Edição 1898 . 30 de março de 2005

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A César o que é
(era) de César...

No frio do aeroporto de Beverly, los Angeles (Santa Maria Porciúncula de los Angeles), madrugada, lá estavam me esperando o cineasta e grande crítico de cinema Alex Viany, então morando em Hollywood, um jovem poeta defensor do cinema mudo chamado Vinicius de Moraes, cônsul em Los Angeles, e César Mansueto Lattes, acabando de descobrir o méson PI. Que logo os amigos iconoclastas, capitaneados por Vinicius, passaram a chamar de Teson PI. Eu de PI só conhecia o nosso velho 3,1416 dos bancos de escola. Mas, apesar de poucos encontros, eu e Lattes ficamos amigos, por sólidos motivos – tínhamos a mesma idade e começamos nossas relações em duas disputas na piscina da Carmen Miranda.

Ah, antes que eu me esqueça: ele ganhou as duas.

Luciano Carneiro/O Cruzeiro
Ó TEMPORA!
O autor, em duas fases de sua vida


Mas, não sei se vocês sabem, o tempo passa. Nos anos 70 César se meteu numa nova pesquisa, projeto Bola de Fogo (?), acho eu, na Bolívia. Nunca soube o que fosse essa Bola. Mas tascaram César, é sempre assim, e ele reagiu.

E aproveitou pra dar também uma tascada em declarações políticas de Einstein. Além de estar de acordo com Lattes, sobre certas afirmativas sociopolíticas de Einstein, saí na época, nesta mesma revista, em "defesa" de Lattes. Como se ele precisasse. Mas eu estava firme com ele. Não me interessava se sua proposta fosse aparentemente inviável. Não sou físico e acho que nem muito viável.

E defendo a tese de que o cientista, em qualquer ramo, sobretudo no micromundo e no macromundo, não descobre a coisa assim, mamãe, lá vem o bonde. As coisas sempre nascem na cabeça dele, e se confirmam na pesquisa. Raramente o contrário. O universo é tão rico de possibilidades que toda teoria está contida nele.

Assim como qualquer estátua está contida no bloco de mármore. Basta cada um tirar o excesso e descobrir, dentro do bloco, a sua estátua.

Naturalmente, o idiota pode tentar fazer um cavalo de 3 metros num bloco de 2 metros. Vão ficar sempre faltando duas patas e um focinho.

Eu disse então de mim para comigo (não é uma expressão bonita? Acabei de inventar): "Não vou me meter na física. Só faço isso quando ela é gostosinha. Vou me meter em filosofias, ou melhor, em filosofadas".

Repito: nunca fui muito fã dos pronunciamentos sociopolíticos do bruxo de Menlo Park (não, não, esse foi o Edson, coloquem aí o epíteto do Einstein). Nunca entendi o boquiabrir-se diante de suas afirmações que a mim sempre me soaram como lugares-comuns pífios. Leia algumas dessas pérolas e me diga se você colocaria qualquer delas num azulejo no seu banheiro:

"O exemplo de caracteres grandes e puros é a única coisa capaz de produzir belas idéias e nobres feitos".

"Só uma vida vivida para os outros é digna de ser vivida".

"O homem só encontra sentido na vida, curta e perigosa como ela é, devotando-se à sociedade".

Sem falar, menos inocente, no famoso "conselho" a Roosevelt, feito assim, com mão de gato, e depois tantas vezes negado:

"Trabalhos recentes de E. Fermol e L. Szilard levam-me a pensar que o elemento urânio possa transformar-se numa nova fonte de energia em futuro imediato... Uma única bomba desse tipo, explodida num porto, será capaz de destruir o porto junto com todo o território em volta dele...".

Por isso resolvi também publicar uma das minhas irrespondíveis conclusões "científicas" (com "aspas", sublinha, negrito e grifo, pra deixar claro que é ironia). Segundo a Teoria da Relatividade – tão relativa que torna impossível os cientistas se entenderem –, o tempo assume a quarta dimensão, trabalhando de parceria com as tradicionais: altura, largura e comprimento. Todo mundo repete isso, de uma forma ou de outra. Sei não.

Os cientistas internacionais sabem que nunca tive o intuito de desmistificar Einstein, e reconheço que ele também nunca tentou isso comigo. Mas, como há um confronto com Lattes, venho a público revelar a minha teoria, que abala um pouco a de Einstein:

O tempo não existe. Só
existe o passar do tempo.

 
 
 
 
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