Edição 1898 . 30 de março de 2005

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Livros
O poeta na trincheira política

Nelson Ascher escreve poesia
de qualidade e artigos controversos.
E vice-versa


Jerônimo Teixeira

 
Marco Pinto
Nelson Ascher: biblioteca gigante e BMW alugado

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Na recente temporada de três anos que passou em Paris, Nelson Ascher aproveitou para viajar pela Europa em um BMW alugado. "Nas estradas européias, onde se corre muito, eu me senti mais seguro em um carro alemão", explica. De volta a sua cidade natal, São Paulo, onde dirige um Escort 97, a extravagância fica reservada aos computadores: ele renova seu equipamento anualmente e está sempre conectado à internet, buscando subsídios para os artigos semanais na Folha de S.Paulo. Esses textos costumam suscitar reações indignadas, especialmente quando versam sobre política internacional. "Minha regra é: quando há um conflito, torço pelo lado mais democrático. Não posso ser contra os Estados Unidos e a favor do Talibã ou de Saddam Hussein, como alguns amigos de esquerda", diz. Excursões européias, manias tecnológicas, provocação política – o que faltaria para compor o retrato de um privilegiado "cidadão do mundo"? Ah, sim, Nelson Ascher, aos 46 anos, também é um dos melhores poetas de sua geração, o que o leitor pode comprovar em Parte Alguma (Companhia das Letras; 120 páginas; 29 reais), sua quarta coletânea de poemas.

Em seu novo livro, Ascher demonstra uma salutar ansiedade – rara entre seus pares brasileiros – de abrir seus versos para os grandes temas do nosso tempo, rompendo com o provincianismo dos poetas que passam a vida cantando a cidadezinha natal. "Nossa intelectualidade é centrípeta", diz. E cita um exemplo egrégio: João Cabral de Melo Neto. Ascher encontrou o poeta pernambucano uma única vez, nos anos 80. Cabral ficou horas falando só das relações de parentesco que tinha com gente como Manuel Bandeira. "Tive a impressão de que, se eu perguntasse o que significava o dia 1º de setembro de 1939, Cabral diria que foi o nascimento de algum afilhado", diz Ascher. A data – título de um poema do inglês W.H. Auden – marca o início da II Guerra Mundial.

Parte Alguma conjuga, com mais intensidade do que o anterior Algo de Sol, as preocupações poéticas e políticas do autor. Inclui um poema sobre o marco histórico dos novos tempos – os atentados de 11 de setembro de 2001. Também há toda uma seção de poemas breves, epigramas que comentam temas do momento. E ainda estão lá os poemas de metro curto e períodos longos e rebuscados que são a marca do poeta – por exemplo, os excelentes Encontros e Cúmplices, este último sobre o holocausto judeu. No meio sectário da poesia brasileira, Ascher é difícil de classificar. Foi amigo de um dos nomes fundamentais do concretismo, Haroldo de Campos, que morreu em 2003, mas isso não lhe valeu a aprovação dos epígonos concretistas. "Ele é um autor de idéias fascistas e formas reacionárias", ataca o poeta Frederico Barbosa, organizador de Na Virada do Século, antologia da "poesia de invenção" brasileira na qual Ascher não está incluído. Quando estreante, Ascher também teve seus dias de carbonário ("Minha geração foi muito truculenta no debate literário"), mas diz que hoje não tem paciência para a militância poética. Resta esperar as críticas a Parte Alguma para ver quanto resiste essa serenidade.

Filho de imigrantes judeus húngaros que sobreviveram aos campos de concentração nazistas e enriqueceram no Brasil com uma empresa de fitas para máquinas de escrever e impressoras, Ascher vive da renda que herdou da família, complementada pelos artigos da Folha e por eventuais trabalhos de tradução. Ele é, aliás, um dos melhores tradutores em atividade hoje, vertendo para o português poemas em inglês, húngaro, russo e alemão, entre outras línguas. Quando se interessa por uma obra, costuma adquiri-la em todas as versões possíveis, até em idiomas que não domina – só no período em Paris, ampliou sua já enorme biblioteca em 4.000 volumes.

Os temas mais sensíveis de sua coluna dizem respeito ao conflito árabe-israelense. Sua crítica ácida a Edward Said, logo depois da morte do intelectual palestino, em 2003, gerou um abaixo-assinado de protesto com 187 nomes, do crítico Antonio Candido ao escritor Milton Hatoum. "Foi um texto muito covarde", diz uma das articuladoras da manifestação, a editora Ivana Jinkings, da Boitempo (que publica livros de Said no Brasil). O artigo de Ascher forçava a mão em muitos pontos – ao afirmar, por exemplo, que Said desejava simplesmente o extermínio de Israel –, mas os signatários do abaixo-assinado abdicaram cegamente de qualquer discussão ao "repudiar" o texto sem esboçar um argumento contrário. O articulista tem colhido outras reações pouco racionais a suas opiniões. Diz até que alguns amigos romperam com ele por causa de sua posição favorável à Guerra do Iraque. Ascher não revela o nome desses ex-amigos, mas, de fato, é difícil encontrar um intelectual (e especialmente um poeta) que fale dele sem alguma restrição. Os mais generosos dirão que ele é um excelente poeta e tradutor – mas um reacionário empedernido. O que não se pode negar é que Ascher está cumprindo seu papel. Suas idéias estão aí, para quem quiser adotá-las ou contestá-las. Em prosa e verso.

 

Duas provocações em versos...  

Direitos humanos já não perturbam
tirano algum, pois os slogans dos seus
guardiães agora são como o de Durban:
Abaixo o racismo e morte aos judeus.
(Sobre a Conferência Mundial contra o
Racismo, realizada em Durban,
África do Sul, em 2001)

• • • • •

Se o remédio para a aids for descoberto
nos Estados Unidos, decerto
muita gente, em mais um de seus giros,
vai tomar o partido do vírus.

Poemas do livro Parte Alguma

 

...e uma em prosa  

"Said deve sua reputação a ter se tornado o mais articulado defensor da 'causa palestina', algo que nada tinha de difícil se considerarmos que seus competidores nessa área, quando não estão ocupados explodindo ônibus escolares ou pizzarias, satisfazem-se divulgando falsificações anti-semitas como Os Protocolos dos Sábios de Sião. Ainda assim, sua dança acadêmica dos sete véus, sobrepondo camadas de jargão marxista, antiimperialista e pós-colonial, jamais ocultou que seus objetivos eram idênticos."
Trecho de artigo publicado em setembro de 2003 na Folha de S.Paulo

 
 
 
 
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