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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Defensores
da vida, anjos da morte
W. Bush e um bispo argentino
protagonizam casos que ilustram as confusões de nosso tempo O
presidente George W. Bush e o bispo argentino Antonio Baseotto não se conhecem,
habitam extremos opostos das Américas e cultuam religiões diferentes,
mas têm algo decisivo em comum. Ambos filhotes do fundamentalismo, proclamam-se
"a favor da vida", para recorrer à expressão de que se apropriaram
os adversários do aborto e da eutanásia, mas na folha corrida de
um, bem como na retórica de outro, ressalta um fundo de militância
em favor da morte. Bush fez voltar à memória sua ambigüidade
na questão da vida e da morte ao meter-se no doloroso caso de Terri Schiavo,
a mulher tornada célebre pela briga em torno do desligamento dos aparelhos
que a mantêm viva. Dom Antonio Baseotto, bispo militar da Argentina, ou
seja, o capelão-mor das Forças Armadas, destacou-se e perdeu
o cargo pela declaração de que o ministro da Saúde
do governo Kirchner, Ginés González García, mereceria, por
suas posições a favor da liberalização do aborto e
suas políticas de distribuição de preservativos, "que lhe
amarrassem uma pedra no pescoço e o jogassem ao mar".
Primeiro, o caso de Bush. No domingo 20, ele interrompeu as férias no Texas
e voltou com estardalhaço a Washington. Tinha-se engendrado um artifício
pelo qual talvez se pudesse reverter a decisão do juiz da Flórida
que, atendendo aos reclamos do marido de Terri Schiavo, determinara o desligamento
dos aparelhos. O Congresso votaria, na segunda-feira, uma lei possibilitando que
o caso fosse remetido à Justiça federal, e Bush queria estar presente
para, logo em seguida, assinar a lei. O presidente não perderia uma oportunidade
dessas. A direita religiosa, da qual é o queridinho, estava assanhada,
promovendo rezas e vigílias pela religação dos aparelhos.
A lei foi aprovada pelo Congresso e assinada por
Bush, o que mostra a força do fundamentalismo nos Estados Unidos, mesmo
quando à custa de um princípio sagrado, no país, que é
a independência dos estados federados. Mas não é isso o que
importa aqui, nem o desfecho do caso. Importa a declaração de Bush,
ao desembarcar em Washington: "Em casos como esse, nos quais há sérias
questões e dúvidas substanciais, nossa sociedade, nossas leis e
nossas cortes deveriam observar uma presunção em favor da vida".
Quanta ironia, na frase, vinda de quem veio...
Havia "sérias questões e dúvidas substanciais" na decisão
de atacar o Iraque, tanto assim que a comunidade internacional a rejeitou. Mas
a opção de Bush foi por uma empreitada militar que já causou
mais de 1.500 mortes de americanos, 200 de aliados e, de iraquianos, sabe-se lá
quantas talvez 100.000. A presunção foi pela morte. Igualmente,
há "sérias questões e dúvidas substanciais" não
só quanto ao conceito de pena de morte em si, como em sua aplicação
particular em muitos casos. Nos últimos trinta anos, enquanto 956 condenados
eram executados nos EUA, 119 foram retirados do corredor da morte porque à
última hora provaram sua inocência. Quantos foram executados apesar
de inocentes? Não é possível saber, porque os tribunais não
julgam casos post mortem. Bush, porém, quando governador do Texas,
não tinha dúvidas. Deixou morrer todos os 152 condenados cujo último
recurso lhe chegou às mãos um recorde. Sua opção
foi, clara e consistente, ainda aqui, pela morte.
Agora, o bispo Baseotto. Sua declaração, formulada por escrito (por
escrito!), não choca apenas por um religioso rogar uma praga de morte contra
alguém. Choca mais pelo tipo de morte que ele escolheu, uma modalidade
patenteada pelos militares da ditadura argentina. Que deu no bispo? Que infeliz
impulso levou-o a evocar um tipo de execução de que os militares
tantas vezes, e tão sinistramente, lançaram mão, contra os
opositores do regime? Não deu nada. O jornal Página 12 foi
pesquisar-lhe a vida pregressa e descobriu que ele é assim mesmo, dado
a destampatórios fanáticos e discriminatórios. Num discurso
de 1986, a vítima foram os judeus. Segundo Baseotto, eles querem enriquecer,
não importa por que meio: "Se a pornografia é bom negócio,
vendem pornografia. E, se a droga é bom negócio, vendem droga".
O bispo acabou demitido por Kirchner. Na Argentina,
onde o catolicismo é religião do Estado, o bispo militar é
escolhido de comum acordo entre o governo e o Vaticano, e seu salário é
pago pelo governo. O Vaticano, porém espantosamente , ficou
a seu lado. O presidente do Conselho Pontifício para Justiça e Paz,
cardeal Renato Martino, expressou sua admiração pelas "valentes
e contundentes" posições de dom Baseotto. E o porta-voz do Vaticano,
Joaquín Navarro-Valls, chamou a decisão de Kirchner de "violação
da liberdade religiosa". Tempos de confusão,
estes nossos. Que é defender a vida? Que é defender a morte? Os
que dizem defender a vida, no aborto ou na eutanásia, não mostram
o mesmo empenho quando se trata de condenar as guerras, a repressão abusiva,
a discriminação, as punições extremas. O disfarce
de defensor da vida, não poucas vezes, esconde anjos da morte. |