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Edição 1 800 - 30 de abril de 2003
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Mudança cultural


Dida Sampaio/AE
Lula discursa: fala infeliz sobre o Judiciário e uma bela lição aos brasileiros

Ter os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário trabalhando "independentes e harmônicos entre si", como determina a Constituição do Brasil, parece hoje pertencer à ordem natural das coisas. Essa conquista, porém, é resultado de um formidável aprimoramento institucional obtido ao longo de séculos de evolução do Estado no Ocidente. As democracias sofrem quando os poderes da República se atritam pelas palavras ou atos de seus eventuais detentores, como ocorreu na semana passada, quando o chefe do Executivo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criticou diretamente outro poder, o Judiciário. "É preciso um controle externo do Judiciário. É preciso saber como funciona a caixa-preta desse poder que se considera intocável", afirmou Lula na terça-feira, em um discurso em Vitória. Tendo ou não razão, Lula extrapolou. No dia seguinte, através de seu porta-voz, o presidente amenizou suas críticas. Mas o estrago litúrgico estava feito.

Na mesma semana, Lula fez outro comentário que passou quase despercebido, mas tem um significado mais profundo do que sua referência negativa ao Judiciário. "Não agüento mais presidente latino-americano ficar jogando a culpa das desgraças do Terceiro Mundo no imperialismo. Isso é uma bobagem", disse Lula no discurso durante visita ao Porto de Tubarão. "O brasileiro precisa acreditar em si próprio." Vinda do presidente, a fala marca uma profunda mudança cultural não apenas de Lula, mas de seu partido, o PT. Ao contrário da imprecação contra o Judiciário, fruto de um exagero verbal, a frase de Lula sobre a responsabilidade dos brasileiros pelos próprios descaminhos do país tem lastro. Ela é a reafirmação da mesma idéia expressa por Lula com a mesma ênfase, mas de maneira ligeiramente diferente, há cerca de um mês em São Paulo: "Comecei a perceber que os governantes do Terceiro Mundo agem como se fossem inferiores: nós somos sempre 'coitadinhos', estamos sempre procurando um culpado. Nós nos acostumamos a jogar a culpa de tudo o que acontece em nosso país em cima dos países ricos". Essa postura mental de Lula contraria todo o rosário de queixumes que vem sendo desfiado pela esquerda latino-americana ao longo de muitas e muitas décadas. O rompimento do presidente com essa tradição derrotista é mais uma prova de que algo muito novo e positivo está acontecendo em Brasília nos dias atuais.

 
 
   
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