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Mudança cultural
Dida Sampaio/AE
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| Lula
discursa: fala infeliz sobre o Judiciário e uma bela lição
aos brasileiros |
Ter os poderes
Legislativo, Executivo e Judiciário trabalhando "independentes
e harmônicos entre si", como determina a Constituição
do Brasil, parece hoje pertencer à ordem natural das coisas. Essa
conquista, porém, é resultado de um formidável aprimoramento
institucional obtido ao longo de séculos de evolução
do Estado no Ocidente. As democracias sofrem quando os poderes da República
se atritam pelas palavras ou atos de seus eventuais detentores, como ocorreu
na semana passada, quando o chefe do Executivo, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, criticou diretamente outro poder, o Judiciário.
"É preciso um controle externo do Judiciário. É preciso
saber como funciona a caixa-preta desse poder que se considera intocável",
afirmou Lula na terça-feira, em um discurso em Vitória.
Tendo ou não razão, Lula extrapolou. No dia seguinte, através
de seu porta-voz, o presidente amenizou suas críticas. Mas o estrago
litúrgico estava feito.
Na mesma
semana, Lula fez outro comentário que passou quase despercebido,
mas tem um significado mais profundo do que sua referência negativa
ao Judiciário. "Não agüento mais presidente latino-americano
ficar jogando a culpa das desgraças do Terceiro Mundo no imperialismo.
Isso é uma bobagem", disse Lula no discurso durante visita ao Porto
de Tubarão. "O brasileiro precisa acreditar em si próprio."
Vinda do presidente, a fala marca uma profunda mudança cultural
não apenas de Lula, mas de seu partido, o PT. Ao contrário
da imprecação contra o Judiciário, fruto de um exagero
verbal, a frase de Lula sobre a responsabilidade dos brasileiros pelos
próprios descaminhos do país tem lastro. Ela é a
reafirmação da mesma idéia expressa por Lula com
a mesma ênfase, mas de maneira ligeiramente diferente, há
cerca de um mês em São Paulo: "Comecei a perceber que os
governantes do Terceiro Mundo agem como se fossem inferiores: nós
somos sempre 'coitadinhos', estamos sempre procurando um culpado. Nós
nos acostumamos a jogar a culpa de tudo o que acontece em nosso país
em cima dos países ricos". Essa postura mental de Lula contraria
todo o rosário de queixumes que vem sendo desfiado pela esquerda
latino-americana ao longo de muitas e muitas décadas. O rompimento
do presidente com essa tradição derrotista é mais
uma prova de que algo muito novo e positivo está acontecendo em
Brasília nos dias atuais.
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