Edição 1898 . 30 de março de 2005

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Governo
O peso do poder

É assim em toda reforma ministerial:
com dificuldades para decidir, Lula
se angustia – e engorda


Juliana Linhares


Monica Zaratinni/AE
Ed Ferreira/AE
EFEITOS DA TENSÃO
O presidente Lula na cerimônia de posse, em 2003 (à esq.), e agora, às vésperas da conclusão da reforma ministerial: "Sou uma sanfona mesmo"

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Reportagens de arquivo sobre o governo Lula

Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e João Figueiredo, os últimos ocupantes do Palácio do Planalto a cumprir pelo menos quatro anos de mandato, deixaram o poder em condições políticas diversas, mas com algo em comum: o peso do cargo estampado no rosto. Em seu terceiro ano de governo, o presidente Lula já dá mostras de que se dobrará à tradição. Seus cabelos estão mais ralos e brancos, as feições demonstram cansaço e as preocupações aprofundaram-lhe os vincos na testa. O poder, como se vê, desgasta e, às vezes, arredonda silhuetas – o que, no caso de Lula, ocorre sempre que ele tem de tomar decisões que lhe provocam ansiedade. Foi assim durante a primeira reforma ministerial, em janeiro do ano passado. Na ocasião, o presidente confessou a diversos interlocutores sua angústia pelo fato de ter de demitir, entre aliados e colaboradores de primeira hora, amigos de longa data, como a ex-ministra da Assistência Social, Benedita da Silva, e José Graziano, responsável pelo extinto Ministério da Segurança Alimentar. Ao final da reforma, Lula havia reposto, com juros e correção monetária, todos os 8 quilos que perdera no semestre anterior com a adoção de uma dieta baseada em proteínas. Novamente defrontado com a necessidade de mexer na equipe, passou a exibir o mesmo estado de espírito que caracterizou seu comportamento na primeira reforma: tornou-se carrancudo e mal-humorado. Um mês atrás, abandonou o regime que vinha tentando seguir. Disse a deputados amigos: "Cansei desse negócio de dieta. Sou uma sanfona mesmo e não tem jeito de a barriga ceder". No penúltimo fim de semana que passou em São Paulo, no fim de fevereiro, tratou de pôr em ação um Fome Zero particular: encomendou feijoada a um restaurante em São Bernardo do Campo no sábado e filé à milanesa no domingo.

O peso de Lula é um segredo de Estado, mas as razões psicológicas que levam seu apetite a aumentar são sobejamente conhecidas. "A ansiedade estimula o indivíduo a fazer com mais freqüência aquilo que lhe dá uma sensação de prazer", afirma o especialista em distúrbios alimentares Geraldo Ballone. "Se a pessoa gosta de comer, poderá passar a comer mais em situações de stress." É o que faz o presidente. Quando está tenso, Lula tem dificuldade para pegar no sono e, nessas ocasiões, recorre a um expediente muito conhecido de quem já viveu a combinação "dieta-insônia-ansiedade": o assalto à geladeira. Freqüentemente lança mão do recurso para escapar da vigilância da primeira-dama, Marisa Letícia Lula da Silva, zelosa guardiã do cardápio do marido. Fã de castanha-do-pará, salaminho, carne de porco, tutu de feijão e outras bombas calóricas, Lula conta a amigos que, nas ocasiões em que está estressado, costuma pedir à cozinheira de plantão do palácio que frite para ele, no meio da noite, dois ovos – que come com pão francês, acompanhado de Coca-Cola.

Na terça-feira passada, o presidente anunciou finalmente o resultado da segunda reforma ministerial. Prorrogada por quatro meses, ela resultou na pífia substituição de um único ministro, o da Previdência, e no preenchimento de um cargo há 125 dias vago, o Planejamento. Ao comentar os motivos do fracasso do processo, Lula responsabilizou Severino Cavalcanti – pelo açodamento publicamente demonstrado – e o PT, por ter permitido que o presidente da Câmara chegasse aonde está (leia reportagem). Esqueceu-se de incluir na lista de culpados ele próprio. Tivesse o presidente usado de mais celeridade em suas decisões, o governo não teria ficado parcialmente paralisado durante tanto tempo, ministros como Aldo Rebelo (Coordenação Política) e Humberto Costa (Saúde) não teriam sido carbonizados em praça pública nem Severino teria tido chances de exibir sua incontinência verbal e fisiológica – que, no fim, serviu para pôr um ponto final no processo que tanta amargura vinha causando ao presidente. Agora, ao menos, a cozinha presidencial poderá descansar nas madrugadas.

Com reportagem de Monica Weinberg e Erin Mizuta

 

O tempo e os presidentes


Fotos Carlos Namba

1979
mba

1985
JOÃO BAPTISTA FIGUEIREDO
O último governante militar do Brasil deixou o cargo desgastado e doente. Saiu pela porta dos fundos, pedindo que o esquecessem


Orlando Brito

1985
Claudio Versiani

1990
JOSÉ SARNEY
Ao despedir-se do Palácio, estava abatido, politicamente isolado e impopular: seu índice de reprovação variava de 60% a 80%. O jeito foi recorrer ao acaju


Roberto Jayme

1995
Ana Araujo

2002
FERNANDO H. CARDOSO
O tucano chegou a dizer que "governar o Brasil é até fácil". Ao final do segundo mandato, já havia mudado de idéia – e de feições

 

 
 
 
 
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