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Edição 1 800 - 30 de abril de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

A ilha de todos
os descaminhos

Em Cuba encena-se hoje,
numa
balbúrdia de tempos
e espaços, um resumo dos
conflitos deste mundo

A ilha de Cuba hoje abriga um ditador em decadência senil, presos políticos, um paredón ressurreto, um muezim que chama os fiéis às orações, cinco vezes ao dia, conforme o preceito muçulmano, prisioneiros de guerra, militares americanos e um McDonald's. Faz tempo que as ilhas, tanto as reais como as imaginárias, cumprem a função de metáforas ou paródias para as aflições e os anseios de um determinado período. Na ilha de Tróia Homero encontrou o cenário perfeito para um resumo da guerra, do ciúme, da infâmia e do heroísmo à moda dos gregos. Thomas Morus inventou uma ilha chamada Utopia para acomodar suas idéias políticas. Jonathan Swift fez seu Gulliver visitar ilhas estranhas, Lilipute entre outras, para melhor entender a estupidez humana. Cuba, onde, cercados de mar por todos os lados, convivem o inigualável poderio americano e o desafio insistente a ele levantado pela revolução de Fidel Castro, a idéia da liberdade e sua negação, Karl Max e o Corão, as filas para comprar comida e as comodidades do fast food, fornece, nestes dias, a ilustração viva de onde o mundo foi parar, catorze anos depois da queda do Muro de Berlim.

A ilha de Cuba abriga universos tão variados e contraditórios porque um pedaço dela, pequeno porém eloqüente, é americano – a base de Guantánamo. E Guantánamo, há um ano e meio, é o lugar para onde estão sendo recolhidos os prisioneiros feitos pelas tropas americanas durante a Guerra do Afeganistão. Há então prisioneiros de um lado e de outro. De um lado, os prisioneiros dos americanos, atualmente beirando os 700, suspeitos de ligações com o regime do Talibã ou com a Al Qaeda. De outro, os prisioneiros de Fidel Castro, inclusive os 75 dissidentes apanhados no último arrastão do regime. Os prisioneiros dos americanos ali estão estocados sem acusação formal nem previsão de julgamento. Os Estados Unidos negam-lhes o estatuto de prisioneiros de guerra, pelo qual, de acordo com a Convenção de Genebra, deveriam ser soltos ao fim do conflito. Consideram-nos suspeitos de terrorismo. Impunha-se, então, encaminhá-los ao devido processo legal, mas como? Dois tribunais dos Estados Unidos já decidiram que eles escapam à lei americana, porque a base de Guantánamo é tecnicamente território cubano.

Se desse lado a situação se enquadra na categoria que se costuma chamar de kafkiana, do outro não é diferente. Os 75 dissidentes, na maioria escritores e jornalistas, foram acusados de colaborar com os Estados Unidos e receberam penas de até 28 anos. Seu crime na verdade é não estar de acordo, e não fazer segredo disso. Crime? Um dos condenados (a vinte anos), o poeta e jornalista Raúl Rivero, escreveu: "Não posso me sentir culpado. É quase como se fosse acusado de respirar, ou se uma pena de prisão me tivesse sido prescrita porque amo minhas filhas, minha mãe, minha mulher, meu irmão, meus amigos". Rivero foi encarcerado, segundo suas palavras, por causa do "único ato soberano" que conseguiu perpetrar: "escrever sem ser ditado por ninguém".

Uma reportagem do The New York Times deu conta, na semana passada, do ambiente em Guantánamo. Não é bem um muezim que, de viva voz, chama os prisioneiros para a oração, mas o som de CDs que, ora reproduzindo o chamamento tal qual é feito em Meca, ora tal qual em Medina, é irradiado pelo alto-falante do campo de prisioneiros. Flechas, em cada cela, apontam para Meca, e a distribuição de exemplares do Corão é farta. Temos então que um outro espaço, um naco do mundo islâmico, foi transplantado para o ambiente caribenho, mais afeito à rumba e ao rum. Do outro lado, o lado sob jurisdição de Fidel Castro, um outro tempo foi trazido de volta, quando se reativou o paredão dos inícios da Revolução Cubana, dias atrás, para fuzilar os três incautos que seqüestraram um barco sem se lembrar de levar gasolina suficiente para chegar a Miami. Para completar a cesta de contrastes reunida em Cuba, na parte da base de Guantánamo onde ficam os militares se reproduz um pedacinho dos Estados Unidos. Ali tem McDonald's, como em toda base americana, mas não como em Cuba. O Pizza Hut é esperado para breve.

Um livro recentemente lançado no Brasil, A Guerra e a Paz na História Moderna, do americano Philip Bobbit (Editora Campus), defende que a I Guerra Mundial e a II, as guerras do Vietnã e da Coréia, a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil Espanhola e a Guerra Fria formam um conflito só, que o autor chama de "Longa Guerra", pois se desenvolveram em torno das mesmas questões. A "Longa Guerra" teria terminado com a queda do Muro de Berlim. À luz desse raciocínio, um outro conflito começou com a primeira Guerra do Golfo, prolongando-se com a do Afeganistão, a do Iraque, o terrorismo e os restos da questão palestina. Na ilha de Cuba, nestes dias, temos uma balbúrdia de espaços e de tempos, com um rabicho da guerra anterior, representada pelo regime de Fidel Castro, acotovelando-se, na base de Guantánamo, com a nova guerra.

 
 
   
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