também dizem que vão recapturar o gás carbônico da atmosfera, tecnologia que também não existe e, de tão cara, ninguém sabe se um dia será exeqüível, mas vá lá. Espera-se que, enquanto isso, o Greenpeace não se esqueça do Brasil. E nem do atum dos mares do Pacífico. Não há luta mais comovente do que proteger atuns.

 

Escreva para o autor no endereço colunadopetry@abril.com.br

 



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