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Luiz
Felipe de Alencastro
O novo cristianismo
"Um
conflito entre o cristianismo
liberal e tolerante do Hemisfério
Norte e o cristianismo dogmático
e supersticioso do Hemisfério Sul?"
A
coincidência de datas entre a Páscoa e o final da Segunda
Guerra do Golfo conferiu um semblante caricatural ao chamado "choque de
civilizações". De um lado, os programas de televisão
mostravam os cantos dos festejos pascais nas igrejas do Ocidente. De outro,
surgiam multidões vociferantes de muçulmanos amaldiçoando
os americanos e os ocidentais. A linha de fratura que separa o Islã
do cristianismo impressiona porque começa nos subúrbios
de Londres e vai até a Ásia, atingindo todos os continentes
e gerando choques sangrentos em países como a Nigéria e
as Filipinas. O terrorismo da Al Qaeda e de outros jihadistas exacerba
ainda mais as perspectivas de conflito entre muçulmanos e cristãos.
Mas a sintonia
dos cantos pascais nas diversas igrejas do mundo recobre outra linha divisória
que se tornará cada vez mais cindida: a separação
entre o cristianismo euro-americano e o cristianismo do Terceiro Mundo.
O tema está exposto no livro The Next Christendom (Nova
York, 2002), do historiador americano Philip Jenkins, tendo sido objeto
de discussões nos últimos meses.
As projeções
estatísticas mostram que os muçulmanos aumentarão
de 20% para 25% da população mundial em 2050. Ao passo que
a proporção de cristãos não se alterará
nas próximas décadas, rodando sempre em torno de 34% da
população global. Contudo, a composição geográfica
e cultural do mundo cristão mudará profundamente. Jenkins
nota que o cristianismo está em regressão na Europa, guarda
boa posição na América do Norte, aumenta na América
Latina e na África e tem muito espaço para crescer na Ásia.
Aliás, o país onde o cristianismo mais cresce atualmente
é a China, que conta 10.000 novos conversos
por dia. A partir daí se encadeiam duas ordens de constatações.
Em primeiro lugar, dentro da Igreja Católica, o número de
europeus e americanos já é minoritário. Nas próximas
décadas, três quartos dos católicos estarão
na América Latina, na África e na Ásia. Atualmente,
57 dos 135 cardeais eleitores do próximo papa são originários
de países do Hemisfério Sul. Em breve, eles formarão
a maioria do cardinalato. O mesmo fenômeno ocorre no seio das igrejas
protestantes e da Igreja Anglicana, em que se acentua a predominância
do clero e dos fiéis dos países do Hemisfério Sul.
O aspecto mais significativo desse novo cristianismo é o progresso
dos cultos carismáticos e pentecostais mundo afora. Jenkins observa
que o pentecostalismo, fundado somente no começo do século
XX e contando agora com centenas de milhões de fiéis, aparece
como o movimento social mais bem-sucedido do século passado. Nesse
contexto, a história da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd),
fundada num galpão carioca em 1977 e presente hoje em dia em oitenta
países, toma todo o seu relevo.
Jenkins
conclui que a nova cartografia do cristianismo mundial anuncia um conflito
entre o cristianismo liberal e tolerante do Hemisfério Norte e
o cristianismo dogmático e supersticioso dos países do Hemisfério
Sul. Ora, a experiência brasileira permite tomar certa distância
dessas perspectivas pessimistas. Ao contrário do que pensa Jenkins,
o comportamento liberal do "catolicismo de bandejão" (cafeteria
catolicism), em que o crente pega o que lhe convém no bufê
das práticas religiosas, não é exclusivo dos EUA
e também existe no Brasil e em outros países do Sul. Da
mesma forma, malgrado tensões desenhadas aqui e ali entre pentecostais
e católicos, não parece que o Brasil possa assistir a enfrentamentos
do tipo dos que ocorrem entre protestantes e católicos no Peru
e no México. O governo Lula, cuja base de apoio conta com os católicos
e os evangélicos, será, também nesse domínio,
posto à prova. No programa Fome Zero, o entendimento entre o bispo
católico dom Mauro Morelli e o senador bispo Marcelo Crivella,
da Iurd, terá desdobramentos de grande significação.
Dentro e fora do país.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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