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A
Justiça
é cega
O romancista americano diz que
escreve para mostrar os limites
da lei e explica por que é contra
a pena de morte
Carlos
Graieb
Em 1987, o americano Scott Turow reuniu o que havia aprendido nas faculdades
de letras e direito, publicou o romance Acima de Qualquer Suspeita
e, com isso, inaugurou um dos gêneros mais populares da ficção
atual: o thriller jurídico. Depois dele, vários autores,
como John Grisham, descobriram o sucesso nessa trilha. Mas a concorrência
não arrancou Turow de seu posto de destaque. Ele já vendeu
mais de 25 milhões de livros ao redor do mundo, com narrativas
que exploram as falhas da Justiça e o cotidiano dos profissionais
dessa área. Nascido em 1949 em Chicago, onde ainda vive, Turow
tornou-se um homem rico graças à literatura. Nem por isso
abandonou o escritório de advocacia, onde colhe material para seus
livros. Foi assim com o mais recente, Erros Irreversíveis (editora
Record), inspirado num relatório oficial sobre a pena de morte
que Turow ajudou a elaborar. O romance conta a história de um homem
injustamente condenado à pena máxima e a corrida contra
o tempo para conseguir salvá-lo. "A pena de morte é ruim
porque não funciona", disse o escritor a VEJA, de seu escritório
em Chicago. Entre os dias 15 e 19 de maio, Scott Turow visitará
o Brasil pela primeira vez, a convite da Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
Veja
O senhor se considera o pai do thriller jurídico?
Turow Há uma literatura muito rica sobre a lei e
sobre aqueles que a aplicam desde a Antiguidade. Basta lembrar do teatro
grego ou de Porcia, na peça O Mercador de Veneza, de Shakespeare.
Mas creio que Acima de Qualquer Suspeita de fato deu origem a um
gênero literário, ao focalizar o cotidiano do trabalho jurídico
e os dilemas e deficiências morais de juízes e advogados.
Veja Existe algum sentimento de grupo entre os escritores
de thrillers jurídicos, como o senhor, John Grisham e outros que
vêm surgindo?
Turow Não existe. Nós temos contato, mas
não relações próximas. Eu me correspondo esporadicamente
com John Grisham, e pode-se dizer que sou amigo de Richard North Patterson.
Nossas preocupações, contudo, são diferentes, e não
temos projetos comuns.
Veja Há algum propósito na sua ficção,
além de entreter?
Turow
O
principal papel do romance, ao menos nos Estados Unidos, sempre foi educar.
Isso ocorre desde o século XIX, quando ele ajudava as mulheres
de classe alta, que não precisavam trabalhar, a refletir sobre
os hábitos e a moral de seu tempo. Na ficção de escritores
como eu, esse propósito didático também está
presente. O direito influi muito mais na vida do americano médio
hoje em dia do que há cinqüenta anos, e o apetite para aprender
sobre ele é enorme. Creio que romances como os meus estão
suprindo esse apetite. No contato com leitores, percebo que evoluiu consideravelmente
a percepção que eles têm do funcionamento do mundo
legal.
Veja
A literatura passa por um bom momento nos Estados Unidos?
Turow
Pensando apenas na ficção, tivemos alguns anos ruins em
termos de vendagem, mas isso passou. O best-seller está mais forte
do que nunca. E mesmo os livros "difíceis" têm conseguido
seu público. Comparada à situação das artes
plásticas, da poesia, da música clássica, diria que
a ficção está muito bem.
Veja
Estima-se que a apresentadora Oprah Winfrey tenha criado 2 milhões
de novos leitores nos Estados Unidos, ao fundar um clube do livro e falar
de romances na televisão. O que acha desse fenômeno?
Turow
Antes de o clube acabar, em 2002, ocorreu um fato muito curioso. Oprah
indicou uma obra do romancista Jonathan Franzen em seu clube do livro
e, em vez de agradecer, ele foi a público reclamar. Franzen disse
que não queria fazer parte daquele mundo, que não estava
escrevendo para aquele tipo de gente. Foi uma atitude esnobe e provocadora,
embasada na idéia de que as pessoas participam desses clubes não
por gostar realmente de literatura, mas por querer sentir-se integradas,
parte de alguma moda. Não é uma tese inteiramente falsa.
Mas eu não creio que se deva reclamar de nenhuma iniciativa que
promova a leitura, ainda que superficialmente. Oprah fez isso, criou do
nada um contingente de leitores. Jamais me beneficiei das suas indicações,
mas não reclamaria se isso tivesse acontecido.
Veja Em Erros Irreversíveis, o livro que está
sendo lançado no Brasil, contam-se sempre vinte páginas
a cada dois capítulos. O senhor tem fórmulas para escrever?
Turow
Nenhuma. Jamais pensei em fazer capítulos com páginas contadas.
Mas não me surpreendo com essa coincidência. Acho que os
leitores gostam de capítulos curtos e com final forte, que lhes
dêem a sensação de que a história está
progredindo.
Veja O senhor já escrevia antes de se tornar advogado.
Por que procurou essa segunda profissão?
Turow
Meus
pais achavam que eu morreria de fome se trabalhasse apenas como escritor.
Talvez a pressão tenha me influenciado um pouco. Mas a idéia
de que eu ia conseguir ganhar a vida foi a única alegria que minha
entrada na advocacia lhes deu. Meu pai, em especial, tinha os advogados
na pior das contas.
Veja Por que os advogados têm uma imagem tão
ruim nos Estados Unidos?
Turow
Quando
eu era criança, advogados eram o protótipo da pessoa justa.
Posso estar enganado, mas acho que a imagem começou a mudar com
o caso Watergate, no começo dos anos 70. Nixon era um advogado,
assim como seus assessores diretos. Todos foram pegos em atos de corrupção
e isso teve um forte impacto sobre o imaginário popular. Desde
então, não foi possível reverter a impressão
negativa. Advogados passaram a ser vistos como pessoas venais, tentadas
pelos sete pecados capitais. Seriam hipócritas que defendem padrões
morais nos quais não se encaixam.
Veja Seu livro anterior, Ofensas Pessoais, fala de
corrupção no Judiciário e baseia-se numa investigação
da qual o senhor fez parte. Qual foi seu papel nessa história?
Turow
Quando
me formei em direito, em 1978, fui trabalhar para o governo como promotor.
Nessa condição, participei de uma devassa no Judiciário
de meu Estado, Illinois. Usamos até agentes do FBI disfarçados.
Descobriu-se uma grande teia de corrupção que envolvia dezessete
juízes e mais de cinqüenta advogados. A corrupção
havia se tornado tão rotineira que por 250 dólares os juízes
vendiam uma decisão. Num dos casos em que trabalhei, a sala do
juiz havia sido grampeada e ele foi pego perguntando a um advogado: "Quanto
você tem no bolso?". Era um caso de heroína. O advogado tinha
180 dólares e passou-os ao juiz, que então derrubou o processo.
Cenas como essas se repetiam dez vezes por semana. No final, o montante
era alto. Havia juízes que juntavam 100.000 dólares por
ano, além dos 70.000 que ganhavam legitimamente. Depois de nossa
investigação, as mudanças foram profundas. Nunca
mais ouvi falar de juízes comprados em Illinois.
Veja Hoje em dia, o que lhe dá mais dinheiro: escrever
ou ser sócio de um grande escritório de advocacia?
Turow Escrever,
muito mais. Aliás, eu só venho ao escritório uma
ou duas vezes por semana. Tenho ficado muito tempo em casa.
Veja
O senhor pensa em abandonar a advocacia?
Turow
Eu já abandonei completamente a advocacia na área civil.
Agora só lido com casos criminais. E, enquanto essa atividade me
divertir, vou continuar. Tenho interesse nisso, porque também me
ajuda a escrever.
Veja O senhor tenta transmitir alguma teoria sobre o direito
ou a Justiça em seus livros?
Turow
Acho
que primariamente escrevo sobre as falhas da lei, sobre o fato de que
seus propósitos nunca podem ser atingidos. A lei não torna
a vida mais razoável, ela nem sempre chega à verdade, ela
não pode sequer estabelecer o que é justo. Essa é
a reflexão que está por trás de minha obra, e de
maneira muito clara em Erros Irreversíveis.
Veja Por que a pena de morte, tema de Erros Irreversíveis,
é um equívoco?
Turow
Porque ela não funciona. Ela não evita mais crimes nem poupa
dinheiro do Estado. É desprovida de qualquer utilidade social.
Sua aplicação, além disso, está sujeita a
muitos problemas. Eles surgem já no momento em que o júri
toma contato com os detalhes do crime. Em geral são coisas tão
horríveis que os jurados, como descobrimos, freqüentemente
refletem assim: "Não vou correr o risco de deixar solta a pessoa
que cometeu essa atrocidade". O júri teme absolver culpados
e com isso aumenta a probabilidade de condenar um inocente. Além
disso, critérios que deveriam ser irrelevantes no julgamento na
verdade não o são. É um fato comprovado que a etnia
da vítima influi nas decisões. Em meu Estado, Illinois,
a pena é aplicada três vezes e meia com mais freqüência
nos casos em que a vítima é branca do que nos casos em que
a vítima é negra. Você tem mais probabilidade de ser
sentenciado à morte se cometer um crime na zona rural do que se
cometer um crime na cidade, se matar uma mulher do que se matar um homem.
Não há uma racionalidade clara nesses casos, nem nunca haverá.
Veja
Além desses argumentos de ordem prática, o senhor
tem alguma razão moral ou religiosa para opor-se à pena
de morte?
Turow
Para ser honesto, devo dizer que não. Eu não embaso minha
rejeição à pena de morte na moralidade nem num sentimento
religioso. Se a vida me tivesse colocado na situação de
ser um carrasco, eu creio que seria capaz de fazê-lo.
Veja No início deste ano, o governador de Illinois
comutou a pena de todas as pessoas que estavam no corredor da morte no
Estado. Essa decisão o deixou satisfeito?
Turow
Não sei se satisfeito é a palavra. No começo fiquei
preocupado com a idéia de que aquela decisão erodiria a
confiança que as pessoas depositam na lei. Afinal de contas, na
maioria dos casos o processo se arrastara por diversos anos e de
repente vinha um ato político que mudava tudo. Também temia
que o público ficasse tão irritado que acabasse inviabilizando
qualquer reforma mais profunda. Cheguei a pensar que, se fosse eu, teria
deixado um punhado de casos no corredor da morte para preservar a aparência
de ordem, ao mesmo tempo em que tornaria claro que a execução
de presos não é um gesto recomendável. Felizmente,
nenhuma de minhas previsões pessimistas se realizou. Depois da
decisão do governador, o Legislativo se mobilizou. Um comitê
de deputados já apresentou um relatório pedindo a abolição
da pena de morte no Estado de Illinois.
Veja
A decisão do governador se apoiou nos trabalhos de uma
comissão da qual o senhor fez parte. Como foi essa investigação?
Turow
Éramos catorze pessoas, na maioria advogados. Atuamos por dois
anos para apurar várias denúncias que havia tempos circulavam
no Estado. Descobrimos um problema gravíssimo de condenações
baseadas em confissões falsas, ao estilo do que ocorre em Erros
Irreversíveis. Freqüentemente a polícia empregava
técnicas coercitivas. Houve até quatro casos de tortura.
Houve gente surrada, atirada escada abaixo, sufocada com sacos plásticos
e atingida por choques elétricos nos órgãos genitais.
Ao concluirmos nossos trabalhos, redigimos um relatório que continha
sugestões para melhorar o sistema e, incidentalmente, a declaração
de que o melhor mesmo seria acabar com a pena de morte. Como resultado,
houve grande movimentação para que as penas daqueles que
estavam no corredor da morte fossem comutadas, o que o governador acabou
fazendo no fim de seu mandato.
Veja
Por que o senhor foi convidado a participar da comissão?
Turow Foi
por meu trabalho como advogado. Anos atrás, participei de dois
julgamentos em que os réus se livraram da pena de morte. Num deles,
provei que o acusado na verdade era inocente. No outro, consegui comutar
a sentença. O homem vai passar os próximos cinqüenta
anos na cadeia, mas não vai morrer.
Veja
Quando o atual presidente americano, George W. Bush, era governador
do Texas, o número de execuções naquele Estado aumentou
drasticamente. O que o senhor pensa disso?
Turow
Esse é apenas um dos casos em que eu discordo do presidente
e nem é o mais grave. Eu discordo dele por achar que cortes de
impostos para os mais ricos não vão melhorar a economia
do país. Eu discordo dele no que diz respeito ao financiamento
da saúde pública e no que diz respeito ao aborto. Também
acho que o governo deixou de apresentar bons argumentos para provar que
a guerra no Iraque era necessária. Mas, acima de tudo, acho perturbadora
a maneira como a administração Bush está passando
por cima de certos direitos fundamentais. Temos hoje um cidadão
americano que foi preso sob a acusação de estar fabricando
uma bomba com material radiativo. As acusações de terrorismo
são verdadeiras? Não sei. E ninguém ficará
sabendo enquanto esse homem for mantido na prisão sem que lhe seja
permitido falar com um advogado. Ele já está lá há
nove meses e não pôde falar com ninguém. Pratico direito
penal há 25 anos e não sei de nenhum argumento que justifique
isso. Aliás, você precisa jogar a Constituição
no lixo para agir dessa maneira. O Departamento de Defesa já foi
avisado duas vezes pelo Judiciário de que está se comportando
de maneira intolerável. Mas eles fingem não ouvir.
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