|
|
Livros O
poeta na trincheira política Nelson Ascher escreve
poesia de qualidade e artigos controversos. E vice-versa  Jerônimo
Teixeira
Marco
Pinto
 | | Nelson
Ascher: biblioteca gigante e BMW alugado |
Na recente temporada de três anos que passou
em Paris, Nelson Ascher aproveitou para viajar pela Europa em um BMW alugado.
"Nas estradas européias, onde se corre muito, eu me senti mais seguro em
um carro alemão", explica. De volta a sua cidade natal, São Paulo,
onde dirige um Escort 97, a extravagância fica reservada aos computadores:
ele renova seu equipamento anualmente e está sempre conectado à
internet, buscando subsídios para os artigos semanais na Folha de S.Paulo.
Esses textos costumam suscitar reações indignadas, especialmente
quando versam sobre política internacional. "Minha regra é: quando
há um conflito, torço pelo lado mais democrático. Não
posso ser contra os Estados Unidos e a favor do Talibã ou de Saddam Hussein,
como alguns amigos de esquerda", diz. Excursões européias, manias
tecnológicas, provocação política o que faltaria
para compor o retrato de um privilegiado "cidadão do mundo"? Ah, sim, Nelson
Ascher, aos 46 anos, também é um dos melhores poetas de sua geração,
o que o leitor pode comprovar em Parte Alguma (Companhia das Letras;
120 páginas; 29 reais), sua quarta coletânea de poemas.
Em
seu novo livro, Ascher demonstra uma salutar ansiedade rara entre seus
pares brasileiros de abrir seus versos para os grandes temas do nosso tempo,
rompendo com o provincianismo dos poetas que passam a vida cantando a cidadezinha
natal. "Nossa intelectualidade é centrípeta", diz. E cita um exemplo
egrégio: João Cabral de Melo Neto. Ascher encontrou o poeta pernambucano
uma única vez, nos anos 80. Cabral ficou horas falando só das relações
de parentesco que tinha com gente como Manuel Bandeira. "Tive a impressão
de que, se eu perguntasse o que significava o dia 1º de setembro
de 1939, Cabral diria que foi o nascimento de algum afilhado", diz Ascher. A data
título de um poema do inglês W.H. Auden marca o início
da II Guerra Mundial. Parte Alguma conjuga,
com mais intensidade do que o anterior Algo de Sol, as preocupações
poéticas e políticas do autor. Inclui um poema sobre o marco histórico
dos novos tempos os atentados de 11 de setembro de 2001. Também
há toda uma seção de poemas breves, epigramas que comentam
temas do momento. E ainda estão lá os poemas de metro curto e períodos
longos e rebuscados que são a marca do poeta por exemplo, os excelentes
Encontros e Cúmplices, este último sobre o holocausto
judeu. No meio sectário da poesia brasileira, Ascher é difícil
de classificar. Foi amigo de um dos nomes fundamentais do concretismo, Haroldo
de Campos, que morreu em 2003, mas isso não lhe valeu a aprovação
dos epígonos concretistas. "Ele é um autor de idéias fascistas
e formas reacionárias", ataca o poeta Frederico Barbosa, organizador de
Na Virada do Século, antologia da "poesia de invenção"
brasileira na qual Ascher não está incluído. Quando estreante,
Ascher também teve seus dias de carbonário ("Minha geração
foi muito truculenta no debate literário"), mas diz que hoje não
tem paciência para a militância poética. Resta esperar as críticas
a Parte Alguma para ver quanto resiste essa serenidade.
Filho de imigrantes judeus húngaros que sobreviveram aos campos de concentração
nazistas e enriqueceram no Brasil com uma empresa de fitas para máquinas
de escrever e impressoras, Ascher vive da renda que herdou da família,
complementada pelos artigos da Folha e por eventuais trabalhos de tradução.
Ele é, aliás, um dos melhores tradutores em atividade hoje, vertendo
para o português poemas em inglês, húngaro, russo e alemão,
entre outras línguas. Quando se interessa por uma obra, costuma adquiri-la
em todas as versões possíveis, até em idiomas que não
domina só no período em Paris, ampliou sua já enorme
biblioteca em 4.000 volumes. Os temas mais sensíveis
de sua coluna dizem respeito ao conflito árabe-israelense. Sua crítica
ácida a Edward Said, logo depois da morte do intelectual palestino, em
2003, gerou um abaixo-assinado de protesto com 187 nomes, do crítico Antonio
Candido ao escritor Milton Hatoum. "Foi um texto muito covarde", diz uma das articuladoras
da manifestação, a editora Ivana Jinkings, da Boitempo (que publica
livros de Said no Brasil). O artigo de Ascher forçava a mão em muitos
pontos ao afirmar, por exemplo, que Said desejava simplesmente o extermínio
de Israel , mas os signatários do abaixo-assinado abdicaram cegamente
de qualquer discussão ao "repudiar" o texto sem esboçar um argumento
contrário. O articulista tem colhido outras reações pouco
racionais a suas opiniões. Diz até que alguns amigos romperam com
ele por causa de sua posição favorável à Guerra do
Iraque. Ascher não revela o nome desses ex-amigos, mas, de fato, é
difícil encontrar um intelectual (e especialmente um poeta) que fale dele
sem alguma restrição. Os mais generosos dirão que ele é
um excelente poeta e tradutor mas um reacionário empedernido. O
que não se pode negar é que Ascher está cumprindo seu papel.
Suas idéias estão aí, para quem quiser adotá-las ou
contestá-las. Em prosa e verso.
Duas provocações em versos...
Direitos humanos já não perturbam
tirano algum, pois os slogans dos seus guardiães
agora são como o de Durban: Abaixo o racismo e morte aos judeus.
(Sobre a Conferência Mundial contra o Racismo,
realizada em Durban, África do Sul, em 2001)
• • • • • Se o remédio para a aids for descoberto nos
Estados Unidos, decerto muita gente, em mais um de seus giros, vai
tomar o partido do vírus. Poemas
do livro Parte Alguma ...e uma em prosa
"Said deve sua reputação
a ter se tornado o mais articulado defensor da 'causa palestina', algo que nada
tinha de difícil se considerarmos que seus competidores nessa área,
quando não estão ocupados explodindo ônibus escolares ou pizzarias,
satisfazem-se divulgando falsificações anti-semitas como Os
Protocolos dos Sábios de Sião. Ainda assim, sua dança
acadêmica dos sete véus, sobrepondo camadas de jargão marxista,
antiimperialista e pós-colonial, jamais ocultou que seus objetivos eram
idênticos." Trecho de artigo
publicado em setembro de 2003 na Folha de S.Paulo |
| |