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Especial O
despertar árabe Parece incrível, mas
há boas notícias chegando do Oriente Médio: do Líbano,
o mais avançado, à Arábia Saudita, a mais modesta, brotam
ensaios de democracia  Vilma
Gryzinski Mohamed
El-Dakhakhny/The New York Times
 | A
PRIMEIRA VEZ Tímida abertura: sauditas
conferem listas de candidatos nas eleições municipais restritas
e controladas mas sem precedentes |
Faça um teste: olhe rapidamente
as fotos a seguir. Elas aparentam já ter sido vistas milhares de vezes.
Há cidadãos árabes em manifestações de protesto,
incendiando as ruas com sua fúria ancestral. Alguns levam cartazes em que
aparece o nome do presidente George W. Bush grande novidade, não?
Tem até a tradicional manifestação de porta de embaixada,
com a polícia tentando conter os ânimos e a obrigatória queima
de bandeira do país visado. Alguns segundos de atenção a
essas cenas, registradas no Líbano, em Catar e no Iraque, revelam sinais
de um extraordinário mundo novo. O cartaz com o nome de Bush na
inesperada companhia do francês Jacques Chirac e de Kofi Annan, o secretário-geral
da ONU é de agradecimento pela moção internacional
que estabelece a saída das tropas sírias do Líbano. Foi exibido
numa das demonstrações populares que há um mês e meio
se sucedem em Beirute, no momento a face mais visível das transformações
em gestação no Oriente Médio. O protesto na foto maior aconteceu
em Catar, pequeno e comparativamente comportado emirado do Golfo Pérsico,
onde no último dia 19 um carro-bomba explodiu na frente de uma escola para
estrangeiros matando um professor inglês. Numa região do mundo onde
os assassinos que proclamam agir em nome de Deus costumam ser louvados como mártires,
em Catar se fez um ato de repúdio ao terrorismo, permeado por frases singelas
como: "Residentes estrangeiros, nós amamos vocês". No Iraque, o protesto
não foi na porta da embaixada americana, mas na da Jordânia, acusada
de facilitar a entrada no país das ondas de suicidas que, em nome da guerra
aos Estados Unidos, trucidam diariamente civis iraquianos. Fadi
Al-Assaad/Reuters
 | Karim
Sahib/AFP
 | A
VOZ DAS RUAS Protestos num mundo árabe
com sinal invertido: contra o terrorismo, em Catar; em Bagdá, na frente
de uma embaixada, mas da vizinha Jordânia; e de agradecimento | Omar
Ibrahim/Reuters
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Embora
inéditas, essas cenas não significam que o Oriente Médio
esteja ingressando em peso numa era democrática, que a opinião pública
árabe a voz das ruas, sempre tão antiamericana tenha
mudado dramaticamente ou que George Bush esteja a caminho de se tornar uma figura
popular bem, talvez só um pouquinho, em alguns lugares específicos,
onde a intervenção dos Estados Unidos é vista como benéfica.
Tampouco se supõe que o governo americano tenha se tornado um modelo de
altruísmo, disposto a espalhar a mensagem democrática em nome da
confraternização universal. Os objetivos
dos Estados Unidos são conhecidos e permanentes: garantir que o petróleo
continue fluindo, que os países do Oriente Médio onde ele jorra
como água não sejam engolfados pelo caos e que não produzam
os fanáticos terroristas dispostos a atacar o império americano
(acrescente-se que isso é de interesse vital de todo o nosso planeta petrodependente,
onde o barril a 50 dólares já dói e a 100, ou inacessível,
prenuncia a derrocada da civilização). O 11 de Setembro comprovou
que o terceiro item da lista estava dando terrivelmente errado. O status quo,
de aliança com regimes autoritários mas confiáveis, que durante
décadas havia garantido a estabilidade, não funcionava mais a contento?
Vassoura nele, decidiram os dirigentes americanos, com irretorquível pragmatismo.
E o que fazer para atacar o problema de fundo, o X da questão, o coração
da matéria: o ódio visceral aos Estados Unidos, capaz de colocar
jovens bem de vida e de alto nível de instrução, muitos residentes
na Europa, expostos a todas as seduções da sociedade ocidental,
na cabine de aviões seqüestrados, para se explodirem alegremente em
Nova York? A idéia de usar a democracia como o melhor detergente antifanatismo
foi aventada pelos intelectuais chamados neoconservadores que forjaram a nova
política externa americana, ficou pairando no ar enquanto as bombas falavam
mais alto no Afeganistão e no Iraque e agora ressurgiu, abraçada
com entusiasmo pelo presidente Bush (piadinha de especialistas: ainda bem que
ele não conhece nada de Oriente Médio, pois caso contrário
não se animaria a propor mudanças lá).
Numa parte do mundo que habitualmente só produz notícias ruins,
os resultados da mistura entre incentivos americanos aos movimentos pró-democracia
e circunstâncias locais favoráveis parecem até bons demais
para ser verdade. Os eleitores palestinos que votaram em Mahmoud Abbas sabem exatamente
o que ele pensa: a violência produziu resultados negativos e o processo
de acomodação com Israel, com todas as suas alucinantes dificuldades,
tem de prosseguir. O fato de que Abbas diga isso em público e em particular,
ao contrário da notória duplicidade de seu antecessor, Yasser Arafat,
já parece suficientemente prodigioso, mas há mais. O Hamas, grão-patrocinador
do islamismo militante, do terrorismo e da pura e simples extinção
de Israel, quer participar do processo político, lançando candidatos
para o Parlamento. Tem de correr para não ficar atrás de seu equivalente
xiita, o Hezbollah, que discute com segurança profissional as tremendas
mudanças em curso no Líbano. Atenção, as mudanças
desfavorecem gravemente os militantes xiitas, ao enfraquecer seus patronos sírios,
mas ninguém está falando, até agora, em atacar os opositores
a bala, o que por tanto tempo foi a reação pavloviana obrigatória.
A abertura pode parecer timidíssima (a promessa
de eleições presidenciais pluripartidárias, mas não
muito, no Egito; modestas eleições municipais na Arábia Saudita
e aceno em favor do voto feminino, num país onde as mulheres não
podem nem sair de casa sozinhas). Esperar que todo o mundo árabe entre
em uníssono na dança da abertura democrática seria de uma
ingenuidade quase insana. As disparidades são imensas quando se fala de
um universo de 304 milhões de pessoas (374 milhões se incluído
o Irã, que não é árabe mas está na mesma zona
geopolítica), em dezessete países, com um PIB de 680 bilhões
de dólares, gerados por produtos que vão das tâmaras ao petróleo.
Mas a similaridade de língua, religião e matriz cultural cria um
efeito contágio considerável. Os "dedos azuis" dos iraquianos, que
foram às urnas em janeiro apesar das ameaças terroristas, deixaram
marcas profundas além-fronteiras e criaram enormes dilemas político-religiosos
para os xiitas militantes, confrontados com a mais angustiante das ironias: os
odiados americanos estão ajudando seus irmãos de fé a chegar
ao poder no Iraque. O alvo das atenções (e de boa dose de inveja)
no momento é o Líbano, o mais bem equipado dos países árabes
para o tipo de maré pró-democracia a que se assiste atualmente.
"O que está acontecendo no Líbano tem impacto profundo no mundo
árabe. É o começo de grandes mudanças", disse a VEJA
o ex-presidente Amin Gemayel, que ocupou o cargo durante uma das fases mais pavorosas
da guerra que castigou o país durante quinze anos. "O efeito chega até
a Síria. A geração jovem de lá vê tudo o que
está acontecendo aqui." Uma amostra do que está ocorrendo no Líbano
encontra-se na reportagem a seguir, mas pode ser antecipadamente resumida em uma
palavra: esperança. Alguém se lembra de qual foi a última
vez em que ela se aplicou, com tanta propriedade, a um lugar do Oriente Médio?
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