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Diogo
Mainardi Não tente inventar
"A
gente pode ser primitivo, mas musical não é.
A música popular brasileira se resume
a meia dúzia de sexagenários que continua a se arrastar pelos
palcos, repetindo uma batida de quarenta anos
atrás" O DVD de Xuxa Só
para Baixinhos, volume 4, é de 2003. Tem 21 números musicais.
Até hoje não consegui ir além do oitavo, Ele É
o Txutxucão. Quando o Txutxucão aparece na tela, meu filho aperta
imediatamente o botão do controle remoto do aparelho de DVD e volta para
a faixa inicial, Dirigindo o Meu Carro. Meu filho não gosta do Txutxucão.
Em compensação, gosta muito do Teddy, protagonista da canção
Nadando com o Teddy. Txutxucão é um homem fantasiado de cachorro.
Teddy é um homem fantasiado de polvo. Ambos foram criados pelo grupo musical
infantil australiano The Wiggles. Txutxucão é a tradução
de Wags. Teddy é a versão perfeitamente abrasileirada de Henry.
Xuxa tem razão. Por mais que se afirme o
contrário, o brasileiro não leva jeito para a música. Melhor
fazer o que ela faz, adaptando para o mercado nacional melodias americanas ou
australianas, do conhecido Woody Guthrie ao desconhecido Ralph Covert. A propalada
musicalidade do brasileiro é um engodo. É fruto daquela visão
colonialista de que todos os povos primitivos são musicais. Não
é verdade. A gente pode ser primitivo, mas musical não é.
A música popular brasileira se resume a meia dúzia de sexagenários
que continua a se arrastar pelos palcos, repetindo uma batida de quarenta anos
atrás. Xuxa é superior a eles em tudo. Tem um raciocínio
claro e direto: "Eu vou à praia dirigindo o meu carro / Sinal vermelho:
parou". A MPB enfrenta a mesma questão de maneira demagógica e pleonástica:
"Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Motos e fuscas avançam
os sinais vermelhos / E perdem os verdes, somos uns boçais". Xuxa é
prática e determinada. Acredita que aulas de psicomotricidade são
a verdadeira solução para o país: "Mão na cabeça
/ Mão na cintura / Um pé na frente / Outro atrás". A MPB
não oferece solução alguma. Perde-se no dramalhão
e no fatalismo da descoordenação motora: "E tropeçou no céu
como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro
/ E se acabou no chão feito um pacote flácido".
A autora das versões brasileiras das canções de Só
para Baixinhos, volume 4, é Vanessa Alves. Embora seja uma das maiores
vendedoras de discos do país, é praticamente ignorada pelo público.
Tentei colher informações a seu respeito. É gaúcha.
Tem 32 anos. Seu apelido é Vavá. Aparece no principal site cinematográfico
americano com o crédito do personagem Rato Rosa, do segundo volume de Só
para Baixinhos. Aparece também como protagonista dos filmes As Vigaristas
do Sexo, Vadias pelo Prazer e Curral de Mulheres, mas se trata de um
evidente caso de homonímia. Como todos os grandes nomes da música
popular brasileira, Vanessa Alves não tem formação musical.
Fez turismo e comunicação social na Universidade Estácio
de Sá. Completou o curso de língua inglesa do Brasas. É o
que lhe permite traduzir sem dificuldade as canções estrangeiras
selecionadas por Xuxa. Tem medo de avião, mas ama a Califórnia.
Descobriu que tinha aptidão musical ao parodiar canções de
Claudinho e Buchecha. A despretensão artística de Vanessa Alves
é um exemplo para a cultura brasileira. Aliás, não só
para a cultura: para o país inteiro. Não tente inventar. O melhor
que podemos fazer é macaquear. |