A César o que é
(era) de César...
No frio do aeroporto de Beverly, los Angeles
(Santa Maria Porciúncula de los Angeles), madrugada, lá
estavam me esperando o cineasta e grande crítico de cinema
Alex Viany, então morando em Hollywood, um jovem poeta defensor
do cinema mudo chamado Vinicius de Moraes, cônsul em Los Angeles,
e César Mansueto Lattes, acabando de descobrir o méson
PI. Que logo os amigos iconoclastas, capitaneados por Vinicius,
passaram a chamar de Teson PI. Eu de PI só conhecia
o nosso velho 3,1416 dos bancos de escola. Mas, apesar de poucos
encontros, eu e Lattes ficamos amigos, por sólidos motivos
tínhamos a mesma idade e começamos nossas relações
em duas disputas na piscina da Carmen Miranda.
Ah, antes que eu me esqueça: ele ganhou
as duas.
Luciano Carneiro/O Cruzeiro
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Ó TEMPORA!
O autor, em duas fases de sua vida |
Mas, não sei se vocês sabem, o tempo passa. Nos anos
70 César se meteu numa nova pesquisa, projeto Bola de Fogo
(?), acho eu, na Bolívia. Nunca soube o que fosse essa Bola.
Mas tascaram César, é sempre assim, e ele reagiu.
E aproveitou pra dar também uma tascada
em declarações políticas de Einstein. Além
de estar de acordo com Lattes, sobre certas afirmativas sociopolíticas
de Einstein, saí na época, nesta mesma revista, em
"defesa" de Lattes. Como se ele precisasse. Mas eu estava firme
com ele. Não me interessava se sua proposta fosse aparentemente
inviável. Não sou físico e acho que nem muito
viável.
E defendo a tese de que o cientista, em qualquer
ramo, sobretudo no micromundo e no macromundo, não descobre
a coisa assim, mamãe, lá vem o bonde. As coisas
sempre nascem na cabeça dele, e se confirmam na pesquisa.
Raramente o contrário. O universo é tão rico
de possibilidades que toda teoria está contida nele.
Assim como qualquer estátua está
contida no bloco de mármore. Basta cada um tirar o excesso
e descobrir, dentro do bloco, a sua estátua.
Naturalmente, o idiota pode tentar fazer um
cavalo de 3 metros num bloco de 2 metros. Vão ficar sempre
faltando duas patas e um focinho.
Eu disse então de mim para comigo (não
é uma expressão bonita? Acabei de inventar): "Não
vou me meter na física. Só faço isso quando
ela é gostosinha. Vou me meter em filosofias, ou melhor,
em filosofadas".
Repito: nunca fui muito fã dos pronunciamentos
sociopolíticos do bruxo de Menlo Park (não, não,
esse foi o Edson, coloquem aí o epíteto do Einstein).
Nunca entendi o boquiabrir-se diante de suas afirmações
que a mim sempre me soaram como lugares-comuns pífios. Leia
algumas dessas pérolas e me diga se você colocaria
qualquer delas num azulejo no seu banheiro:
"O exemplo de caracteres grandes e puros é
a única coisa capaz de produzir belas idéias e nobres
feitos".
"Só uma vida vivida para os outros
é digna de ser vivida".
"O homem só encontra sentido na vida,
curta e perigosa como ela é, devotando-se à sociedade".
Sem falar, menos inocente, no famoso "conselho"
a Roosevelt, feito assim, com mão de gato, e depois tantas
vezes negado:
"Trabalhos recentes de E. Fermol e L. Szilard
levam-me a pensar que o elemento urânio possa transformar-se
numa nova fonte de energia em futuro imediato... Uma única
bomba desse tipo, explodida num porto, será capaz de destruir
o porto junto com todo o território em volta dele...".
Por isso resolvi também publicar uma
das minhas irrespondíveis conclusões "científicas"
(com "aspas", sublinha, negrito e grifo, pra
deixar claro que é ironia). Segundo a Teoria da Relatividade
tão relativa que torna impossível os cientistas
se entenderem , o tempo assume a quarta dimensão, trabalhando
de parceria com as tradicionais: altura, largura e comprimento.
Todo mundo repete isso, de uma forma ou de outra. Sei não.
Os cientistas internacionais sabem que nunca
tive o intuito de desmistificar Einstein, e reconheço que
ele também nunca tentou isso comigo. Mas, como há
um confronto com Lattes, venho a público revelar a minha
teoria, que abala um pouco a de Einstein:
O tempo não existe. Só
existe o passar do tempo.
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