Edição 1898 . 30 de março de 2005

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Especial
A maré da democracia

O Líbano está na vanguarda das manifestações de vontade popular no mundo árabe e é o exemplo mais promissor das mudanças que se delineiam no horizonte. Pressão internacional e protestos nas ruas já conseguiram que a Síria começasse a retirar tropas que ocupavam o país havia quase trinta anos


Vilma Gryzinski, com fotos de Paulo Vitale, de Beirute

 
FÚRIA E EUFORIA
A praça é deles: repúdio ao assassinato do ex-primeiro-ministro Hariri e alegria pelas primeiras vitórias

NESTA EDIÇÃO
O despertar árabe

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Perguntas e Respostas sobre o Líbano

A história está dando um de seus saltos à frente no Líbano – e o faz da maneira colorida, passional, contraditória e única que é tão típica do país. Pela primeira vez, a palavra intifada – rebelião, em árabe – é usada nessa parte do mundo para caracterizar um movimento inteiramente pacífico. Pela primeira vez, enormes massas saem às ruas pedindo o básico em boa parte do planeta, mas mercadoria escassa entre seus vizinhos: liberdade, soberania, justiça. Pela primeira vez, guiadas pelo mais arrebatado realismo, pediram – e conseguiram – o impossível: a retirada das tropas sírias que entraram no país em 1976, no início da guerra dos quinze anos, e pareciam fadadas a permanecer eternamente por lá. Pela primeira vez, o alinhamento dos astros no céu da geopolítica favorece o Líbano, tão castigado no passado pelos conflitos entre interesses externos e seus próprios impulsos autodestrutivos. E, por fim, pela primeira vez, cristãos e uma parte da população muçulmana estão unidos numa aliança de sangue, que pode impulsionar o passo adiante da história, tornando o país o exemplo mais promissor das mudanças que começam a despontar no mundo árabe.

 
A REVOLUÇÃO DE JIHAD
Com a filhinha de 6 anos, diante da sepultura de Hariri, o engenheiro Jihad Chokr reavalia Bush: "Tem gente mudando de opinião sobre ele"

Duas tragédias de enorme repercussão, uma de alcance global e outra local, entrecruzaram-se para produzir a confluência de acontecimentos que coloca o Líbano na vanguarda das transformações que se delineiam no horizonte. A primeira foi o 11 de Setembro, seguido do choque em toda a concepção de política externa dos Estados Unidos, das invasões do Afeganistão e do Iraque, da reeleição de George W. Bush e, agora, da reativação da "revolução permanente" preconizada pelo governo americano para espalhar a democracia entre os países muçulmanos. Entoado como um mantra nos minaretes metafóricos de Washington, o apoio à democracia somou-se às ameaças despejadas sobre a Síria – e tornadas indiscutivelmente factíveis pela presença de 150 000 soldados americanos estacionados do lado de lá de sua fronteira, no Iraque, em condições de transformar a retórica em bombardeio de verdade. Sem o peso da pressão americana, a Síria faria o de hábito: reprimiria qualquer tentativa de protesto, e quem insistisse teria muitas chances de ir para a cama no Líbano e acordar num lugar inóspito.

A tragédia local, que empurrou uma parte da população libanesa para as ruas e as tropas sírias para fora do país, foi o inacreditável atentado que incinerou em plena orla de Beirute a comitiva de carros blindados e a coorte de guarda-costas na qual se deslocava o homem mais admirado do Líbano, o bilionário Rafik Hariri. Como primeiro-ministro, ele selou a reconciliação nacional, iniciou a normalização política, reconstruiu o país literalmente no chão depois de quinze anos de guerra e recuperou a auto-estima dos libaneses de uma forma que o presidente Lula, um apreciador do tema, só poderia sonhar. Rompido com a Síria, da qual foi aliado de circunstância durante quase uma década e meia, Hariri levou perigosamente para perto da oposição seu bloco de parlamentares, muçulmanos sunitas. Quando ele foi pelos ares, no dia 14 de fevereiro – "Choviam carros em chamas do céu", contou uma testemunha que viu a cena apocalíptica da janela do escritório –, a culpa recaiu imediatamente sobre o regime sírio e seus pretorianos locais.

 

CARLOS, O BRASILEIRO
Criado no Brasil, Carlos Eddé lidera uma ala da oposição (seu avô, Émile, no retrato, foi o primeiro presidente do Líbano): "Depois de quase trinta anos, influência americana é positiva"

É impossível superestimar a revolta, o choque e a fúria da maioria dos libaneses ante a hediondez do atentado, equivalente, pela preeminência de Hariri, a um magnicídio. As primeiras reações foram completamente espontâneas, desencadeando um movimento que se tornou permanente. Todo dia, centenas de jovens comparecem à Praça dos Mártires, no centro de Beirute, para protestar – outros tantos estão acampados e dali não saem. Há duas semanas, uma manifestação gigante reuniu lá cerca de 1 milhão de libaneses – ou quase um terço da população do país –, formando uma infindável maré humana encimada por uma floresta de cedros, a árvore mítica que enfeita a bandeira nacional, e arrastada pelo tipo de entusiasmo libertário que desde sempre é o motor de guinadas históricas.

Um simples passar de olhos pela praça registra a notável concentração de elementos indicadores da diversidade libanesa: de um lado, a enorme mesquita ainda em construção junto à qual foram sepultados Hariri e seus guarda-costas; de outro, uma Virgin Megastore; no centro, o monumento aos mártires da independência cravado de balas disparadas durante a guerra, quando por ali passava a linha dividindo cristãos e muçulmanos; abaixo da superfície, as mais antigas ruínas fenícias do país. Nesse cenário carregado de heranças do passado, os libaneses estão construindo um futuro potencialmente melhor. Os nomes que se dão ao movimento são variados. A intifada da independência ou a Revolução dos Cedros são alguns deles. Fala-se também em Primavera de Prada, ironia inventada pelos governistas para tentar desqualificar um movimento em que, reconheça-se, damas da sociedade desfilam roupas e acessórios das grifes mais finas – Prada rima com Praga, a do levante anti-soviético de 1968, mas, nesse sentido, poderia também ser a revolução da Chanel, da Gucci ou da Louis Vuitton. É ainda a rebelião das barriguinhas de fora das estudantes cristãs que usam o uniforme universal – jeans de cintura baixa, top curtinho – para ir à manif, como se diz, à francesa. Ou da turma que protesta, fala ao celular e tira fotos com ele, tudo ao mesmo tempo, como se estivesse na balada. Ou ainda das garotas muçulmanas de véu na cabeça e roupas moderninhas; das mulheres de costumes e tatuagens tribais que vêm ulular, enlutadas, pela morte de Hariri; dos grandalhões com catadura de guarda-costas – uma profissão com demanda permanente no Líbano – que choram sinceramente emocionados diante da sepultura do líder assassinado. Desde a semana passada, o túmulo – simples, como exige a religião muçulmana, mas transformado numa verdadeira instalação pela concentração de velas, símbolos religiosos variados, bandeiras, retratos e pombas, vivas e brancas – passou a receber uma nova leva de peregrinos. São xiitas, adultos ou crianças de escolas e organizações controladas pelo Hezbollah. Misto de facção religiosa, exército regional, organização terrorista e partido político legítimo, o Hezbollah é armado e solidamente apoiado pela Síria, à qual manifesta lealdade inquebrantável. O fato de que esteja mandando sua gente ao coração do território oposicionista, para homenagear Hariri, indica que também está sentindo a ventania da mudança.

 

MURAD, O MINISTRO
Representante do regime, Abdul Rahim Murad, o ministro da Defesa, que já morou em São Paulo, reclama: "É feio xingar os sírios"

A indignação com o atentado foi tamanha que hoje são creditados à Síria e a seu autocrata hereditário, Bashar Assad, três milagres involuntários. O primeiro foi unir cristãos e muçulmanos sunitas, que no passado se odiaram e se mataram, como tantas das facções do país. O segundo, quase tão impossível quanto, foi colocar no mesmo barco os dois líderes ocidentais mais congenitamente antagônicos, Bush e o francês Jacques Chirac. Adversários nada cordiais em razão da invasão americana no Iraque, Bush e Chirac disputam agora quem dá mais vergastadas na Síria – bloco ao qual se somaram, com menos estridência mas não veemência, os dois países árabes mais importantes, o Egito, pelo tamanho e pela história, e a Arábia Saudita, pelos petrodólares.

Demorou um pouco para cair a ficha em Damasco. "A Síria não levou as ameaças americanas a sério. Estava acostumada a brandir a retórica anti-americana em público e a fazer acordos por baixo do pano. Também não entendeu que a questão libanesa, antes um assunto marginal, ganhou vida própria. De fator estabilizador, a Síria passou a ser vista como fator desestabilizador", analisa o professor Farid Khazen, chefe do Departamento de Estudos Políticos e Administração Pública da Universidade Americana de Beirute. Jibran Tueini, dono do jornal An Nahar e feérica estrela da oposição, seqüestrado uma vez e ferido duas durante a guerra, faz uma comparação entre os pais e os filhos que se sucederam no poder em Damasco e Washington para explicar quão distinto é o pano de fundo contra o qual se desenrola a revolução dos cedros. "O Assad não é Hafez", diz, referindo-se ao falecido ditador sírio, reputado pelas doses iguais de brutalidade e astúcia, características que o filho parece tentar imitar, sem sucesso. "E o George tem um W antes do Bush", acrescenta. Para a oposição anti-Síria, o primeiro presidente Bush foi o homem que "vendeu" o Líbano em nome das considerações práticas e pouco éticas da realpolitik. Depois da primeira guerra contra Saddam Hussein, em 1991, na qual os sírios tiveram uma discreta participação com os americanos, selou-se o arranjo que endossou a intervenção síria no Líbano, em nome da estabilização do país. O acordo assinado na cidade saudita de Taif previa uma retirada eventual, que o regime sírio ignorou acintosamente, até ser obrigado a iniciá-la, sob a dupla pressão da rebelião interna no Líbano e das exigências americanas. "Todo dia tem discurso de Bush, a França também bate na mesma tecla sem parar. O panorama internacional nos favorece", exulta Tueini.

 
A PRIMAVERA DE PRADA
Na casa da carioca Regina Fenianos (primeira à esquerda), chiquérrimas damas da sociedade planejam sua participação nas manifestações de protesto: intifada no high society

"Não estamos esperando que a frota americana aporte em Beirute, mas o fator tempo está do nosso lado", concorda Walid Jumblatt, o líder druso que hoje é a figura mais importante da oposição. Irônico, eternamente impaciente, com os olhos azuis arregalados que o deixam cada vez mais parecido com a criatura Gollum, de O Senhor dos Anéis, Jumblatt se reveza entre viagens internacionais para consolidar o apoio à oposição e recepções políticas em seu castelo nas montanhas, dotado de todos os confortos modernos, inclusive uma biblioteca que parece uma caverna high-tech, com as obras completas de Lenin na estante (sim, o senhor feudal dos drusos já foi socialista e cliente dos soviéticos) e riachos canalizados de água cristalina. Matizar a importância da pressão americana sobre a Síria faz parte do repertório de todo oposicionista libanês – pelo menos em público. Em particular, falando reservadamente, as pessoas se soltam mais. "Se não fossem os americanos, não teríamos coragem de sair à rua para protestar", diz uma jovem da sociedade cristã. E a posição do Hezbollah, que representa uma parte substancial dos xiitas, hoje 40% da população libanesa? "De que adianta os xiitas serem tantos e terem tantas armas se os americanos têm os Tomahawk?", rebate um renomado advogado, invocando o poder irrefutável dos mísseis de longa distância do arsenal dos Estados Unidos. "Se não aceitarem os princípios básicos da democracia, inclusive a alternância no poder, é Tomahawk neles."

O Hezbollah é um dos grandes complicadores, embora não o único, do futuro político libanês. Como em outros países árabes, os xiitas sempre foram a parcela da população mais pobre e marginalizada do Líbano. A revolução dos aiatolás, no Irã, começou a mudar a correlação de forças. Financiados e ideologicamente formatados pelos iranianos, xiitas libaneses viraram uma milícia temível, durante e depois da guerra. De terroristas que agiam nas franjas passaram ao centro do espectro político pela resistência ao Exército de Israel, que manteve a região sul do Líbano sob ocupação até o ano 2000. Em todos os meios políticos, repetem-se os elogios à habilidade política do Hezbollah, que diversificou atividades e hoje participa da vida parlamentar, com nove deputados. Conta-se que até um bispo maronita ficou encantado depois de receber uma delegação de religiosos do Hezbollah: durante três horas, discutiram de igual para igual o pensamento de Santo Tomás de Aquino. "Eles são bons interlocutores", avalia, com frieza de analista político, o paulista Carlos Eddé. Neto do primeiro presidente do Líbano independente, Émile Eddé, em cuja mansão art déco hoje mora, Eddé lidera um importante bloco parlamentar de oposição. "Eles fazem política de maneira inteligente. Precisam ser atraídos para a reconstrução do país", acrescenta o deputado oposicionista Mosbah Ahdab, que é a própria imagem do muçulmano moderno: jovem, bonito, rico, diploma da London School of Economics e disposto a colocar o Líbano no lugar em que merece – a comunidade das nações civilizadas.

 

MUÇULMANO MODERNO
O deputado Mosbah Ahdab é rico, bonito e tem visão: "O Hezbollah precisa ser atraído para a reconstrução do país"

Os quadros do Hezbollah também têm fama, merecida, de honestidade ("É fácil ser honesto de barriga cheia", diz um político, invocando o dinheiro iraniano que irriga os cofres xiitas). Honestidade é um bem raro no Líbano, onde os ocupantes sírios se uniram aos ocupados locais para praticar o que é definido, no mínimo, como saque generalizado. "Qualquer generalzinho sírio que vinha para cá não voltava com menos de 50 milhões de dólares", resume um deputado. Além da roubalheira, a Síria estabeleceu um sistema de controle político pelo qual escolhia os quadros mais importantes do governo, influenciava a lista de candidatos ao Parlamento e mantinha a população em geral intimidada pela ação do mukhabarat, palavra que designa polícia política, encarregada tanto da repressão quanto da rede de espionagem entranhada em todos os interstícios do tecido social, e é sempre pronunciada com temor nos países árabes.

Os sírios estão indo embora, mas deixam para trás o regime viciado que floresceu à sombra da ocupação. Modificá-lo, sem lançar o país, de novo, na guerra entre facções ideológicas e confessionais, é um dos vários obstáculos que os libaneses ainda precisam saltar para pôr fim à ocupação síria, realizar eleições corretas em maio, reorganizar as instituições e retomar a normalidade. Depois é preciso ainda tratar da questão absurdamente complicada do desarmamento do Hezbollah. Por enquanto, todos estão se comportando muitíssimo bem. "Temos de sentar e negociar. Podemos chegar a uma democracia que funcione convenientemente. Fui vencido no passado. Não quero ser vencedor hoje. Isso só vai criar inimigos", diz o deputado oposicionista Salah Honein. Bahia Hariri, a irmã do ex-primeiro-ministro assassinado e uma das três mulheres que integram o Parlamento, está ganhando projeção pela abertura a todas as correntes políticas. "A união da pátria é o sustentáculo da estabilidade, que é o alicerce da democracia", declarou ela a VEJA. Integrar ao processo de abertura as correntes que favorecem a Síria, por ideologia ou afinidade cleptocrata, parece de uma dificuldade alucinante. Esse é um mundo onde se afirma, com convicção, que Hariri foi assassinado pelos americanos – os quais, naturalmente, também tramaram o 11 de Setembro, com assistência do Mossad. Tudo, naturalmente, para impor o diktat do império americano e favorecer Israel. Nesse mundo de teorias conspiratórias, não é de estranhar que sejam cometidos espetaculares erros de avaliação, como acreditar que a presença e a influência da Síria eram inabaláveis. A convivência com o vizinho maior e mais forte, porém, é um fato da vida.


PALAVRA DE BAHIA
Bahia Hariri, irmã e herdeira política do líder assassinado: "A união da pátria é o sustentáculo da estabilidade"

"A Síria nos ajudou muito. É muito feio xingar os sírios na rua, como estão fazendo agora", diz num português razoável Abdul Rahim Murad, ministro da Defesa, que morou cinco anos em São Paulo e tem sua base política em Chtaura, numa área do Vale do Bekaa, onde em algumas cidadezinhas a população de brasileiros, natos ou naturalizados, chega a 70% – fala-se em até 100.000 portadores do passaporte verde. Vários desses brasileiros estão acompanhando o processo de mudanças com cauteloso otimismo – alguns até tomaram coragem, fretaram um ônibus e participaram da grande manifestação do último dia 14, mesmo sabendo que os chefes políticos locais estão do outro lado. "Quem não quer ter liberdade e soberania?", pergunta, diplomaticamente, o engenheiro Mohamed Abdouni, paulistano da Vila Mariana, um dos fundadores da Associação de Brasileiros Residentes no Líbano. Do lado oposto do espectro sociorreligioso, outra brasileira, a carioca Regina Fenianos, uma das locomotivas sociais do Líbano, fez a mesma coisa: alugou um ônibus, lotou-o de damas da sociedade e foram todas participar entusiasticamente do protesto.

Os libaneses ficam ofendidos, com razão, quando se diz que a democracia está dando os primeiros passos no país, sob a égide americana. Lembram que têm tradição no ramo, não só na pluralidade política como na convivência interconfessional, produto da singularidade libanesa decorrente da maciça presença de árabes cristãos – são, hoje, 37% da população. Mesmo sob ocupação síria, mantiveram elementos básicos das sociedades abertas, inexistentes nos vizinhos. Imprensa livre, economia de mercado, sociedade civil atuante e contatos intensos com o resto do mundo são alguns deles. Também conta no quadro da diversidade o fato de que, na mesma cidade, seja possível ver a massa de mulheres xiitas cobertas de negro, andando na rua com ar sério, e os meneios sensuais da dança do ventre num dos inúmeros night clubs que animam a noite de Beirute. A importância do fator americano na maré de transformações em curso é absorvida, em nome do realismo. "Depois de quase trinta anos de influência americana negativa, agora existe uma influência positiva", diz o brasileiro Carlos Eddé.

 
CASTELO ENCANTADO
Walid Jumblatt, principal líder da oposição, recebe na biblioteca de seu castelo nas montanhas: "O fator tempo está do nosso lado"

Em visita ao túmulo de Hariri com a filhinha de 6 anos, Jihad Chokr, sunita, engenheiro de computação formado nos Estados Unidos, avança mais um passo nesse terreno delicado. Conta que foi um dos 35.000 bolsistas bancados pessoalmente por Hariri, casou-se com uma americana, teve uma filha nos Estados Unidos e construiu uma vida agradável lá antes de voltar ao Líbano. Tal como a imensa maioria dos árabes, nunca aprovou a política externa americana, muito menos o presidente Bush. "Mas tem gente que já está mudando de opinião. Um amigo me disse: 'Eu odiava Bush. Agora até começo a gostar dele'." É esse o terceiro milagre operado, sem querer, pela Síria. Ao ajudar a expulsar o Exército de ocupação, Bush, o mais execrado presidente americano dos últimos tempos, ficou do lado que só pode render dividendos: da justiça e da liberdade.

 
O W DA QUESTÃO
Tueini, o dono de jornal: "Esse George tem um W antes do Bush

 

ESPETÁCULO DA DIVERSIDADE
Os meneios da dança do ventre na noite de Beirute e o passo sério das xiitas cobertas da cabeça ao pés: pluralidade e convivência numa sociedade aberta para o mundo

 

BYE, BYE, SÍRIOS
Soldados sírios chegaram como força de paz, em 1976, e agora começam a ir embora, levando a foto do velho Assad e outras boas lembranças: "Qualquer generalzinho sírio não saía daqui com menos de 50 milhões de dólares"

 
 
 
 
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