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O horror dos
porões de Saddam
Queda
do ditador expõe o lado mais
sinistro do regime cuja sobrevivência
dependia do uso sistemático da tortura.
Só agora as vítimas podem exibir as
cicatrizes e contar sobre castigos que
incluíam a amputação de línguas e orelhas

José
Eduardo Barella
AP
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| Um
pai beija o crânio do filho, descoberto no cemitério das vítimas de
tortura |

Veja também |
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Os americanos
precisaram de apenas três semanas para colocar um ponto final em
mais de duas décadas de ditadura de Saddam Hussein. Para os iraquianos
que foram torturados, humilhados ou tiveram familiares desaparecidos nos
porões do regime, o pesadelo ainda não terminou e
talvez nunca chegue ao fim. Enquanto boa parte da população
comemorava a derrocada do regime destruindo as estátuas do tirano
e saqueando palácios, vítimas da ditadura faziam uma peregrinação
macabra pelos presídios e centros de tortura para mostrar a parentes
e jornalistas estrangeiros as entranhas do regime de terror que vigorava
no Iraque. Pela primeira vez, repórteres ocidentais puderam entrevistar
diretamente as vítimas e ver com os próprios olhos as marcas
da brutalidade do regime de Saddam. Elas são visíveis na
falta de orelhas de Anwar Abdul Razak, entrevistado pela revista americana
Newsweek em Basra, a segunda maior cidade do Iraque. Razak contou
ter tido amputadas ambas as orelhas quando tinha 21 anos, como punição
por ter abandonado sem licença seu posto militar. A ablação
foi feita num hospital, sob a vista de militares, e o cirurgião
beijou-lhe a face e pediu desculpas antes de passar o bisturi.
O que ocorreu
com o jovem soldado de Basra não foi uma reação exagerada
de um chefe militar nem um fato isolado. Em 1994, quando mobilizou seu
Exército com ameaças de uma nova invasão ao Kuwait,
Saddam baixou um decreto estabelecendo a mutilação como
punição por uma série de delitos. A deserção
passou a ser castigada com a perda de orelhas. Os reincidentes recebiam
um castigo adicional a marca de um X no rosto, feito com ferro
em brasa, com 3 centímetros de largura e 1 milímetro de
profundidade. É difícil saber quantas pessoas foram mutiladas
e humilhadas dessa forma, mas a oposição estima em mais
de 3.000 o número de vítimas.
Em seu depoimento, Razak afirmou ter ficado numa cela com outros 750 homens,
todos sem uma orelha ou sem as duas. Os médicos de Basra lembram
que o hospital cortou orelhas de forma frenética entre os dias
17 e 19 de maio de 1994. Um cirurgião que se recusou a obedecer
às ordens foi executado a tiros. A lei das mutilações
deixou de ser aplicada com rigor depois de alguns meses, mas a amputação
e outras práticas do gênero foram incorporadas às
sessões de tortura nos porões do regime até a queda
do ditador.
AP
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| A
autoflagelação de xiitas em culto religioso: poder político surpreende
os americanos |
Uma das últimas
vítimas foi Farris Salman, um jovem de Bagdá entrevistado
pelo jornal americano The New York Times. No mês passado,
os fedains, a milícia paramilitar comandada por Udai, o filho mais
velho de Saddam, puxaram com alicate sua língua para fora da boca
e a cortaram com um estilete. Seu crime foi ter amaldiçoado Saddam
durante uma discussão com um fedain, em Bagdá. Salman, 23
anos, tinha ido a uma delegacia na companhia de um tio pedir informações
sobre um parente desaparecido. Preso, foi torturado por dois meses. Uma
tarde, foi levado de volta para casa sob a escolta de mais de 100 fedains
armados de metralhadoras. Perto da casa de Salman, os fedains reuniram
todos os vizinhos e mandaram a mãe do preso trazer um retrato de
Saddam. Foi ali, diante da multidão, que cortaram sua língua,
enquanto um dos fedains registrava a cena com uma câmera de vídeo.
Um dos algozes ergueu com a mão o pedaço do órgão
e avisou a multidão que era esse o destino daqueles que falavam
mal de Saddam. "Foi tudo tão rápido que nem senti dor",
lembra o rapaz. Ele foi libertado da cadeia após a tomada de Bagdá
pelas tropas americanas.
Kadhim Sabbit
al-Datajji, de 61 anos, morador da grande favela de Bagdá conhecida
como Cidade Saddam, teve um olho arrancado na prisão. Ele contou
que seus problemas começaram em 1994, quando seu filho mais velho
atingiu a idade de se tornar membro do Baath, o partido único do
Iraque. Alguns membros do Baath, que eram seus vizinhos, acharam estranho
que nenhum dos catorze homens de sua numerosa família fosse filiado
ao partido. Por causa dessa conduta dos familiares, Datajji acabou preso,
acusado de "traição". Passou dois anos numa cela escura
de 2 metros quadrados. Depois, foi transferido para um presídio.
Diariamente, era submetido a sessões de tortura que incluíam
espancamentos e choques elétricos. Datajji teve quatro unhas dos
pés arrancadas com alicate a sangue frio. Por causa dos espancamentos,
um de seus olhos ficou inchado. Na enfermaria do presídio, um médico
prometeu cuidar do ferimento. "Quando acordei da anestesia, notei que
ele simplesmente tinha arrancado o olho machucado", disse Datajji. Ele
foi libertado em outubro, quando Saddam decretou uma inesperada anistia
geral.
A tortura
fazia parte de um modo de ganhar a vida na ditadura de Saddam: consistia
em espionar vizinhos e conhecidos. A delação era estimulada
com pagamento em dinheiro. O que importava era denunciar, com ou sem provas.
Cada detenção rendia 25.000 dinares
(cerca de 10 dólares) para o denunciante, o equivalente a um salário
mensal de um servidor público qualificado. Para cada preso condenado
e executado, o informante ganhava uma bolada: 100.000
dinares, o equivalente a 40 dólares. Para garantir a condenação,
era essencial extrair uma confissão por escrito, o que era feito
com tortura. Uma prática usual para quebrar a resistência
do preso era estuprar diante de seus olhos a mãe, irmãs
ou filhas. A tarefa era conduzida por profissionais (cujo cargo se chamava
"violador da honra"). Vários "crimes" rendiam recompensas extras
aos dedos-duros deserção do Exército, atividade
política "suspeita" ou uma simples crítica em público
a Saddam. No sul do país, onde se concentra a maioria xiita, os
membros do partido Baath tinham de cumprir cotas de prisões por
"traição". No total, um em cada dez iraquianos fazia parte
do esquema policial.
Até
a sexta-feira passada permanecia o mistério sobre o destino de
Saddam Hussein. Ele tanto podia estar vivo, talvez escondido nos subterrâneos
de Bagdá com seus últimos servidores fiéis, como
ter morrido nos bombardeios americanos. A prisão na semana passada
de vários dos 55 figurões do regime que os Estados Unidos
querem submeter a julgamento (veja
quadro) é um indício de que o exílio
não fazia parte dos planos do ditador e de seus assessores mais
próximos. Algumas providências tomadas no ocaso do regime
dão pistas da estratégia adotada por Saddam para encarar
o conflito com os Estados Unidos e também de seus grotescos
erros de avaliação diante da determinação
do inimigo. Grande parte da mobília e dos objetos do palácio
presidencial, o maior mantido pelo ditador na capital, foi etiquetada
cuidadosamente e removida para um depósito militar. Aparentemente,
o objetivo era mantê-la escondida até o fim dos bombardeios.
A conclusão óbvia é que, na avaliação
de Saddam, a mobília do palácio e sua rotina no poder seriam
retomadas normalmente após a guerra. Na prática, o ditador
seguiu exatamente o roteiro da Guerra do Golfo que terminou com
o Iraque derrotado, mas sem a mudança do regime em Bagdá.
Assim, Saddam teria apostado numa repetição do recuo americano
de 1991.
A partir
da experiência daquele conflito e dos bombardeios americanos a Bagdá
em 1998, é possível que Saddam tenha previsto que a aviação
americana atacaria os palácios, mas evitaria atingir mesquitas,
hospitais e escolas. Quando tomaram a capital, as tropas americanas encontraram
grandes carregamentos de armas leves e munição guardados
em escolas e hospitais. O regime fez de tudo para preservar seus recursos
para o pós-guerra. Os aviões da Força Aérea,
escondidos em bunkers no deserto, não saíram do chão.
Dezenas de tanques também não chegaram a entrar em combate
enterrados na areia, foram achados intactos. Outro indício
de preparativos para continuar a vida do jeito antigo foi a incrível
descoberta pelos soldados americanos de 656 milhões de dólares
em maços de notas de 100 dólares, guardados em 164 caixas
de metal escondidas em várias casas discretas (num dos casos, na
casinha do cachorro) perto do palácio presidencial de Bagdá.
Uma das caixas estava selada com uma tira de papel em que se lia, em árabe:
"Contém 40.000 notas de 100 dólares.
Por ordem de Saddam Hussein, este dinheiro foi selado em 16 de março
na presença das seguintes cinco pessoas". Abaixo havia a assinatura
de cinco ministros. Era, talvez, a caixinha para despesas de emergência
da turma do ditador. Uma possibilidade é que a quantia seja parte
do montante de 1 bilhão de dólares que o governo do Iraque
retirou em dinheiro vivo de um banco na Jordânia às vésperas
da invasão americana. A fuga deve ter sido feita às pressas,
visto que deixaram tal fortuna para trás.
A Casa Branca
tem outras questões igualmente prioritárias com que se preocupar,
além de prender os figurões do regime de Saddam. O fracasso
até agora em localizar o arsenal iraquiano de armas de destruição
em massa, a maior razão para a intervenção militar
no país, é uma delas. A explosão de fé religiosa
e organização política demonstrada pelos xiitas é
outra fonte potencial de dor de cabeça para o governo Bush. Cerca
de 1 milhão de xiitas, reprimidos pelo regime agora derrubado,
puderam celebrar na semana passada, pela primeira vez em 25 anos, o ritual
em honra ao martírio do imã Ali, fundador da seita. A festa
religiosa, marcada por cenas de autoflagelação dos fiéis,
foi pontilhada de manifestações pacíficas contra
a ocupação americana. Os xiitas representam 60% da população
iraquiana, mas estão divididos em vários grupos rivais.
O temor é que a facção fundamentalista alinhada ao
governo do Irã consiga levantar a bandeira da revolução
islâmica o que causa arrepios às minorias curda e
sunita e, principalmente, à Casa Branca. A ascensão dos
xiitas, subestimada pelos estrategistas americanos, pode transformar a
derrubada do regime de terror imposto por Saddam na parte mais fácil
da intervenção militar no Iraque.
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DOZE
CHEFÕES JÁ ESTÃO NA CADEIA
Tariq
Aziz, o vice-premiê e o rosto mais conhecido no exterior entre
os chefões da ditadura de Saddam Hussein, entregou-se às
tropas americanas na semana passada. Até a sexta-feira, já
estavam atrás das grades doze dos 55 figurões que os
Estados Unidos querem levar a julgamento como criminosos de guerra.
Para facilitarem a identificação, os americanos distribuíram
no Iraque um baralho em que cada carta leva a foto de um dos procurados.
Há uma ordem de grandeza no baralho. Os ases são Saddam
e seus filhos Udai e Qusai. Único cristão do primeiro
escalão da ditadura, Tariq é o 8 de espadas. Outro peso-pesado
do regime, Ali Químico (chamado assim por ter aniquilado aldeias
inteiras com gás) teria morrido num bombardeio. |
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