
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
No ringue, PT contra
PT
Com a
Previdência, o PT volta a encenar
o mesmo espetáculo autofágico que já
moeu governadores e prefeitos do partido

Maurício
Lima

Veja também |
|
|
|
O ministro
da Previdência Social, Ricardo Berzoini, tem um compromisso nesta
segunda-feira, 28: reunir-se com a bancada de 92 deputados do PT. A pauta:
tentar convencê-los a aprovar a proposta de reforma previdenciária
que o governo pretende enviar ao Congresso ainda nesta semana, cuja formulação
original inclui a taxação dos servidores públicos
inativos que ganham acima de 1 058 reais. A idéia da taxação
de inativos é recorrente e já foi apresentada, sempre em
vão, em duas oportunidades pelo ex-presidente Fernando Henrique.
Desta vez, a proposta foi ressuscitada pela equipe do atual governo, já
recebeu o apoio majoritário dos 82 membros do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social e, há duas semanas, ganhou a adesão
unânime dos 27 governadores estaduais, durante uma reunião
em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na semana passada, porém, ficou evidente que um dos grandes obstáculos
à aprovação da proposta no Congresso Nacional é
a barricada de oposição erguida pelos próprios
petistas.
O líder
do PT na Câmara, Nelson Pellegrino, já avisou que é
contra a taxação, e foi seguido por declarações
parecidas feitas por uma penca de companheiros. Entre os petistas, há
quem defenda elevar o teto de 1 058 para 2.400
reais, isentando assim um número maior de inativos. Outros defendem
3.000 reais, dando isenção a
uma fatia ainda maior. Há quem fale em 4.800
reais, o que deixa de fora um contingente enorme. Ou até 8.700
reais, para isentar quase todo mundo. Outros petistas não querem
nada disso. Alegam que, se o problema da Previdência Social é
o monstruoso e crescente déficit, é preciso que o governo
encontre outro caminho para conseguir dinheiro. Há deputados, como
o próprio líder Nelson Pellegrino, que pregam o aumento
da alíquota de cobrança da CPMF. Outros, como Walter Pinheiro,
que já foi líder da bancada do PT, propõem que o
governo crie uma nova alíquota no imposto de renda, de 35%, para
incidir sobre os salários superiores a 10.000
reais.
Em resumo:
cada um tem uma idéia diferente, desde que se preservem os inativos.
Diante desse quadro, o governador mineiro, Aécio Neves, fez um
alerta ao Planalto na semana passada. Segundo ele, os governadores querem
a reforma da Previdência e a tributária. Os partidos de oposição,
como o tucanato do próprio governador, também querem. Se
a base petista e partidos aliados do governo trabalham contra, ficará
difícil convencer a oposição a dar apoio amplo nas
votações dessas matérias.
É
raríssimo, se não for inédito, que, na administração
federal, um governo tenha de vitaminar seus músculos para conseguir
o voto de sua própria bancada, como fará o ministro Ricardo
Berzoini nesta semana. Em se tratando do Partido dos Trabalhadores e de
servidores públicos, no entanto, não há novidade
alguma. Na verdade, é um fenômeno recorrente. O caso mais
notório é o do ex-governador do Espírito Santo Vitor
Buaiz, eleito pelo PT em 1994, que enxugou a folha de pagamento dispensando
servidores públicos. Como punição, teve de governar
com a oposição cerrada dos petistas na Assembléia
Legislativa, até que trocou o PT pelo PV. O atual ministro da Educação,
Cristovam Buarque, quando governou o Distrito Federal, de 1995 a 1998,
também enfrentou duríssima oposição dos sindicatos
de funcionários públicos, comandados pelo PT, que exigiam
aumentos e promoviam greves. Acabou perdendo a reeleição.
A única
diferença entre o que o presidente Lula está começando
a enfrentar agora e o que prefeitos e governadores petistas enfrentaram
antes está no fato de que, desta vez, o espetáculo de autofagia
petista transcorre no plano federal. O episódio também deixa
patente a mutação ocorrida nos últimos anos na composição
interna da militância petista. Estruturado, na origem, com base
na tróica operário-estudante-intelectual, o PT foi, com
o passar dos anos, se transformando cada vez mais num partido de funcionários
públicos. Não deixa de ser sintomático que a base
do partido tenha esperneado com mais barulho contra o magro aumento de
1% no salário dos servidores públicos do que contra a correção
real de apenas 2% do salário mínimo.
Num primeiro
momento, até o presidente nacional do PT, José Genoíno,
entrou na onda de criticar a taxação dos funcionários
inativos. Genoíno, porém, parece ter sido enquadrado a aderir
à posição oficial. "É importante divulgar
que não se trata de um ajuste fiscal", diz ele. "Nós estamos
defendendo a correção de uma injustiça. Hoje, 21
milhões de aposentados do INSS recebem 389 reais de benefício
em média. Os aposentados no Legislativo e no Judiciário
recebem em torno de 8.000 reais. Está
errado." Que está errado, não é novidade só
falta convencer os petistas.
|
|
 |