Edição 1898 . 30 de março de 2005

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Sem sedução

Saramago revisita Don Giovanni
numa peça fraca


Jerônimo Teixeira

Mais célebre conquistador da literatura, Don Juan surgiu no século XVII, em uma peça assinada por um tal Tirso de Molina – ao que tudo indica, pseudônimo do frei espanhol Gabriel Téllez. Desde então, o personagem que "desonra" sucessivas mulheres para depois ser morto pela estátua do pai de uma de suas vítimas foi retomado por vários escritores e ganhou a ópera com o Don Giovanni, de Mozart. O Nobel português José Saramago resolveu meter sua colher nesse generoso sopão de letras com a peça Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (Companhia das Letras; 136 páginas; 29 reais). Sua ambição é purgar o moralismo da morte de Don Juan. O problema é que essa revisão do mito literário ficou a meio caminho. Don Juan ainda é castigado por sua vaidade, mas, como bom comunista, Saramago dispensou o aparato infernal e a moral religiosa imaginados por Molina. Don Giovanni foi escrito para servir de argumento a uma ópera do compositor italiano Azio Corghi. Ou seja, antes de ser um texto teatral, é um pretexto para a música – o que explica os trechos ridículos em que alguns personagens falam em coro. A praia de Saramago é mesmo o romance.

 
 
 
 
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