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Roberto
Pompeu de Toledo
A ilha de todos
os descaminhos
Em
Cuba encena-se hoje,
numa balbúrdia de tempos
e espaços, um resumo dos
conflitos
deste mundo
A ilha de
Cuba hoje abriga um ditador em decadência senil, presos políticos,
um paredón ressurreto, um muezim que chama os fiéis
às orações, cinco vezes ao dia, conforme o preceito
muçulmano, prisioneiros de guerra, militares americanos e um McDonald's.
Faz tempo que as ilhas, tanto as reais como as imaginárias, cumprem
a função de metáforas ou paródias para as
aflições e os anseios de um determinado período.
Na ilha de Tróia Homero encontrou o cenário perfeito para
um resumo da guerra, do ciúme, da infâmia e do heroísmo
à moda dos gregos. Thomas Morus inventou uma ilha chamada Utopia
para acomodar suas idéias políticas. Jonathan Swift fez
seu Gulliver visitar ilhas estranhas, Lilipute entre outras, para melhor
entender a estupidez humana. Cuba, onde, cercados de mar por todos os
lados, convivem o inigualável poderio americano e o desafio insistente
a ele levantado pela revolução de Fidel Castro, a idéia
da liberdade e sua negação, Karl Max e o Corão,
as filas para comprar comida e as comodidades do fast food, fornece, nestes
dias, a ilustração viva de onde o mundo foi parar, catorze
anos depois da queda do Muro de Berlim.
A ilha de
Cuba abriga universos tão variados e contraditórios porque
um pedaço dela, pequeno porém eloqüente, é americano
a base de Guantánamo. E Guantánamo, há um
ano e meio, é o lugar para onde estão sendo recolhidos os
prisioneiros feitos pelas tropas americanas durante a Guerra do Afeganistão.
Há então prisioneiros de um lado e de outro. De um lado,
os prisioneiros dos americanos, atualmente beirando os 700, suspeitos
de ligações com o regime do Talibã ou com a Al Qaeda.
De outro, os prisioneiros de Fidel Castro, inclusive os 75 dissidentes
apanhados no último arrastão do regime. Os prisioneiros
dos americanos ali estão estocados sem acusação formal
nem previsão de julgamento. Os Estados Unidos negam-lhes o estatuto
de prisioneiros de guerra, pelo qual, de acordo com a Convenção
de Genebra, deveriam ser soltos ao fim do conflito. Consideram-nos suspeitos
de terrorismo. Impunha-se, então, encaminhá-los ao devido
processo legal, mas como? Dois tribunais dos Estados Unidos já
decidiram que eles escapam à lei americana, porque a base de Guantánamo
é tecnicamente território cubano.
Se desse
lado a situação se enquadra na categoria que se costuma
chamar de kafkiana, do outro não é diferente. Os 75 dissidentes,
na maioria escritores e jornalistas, foram acusados de colaborar com os
Estados Unidos e receberam penas de até 28 anos. Seu crime na verdade
é não estar de acordo, e não fazer segredo disso.
Crime? Um dos condenados (a vinte anos), o poeta e jornalista Raúl
Rivero, escreveu: "Não posso me sentir culpado. É quase
como se fosse acusado de respirar, ou se uma pena de prisão me
tivesse sido prescrita porque amo minhas filhas, minha mãe, minha
mulher, meu irmão, meus amigos". Rivero foi encarcerado, segundo
suas palavras, por causa do "único ato soberano" que conseguiu
perpetrar: "escrever sem ser ditado por ninguém".
Uma reportagem
do The New York Times deu conta, na semana passada, do ambiente
em Guantánamo. Não é bem um muezim que, de viva voz,
chama os prisioneiros para a oração, mas o som de CDs que,
ora reproduzindo o chamamento tal qual é feito em Meca, ora tal
qual em Medina, é irradiado pelo alto-falante do campo de prisioneiros.
Flechas, em cada cela, apontam para Meca, e a distribuição
de exemplares do Corão é farta. Temos então
que um outro espaço, um naco do mundo islâmico, foi transplantado
para o ambiente caribenho, mais afeito à rumba e ao rum. Do outro
lado, o lado sob jurisdição de Fidel Castro, um outro tempo
foi trazido de volta, quando se reativou o paredão dos inícios
da Revolução Cubana, dias atrás, para fuzilar os
três incautos que seqüestraram um barco sem se lembrar de levar
gasolina suficiente para chegar a Miami. Para completar a cesta de contrastes
reunida em Cuba, na parte da base de Guantánamo onde ficam os militares
se reproduz um pedacinho dos Estados Unidos. Ali tem McDonald's, como
em toda base americana, mas não como em Cuba. O Pizza Hut é
esperado para breve.
Um livro
recentemente lançado no Brasil, A Guerra e a Paz na História
Moderna, do americano Philip Bobbit (Editora Campus), defende que
a I Guerra Mundial e a II, as guerras do Vietnã e da Coréia,
a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil Espanhola e a Guerra
Fria formam um conflito só, que o autor chama de "Longa Guerra",
pois se desenvolveram em torno das mesmas questões. A "Longa Guerra"
teria terminado com a queda do Muro de Berlim. À luz desse raciocínio,
um outro conflito começou com a primeira Guerra do Golfo, prolongando-se
com a do Afeganistão, a do Iraque, o terrorismo e os restos da
questão palestina. Na ilha de Cuba, nestes dias, temos uma balbúrdia
de espaços e de tempos, com um rabicho da guerra anterior, representada
pelo regime de Fidel Castro, acotovelando-se, na base de Guantánamo,
com a nova guerra.
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