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Edição 1 800 - 30 de abril de 2003
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O horror dos
porões de Saddam

Queda do ditador expõe o lado mais
sinistro do regime cuja sobrevivência
dependia do uso sistemático da tortura.
Só agora as vítimas podem exibir as
cicatrizes e contar sobre castigos que
incluíam a amputação de línguas e orelhas

José Eduardo Barella


AP
Um pai beija o crânio do filho, descoberto no cemitério das vítimas de tortura

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Os americanos precisaram de apenas três semanas para colocar um ponto final em mais de duas décadas de ditadura de Saddam Hussein. Para os iraquianos que foram torturados, humilhados ou tiveram familiares desaparecidos nos porões do regime, o pesadelo ainda não terminou – e talvez nunca chegue ao fim. Enquanto boa parte da população comemorava a derrocada do regime destruindo as estátuas do tirano e saqueando palácios, vítimas da ditadura faziam uma peregrinação macabra pelos presídios e centros de tortura para mostrar a parentes e jornalistas estrangeiros as entranhas do regime de terror que vigorava no Iraque. Pela primeira vez, repórteres ocidentais puderam entrevistar diretamente as vítimas e ver com os próprios olhos as marcas da brutalidade do regime de Saddam. Elas são visíveis na falta de orelhas de Anwar Abdul Razak, entrevistado pela revista americana Newsweek em Basra, a segunda maior cidade do Iraque. Razak contou ter tido amputadas ambas as orelhas quando tinha 21 anos, como punição por ter abandonado sem licença seu posto militar. A ablação foi feita num hospital, sob a vista de militares, e o cirurgião beijou-lhe a face e pediu desculpas antes de passar o bisturi.

O que ocorreu com o jovem soldado de Basra não foi uma reação exagerada de um chefe militar nem um fato isolado. Em 1994, quando mobilizou seu Exército com ameaças de uma nova invasão ao Kuwait, Saddam baixou um decreto estabelecendo a mutilação como punição por uma série de delitos. A deserção passou a ser castigada com a perda de orelhas. Os reincidentes recebiam um castigo adicional – a marca de um X no rosto, feito com ferro em brasa, com 3 centímetros de largura e 1 milímetro de profundidade. É difícil saber quantas pessoas foram mutiladas e humilhadas dessa forma, mas a oposição estima em mais de 3.000 o número de vítimas. Em seu depoimento, Razak afirmou ter ficado numa cela com outros 750 homens, todos sem uma orelha ou sem as duas. Os médicos de Basra lembram que o hospital cortou orelhas de forma frenética entre os dias 17 e 19 de maio de 1994. Um cirurgião que se recusou a obedecer às ordens foi executado a tiros. A lei das mutilações deixou de ser aplicada com rigor depois de alguns meses, mas a amputação e outras práticas do gênero foram incorporadas às sessões de tortura nos porões do regime até a queda do ditador.


AP
A autoflagelação de xiitas em culto religioso: poder político surpreende os americanos

Uma das últimas vítimas foi Farris Salman, um jovem de Bagdá entrevistado pelo jornal americano The New York Times. No mês passado, os fedains, a milícia paramilitar comandada por Udai, o filho mais velho de Saddam, puxaram com alicate sua língua para fora da boca e a cortaram com um estilete. Seu crime foi ter amaldiçoado Saddam durante uma discussão com um fedain, em Bagdá. Salman, 23 anos, tinha ido a uma delegacia na companhia de um tio pedir informações sobre um parente desaparecido. Preso, foi torturado por dois meses. Uma tarde, foi levado de volta para casa sob a escolta de mais de 100 fedains armados de metralhadoras. Perto da casa de Salman, os fedains reuniram todos os vizinhos e mandaram a mãe do preso trazer um retrato de Saddam. Foi ali, diante da multidão, que cortaram sua língua, enquanto um dos fedains registrava a cena com uma câmera de vídeo. Um dos algozes ergueu com a mão o pedaço do órgão e avisou a multidão que era esse o destino daqueles que falavam mal de Saddam. "Foi tudo tão rápido que nem senti dor", lembra o rapaz. Ele foi libertado da cadeia após a tomada de Bagdá pelas tropas americanas.

Kadhim Sabbit al-Datajji, de 61 anos, morador da grande favela de Bagdá conhecida como Cidade Saddam, teve um olho arrancado na prisão. Ele contou que seus problemas começaram em 1994, quando seu filho mais velho atingiu a idade de se tornar membro do Baath, o partido único do Iraque. Alguns membros do Baath, que eram seus vizinhos, acharam estranho que nenhum dos catorze homens de sua numerosa família fosse filiado ao partido. Por causa dessa conduta dos familiares, Datajji acabou preso, acusado de "traição". Passou dois anos numa cela escura de 2 metros quadrados. Depois, foi transferido para um presídio. Diariamente, era submetido a sessões de tortura que incluíam espancamentos e choques elétricos. Datajji teve quatro unhas dos pés arrancadas com alicate a sangue frio. Por causa dos espancamentos, um de seus olhos ficou inchado. Na enfermaria do presídio, um médico prometeu cuidar do ferimento. "Quando acordei da anestesia, notei que ele simplesmente tinha arrancado o olho machucado", disse Datajji. Ele foi libertado em outubro, quando Saddam decretou uma inesperada anistia geral.

A tortura fazia parte de um modo de ganhar a vida na ditadura de Saddam: consistia em espionar vizinhos e conhecidos. A delação era estimulada com pagamento em dinheiro. O que importava era denunciar, com ou sem provas. Cada detenção rendia 25.000 dinares (cerca de 10 dólares) para o denunciante, o equivalente a um salário mensal de um servidor público qualificado. Para cada preso condenado e executado, o informante ganhava uma bolada: 100.000 dinares, o equivalente a 40 dólares. Para garantir a condenação, era essencial extrair uma confissão por escrito, o que era feito com tortura. Uma prática usual para quebrar a resistência do preso era estuprar diante de seus olhos a mãe, irmãs ou filhas. A tarefa era conduzida por profissionais (cujo cargo se chamava "violador da honra"). Vários "crimes" rendiam recompensas extras aos dedos-duros – deserção do Exército, atividade política "suspeita" ou uma simples crítica em público a Saddam. No sul do país, onde se concentra a maioria xiita, os membros do partido Baath tinham de cumprir cotas de prisões por "traição". No total, um em cada dez iraquianos fazia parte do esquema policial.

Até a sexta-feira passada permanecia o mistério sobre o destino de Saddam Hussein. Ele tanto podia estar vivo, talvez escondido nos subterrâneos de Bagdá com seus últimos servidores fiéis, como ter morrido nos bombardeios americanos. A prisão na semana passada de vários dos 55 figurões do regime que os Estados Unidos querem submeter a julgamento (veja quadro) é um indício de que o exílio não fazia parte dos planos do ditador e de seus assessores mais próximos. Algumas providências tomadas no ocaso do regime dão pistas da estratégia adotada por Saddam para encarar o conflito com os Estados Unidos – e também de seus grotescos erros de avaliação diante da determinação do inimigo. Grande parte da mobília e dos objetos do palácio presidencial, o maior mantido pelo ditador na capital, foi etiquetada cuidadosamente e removida para um depósito militar. Aparentemente, o objetivo era mantê-la escondida até o fim dos bombardeios. A conclusão óbvia é que, na avaliação de Saddam, a mobília do palácio e sua rotina no poder seriam retomadas normalmente após a guerra. Na prática, o ditador seguiu exatamente o roteiro da Guerra do Golfo – que terminou com o Iraque derrotado, mas sem a mudança do regime em Bagdá. Assim, Saddam teria apostado numa repetição do recuo americano de 1991.

A partir da experiência daquele conflito e dos bombardeios americanos a Bagdá em 1998, é possível que Saddam tenha previsto que a aviação americana atacaria os palácios, mas evitaria atingir mesquitas, hospitais e escolas. Quando tomaram a capital, as tropas americanas encontraram grandes carregamentos de armas leves e munição guardados em escolas e hospitais. O regime fez de tudo para preservar seus recursos para o pós-guerra. Os aviões da Força Aérea, escondidos em bunkers no deserto, não saíram do chão. Dezenas de tanques também não chegaram a entrar em combate – enterrados na areia, foram achados intactos. Outro indício de preparativos para continuar a vida do jeito antigo foi a incrível descoberta pelos soldados americanos de 656 milhões de dólares em maços de notas de 100 dólares, guardados em 164 caixas de metal escondidas em várias casas discretas (num dos casos, na casinha do cachorro) perto do palácio presidencial de Bagdá. Uma das caixas estava selada com uma tira de papel em que se lia, em árabe: "Contém 40.000 notas de 100 dólares. Por ordem de Saddam Hussein, este dinheiro foi selado em 16 de março na presença das seguintes cinco pessoas". Abaixo havia a assinatura de cinco ministros. Era, talvez, a caixinha para despesas de emergência da turma do ditador. Uma possibilidade é que a quantia seja parte do montante de 1 bilhão de dólares que o governo do Iraque retirou em dinheiro vivo de um banco na Jordânia às vésperas da invasão americana. A fuga deve ter sido feita às pressas, visto que deixaram tal fortuna para trás.

A Casa Branca tem outras questões igualmente prioritárias com que se preocupar, além de prender os figurões do regime de Saddam. O fracasso até agora em localizar o arsenal iraquiano de armas de destruição em massa, a maior razão para a intervenção militar no país, é uma delas. A explosão de fé religiosa e organização política demonstrada pelos xiitas é outra fonte potencial de dor de cabeça para o governo Bush. Cerca de 1 milhão de xiitas, reprimidos pelo regime agora derrubado, puderam celebrar na semana passada, pela primeira vez em 25 anos, o ritual em honra ao martírio do imã Ali, fundador da seita. A festa religiosa, marcada por cenas de autoflagelação dos fiéis, foi pontilhada de manifestações pacíficas contra a ocupação americana. Os xiitas representam 60% da população iraquiana, mas estão divididos em vários grupos rivais. O temor é que a facção fundamentalista alinhada ao governo do Irã consiga levantar a bandeira da revolução islâmica – o que causa arrepios às minorias curda e sunita e, principalmente, à Casa Branca. A ascensão dos xiitas, subestimada pelos estrategistas americanos, pode transformar a derrubada do regime de terror imposto por Saddam na parte mais fácil da intervenção militar no Iraque.

 

DOZE CHEFÕES JÁ ESTÃO NA CADEIA


Tariq Aziz, o vice-premiê e o rosto mais conhecido no exterior entre os chefões da ditadura de Saddam Hussein, entregou-se às tropas americanas na semana passada. Até a sexta-feira, já estavam atrás das grades doze dos 55 figurões que os Estados Unidos querem levar a julgamento como criminosos de guerra. Para facilitarem a identificação, os americanos distribuíram no Iraque um baralho em que cada carta leva a foto de um dos procurados. Há uma ordem de grandeza no baralho. Os ases são Saddam e seus filhos Udai e Qusai. Único cristão do primeiro escalão da ditadura, Tariq é o 8 de espadas. Outro peso-pesado do regime, Ali Químico (chamado assim por ter aniquilado aldeias inteiras com gás) teria morrido num bombardeio.

 
 
   
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