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Edição 1 800 - 30 de abril de 2003
Diogo Mainardi

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Garotinho,
o poligonal

"A maior contribuição de Garotinho à
luta contra a criminalidade se chama
Polígono de Segurança. Trata-se de
uma tenda encardida que abriga uma
viatura e dois soldados. Num deles,
a viatura estava sem motor, o rádio
não funcionava e o policial estava
desarmado, porque seu colega
havia levado o revólver embora"

A maior contribuição de Anthony Garotinho à luta contra a criminalidade se chama Polígono de Segurança. Trata-se de uma tenda encardida que abriga uma viatura e dois soldados da Polícia Militar. Um observador mal-intencionado poderia argumentar que a função de uma viatura é circular pelas ruas da cidade, e não repousar na sombra, debaixo de uma tenda encardida. O Rio de Janeiro, porém, tem suas peculiaridades. Recentemente, traficantes dispararam contra um policial no Polígono de Segurança do Largo do Tanque. O policial foi atingido no rosto e morreu. Descobriu-se que sua viatura estava sem motor, que o rádio não funcionava e que ele estava desarmado, porque seu colega havia levado o revólver embora, para adiantar a troca de turno.

Não sei se o criador do Polígono de Segurança foi o próprio Garotinho ou algum de seus homens de confiança, como o ex-comandante da Polícia Militar coronel Wilton Ribeiro, aposentado com todas as regalias por "perda de capacidade auditiva", exatamente como seu antecessor no governo Marcello Alencar e seu sucessor no governo Benedita da Silva. Há 37 Polígonos de Segurança no Rio. Os moradores parecem aprová-los. Alegam que aumenta a "sensação de segurança". Essa é mais uma novidade carioca no combate ao crime. O ex-secretário Josias Quintal, substituído na semana passada por Garotinho, elogiou a ação do Exército no Carnaval. Apesar do aumento significativo no número de homicídios, aumentou também, segundo ele, a "sensação de segurança".

Garotinho não é o único pioneiro carioca no campo da segurança pública. Benedita da Silva, por exemplo, é responsável pelo projeto do dirigível Pax Rio, prontamente desativado por Rosinha Matheus. A Assembléia Legislativa também é pródiga de idéias. Um deputado sugeriu blindar todas as viaturas da polícia. Esqueceu de explicar se eram viaturas com motor ou sem motor. Outro deputado propôs que nas cadeias fossem ministrados cursos de artesanato e pesca. Outro queria que os criminosos fossem proibidos de esconder o rosto quando apresentados à imprensa.

O secretário nacional de Segurança Pública do presidente Lula, Luiz Eduardo Soares, também foi gerado no laboratório carioca. Depois de uma conturbada passagem pelo governo Garotinho, ele ajudou a elaborar a plataforma do PT para o setor, a partir de experiências como a do Amapá, com seu policiamento ostensivo em bicicletas. Soares parte do princípio de que as crianças faveladas entram para o tráfico porque as armas lhes conferem uma identidade. Para vencer o jogo de sedução contra os traficantes, portanto, o Estado deve oferecer às crianças o acesso a "arte, música, cultura e mídia". Essa visão é compartilhada por movimentos como o Viva Rio. Eles acreditam que uma iniciativa benemérita como a festa de Páscoa com o Coelhão Boris, na favela do Pavão, ou o seminário "Hip hop na linha de frente contra o tabaco" realmente podem tirar a mão-de-obra infantil do tráfico. Essa gente deu tantos cursos de circo nas favelas que agora as crianças mendigam nos semáforos fazendo malabarismos com bolinhas de tênis. No último domingo, contei 41 malabaristas na Lagoa Rodrigo de Freitas. Era mais útil quando eles limpavam o pára-brisa dos carros.

 
 
   
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