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Governo O
peso do poder É assim em toda reforma ministerial:
com dificuldades para decidir, Lula se angustia e engorda 
Juliana Linhares
Monica Zaratinni/AE  | Ed
Ferreira/AE  |
EFEITOS DA TENSÃO
O presidente Lula na cerimônia de posse, em 2003 (à esq.),
e agora, às vésperas da conclusão da reforma ministerial:
"Sou uma sanfona mesmo" |
Fernando Henrique Cardoso, José
Sarney e João Figueiredo, os últimos ocupantes do Palácio
do Planalto a cumprir pelo menos quatro anos de mandato, deixaram o poder em condições
políticas diversas, mas com algo em comum: o peso do cargo estampado no
rosto. Em seu terceiro ano de governo, o presidente Lula já dá mostras
de que se dobrará à tradição. Seus cabelos estão
mais ralos e brancos, as feições demonstram cansaço e as
preocupações aprofundaram-lhe os vincos na testa. O poder, como
se vê, desgasta e, às vezes, arredonda silhuetas o que, no
caso de Lula, ocorre sempre que ele tem de tomar decisões que lhe provocam
ansiedade. Foi assim durante a primeira reforma ministerial, em janeiro do ano
passado. Na ocasião, o presidente confessou a diversos interlocutores sua
angústia pelo fato de ter de demitir, entre aliados e colaboradores de
primeira hora, amigos de longa data, como a ex-ministra da Assistência Social,
Benedita da Silva, e José Graziano, responsável pelo extinto Ministério
da Segurança Alimentar. Ao final da reforma, Lula havia reposto, com juros
e correção monetária, todos os 8 quilos que perdera no semestre
anterior com a adoção de uma dieta baseada em proteínas.
Novamente defrontado com a necessidade de mexer na equipe, passou a exibir o mesmo
estado de espírito que caracterizou seu comportamento na primeira reforma:
tornou-se carrancudo e mal-humorado. Um mês atrás, abandonou o regime
que vinha tentando seguir. Disse a deputados amigos: "Cansei desse negócio
de dieta. Sou uma sanfona mesmo e não tem jeito de a barriga ceder". No
penúltimo fim de semana que passou em São Paulo, no fim de fevereiro,
tratou de pôr em ação um Fome Zero particular: encomendou
feijoada a um restaurante em São Bernardo do Campo no sábado e filé
à milanesa no domingo. O peso de Lula
é um segredo de Estado, mas as razões psicológicas que levam
seu apetite a aumentar são sobejamente conhecidas. "A ansiedade estimula
o indivíduo a fazer com mais freqüência aquilo que lhe dá
uma sensação de prazer", afirma o especialista em distúrbios
alimentares Geraldo Ballone. "Se a pessoa gosta de comer, poderá passar
a comer mais em situações de stress." É o que faz o presidente.
Quando está tenso, Lula tem dificuldade para pegar no sono e, nessas ocasiões,
recorre a um expediente muito conhecido de quem já viveu a combinação
"dieta-insônia-ansiedade": o assalto à geladeira. Freqüentemente
lança mão do recurso para escapar da vigilância da primeira-dama,
Marisa Letícia Lula da Silva, zelosa guardiã do cardápio
do marido. Fã de castanha-do-pará, salaminho, carne de porco, tutu
de feijão e outras bombas calóricas, Lula conta a amigos que, nas
ocasiões em que está estressado, costuma pedir à cozinheira
de plantão do palácio que frite para ele, no meio da noite, dois
ovos que come com pão francês, acompanhado de Coca-Cola.
Na terça-feira passada, o presidente anunciou finalmente
o resultado da segunda reforma ministerial. Prorrogada por quatro meses, ela resultou
na pífia substituição de um único ministro, o da Previdência,
e no preenchimento de um cargo há 125 dias vago, o Planejamento. Ao comentar
os motivos do fracasso do processo, Lula responsabilizou Severino Cavalcanti
pelo açodamento publicamente demonstrado e o PT, por ter permitido
que o presidente da Câmara chegasse aonde está (leia
reportagem). Esqueceu-se de incluir na lista de culpados ele próprio.
Tivesse o presidente usado de mais celeridade em suas decisões, o governo
não teria ficado parcialmente paralisado durante tanto tempo, ministros
como Aldo Rebelo (Coordenação Política) e Humberto Costa
(Saúde) não teriam sido carbonizados em praça pública
nem Severino teria tido chances de exibir sua incontinência verbal e fisiológica
que, no fim, serviu para pôr um ponto final no processo que tanta
amargura vinha causando ao presidente. Agora, ao menos, a cozinha presidencial
poderá descansar nas madrugadas. Com
reportagem de Monica Weinberg e Erin
Mizuta |