Gustavo
Franco
Matemática
e
neoliberalismo
"A
introdução da matemática no ensino
e na pesquisa de economia no Brasil
foi vista como uma 'americanização'
da disciplina e uma 'invasão
do paradigma neoliberal'"
Ilustração Ale Setti
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A matemática é apenas um idioma, mas é certo que
multiplica a inteligência humana. Graças a ela, observa o
historiador britânico Eric Hobsbawn, foi extraordinário o
desenvolvimento científico no século XX, e mais, ele observa,
a matemática assinalou o divórcio entre a ciência
e o senso comum. Ou seja, muitas leis da natureza apenas puderam ser "vistas"
ou "descobertas" quando o mundo pôde ser descrito em equações,
ou no idioma das letras gregas.
O leitor
pode observar facilmente a lei da gravidade em funcionamento, ou a lei
da oferta e da procura, mas terá dificuldades com a mecânica
quântica, com a relatividade e também com muitas das mais
importantes leis da economia.
Mas, a despeito
de sua indisputada serventia, a introdução da matemática
no ensino e na pesquisa de economia no Brasil foi lenta e tormentosa.
Como é próprio desta terra repleta de preconceitos e privilégios,
foi vista como uma "americanização" da disciplina e também,
pasmem, como uma "invasão do paradigma neoliberal". Só no
Brasil.
Essas alegações
tinham ao menos duas motivações escusas. De um lado, a tentativa
de enquadrar a ciência como um sistema de crenças, tão
bom quanto qualquer outro, de tal sorte que a matemática devia
ser vista como uma desidratação maldosa e ideologicamente
viesada do pensamento dos economistas ditos "clássicos", os que
escreveram nos séculos XVIII e XIX, Marx e seus seguidores aí
incluídos.
Sim, a matemática
permitia que centenas de páginas de pensamentos e reflexões
dos "clássicos" fossem traduzidas para a linguagem do pensamento
científico do século XX, ou seja, em equações.
E na tradução muita coisa se perde, de bom e de ruim, o
que para muitos era intolerável.
A segunda
motivação era mais rasteira: economistas que não
sabem matemática combinados com o alunato refratário ao
cálculo diferencial desenvolveram enormes resistências corporativas
às letras gregas e criaram poderosos enclaves onde se permanecia
cultivando "paradigmas alternativos" ou se tratando de economia como se
fosse gênero literário. Quem gostasse de números que
fosse fazer engenharia.
Essa realidade
mudou lentamente, mas pode-se dizer que ganhou velocidade com a política
do governo brasileiro de enviar bolsistas para o exterior com vistas à
pós-graduação nas melhores escolas do planeta. Política
esta também criticada por favorecer o "paradigma neoliberal", uma
vez que mandava mais gente para Princeton e Harvard do que para a Universidade
Patrice Lumumba, em Moscou.
Essa primeira
geração de bolsistas formou novos centros de pós-graduação
brasileiros, em padrões acadêmicos semelhantes aos das melhores
escolas do exterior, assim fomentando a produção local de
economistas que sabem fazer conta. Mais e mais se isolaram os "paradigmas
alternativos", cultivados apenas por um ou outro Antônio Conselheiro,
cada vez mais zangado, em uns poucos arraiais no interior.
Com a vitória
do PT, muitos desses "alternativos" puseram sua melhor gravata e esperaram
o chamado do destino. Falou-se na decadência das escolas que investiram
em excelência acadêmica e em matemática. Mas o que
se apresentou foi uma surpresa. O novo governo buscou quadros para a área
econômica nas melhores escolas e não acolheu "visões
alternativas" sobre economia em nenhuma política pública
relevante.
Venceu o
bom senso, valeu a meritocracia e perdeu, por ora, a turma que não
sabe ou não gosta de números. Na visão destes, venceu
o "neoliberalismo" e essa odiosa urdidura do imperialismo, a matemática.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
– www.gfranco.com.br)
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