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Entrevista: Stephen
Covey "Não peça aumento"
Há táticas mais eficientes do que essa
para quem quer ganhar mais, diz o guru que assessora os executivos mais
poderosos do mundo  Monica
Weinberg
O administrador de empresas americano Stephen
Covey, 72 anos, é um fenômeno no ramo da auto-ajuda empresarial.
Um de seus primeiros livros, Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes,
bateu a marca de 15 milhões de cópias vendidas, ocupou as listas
de best-sellers durante oito anos consecutivos e lhe deu status de referência
no mundo dos negócios. Conselheiro do ex-presidente americano Bill Clinton
e, no Brasil, do ministro da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken,
ele acaba de lançar o livro O Oitavo Hábito (Editora Campos).
A obra, sobre como se tornar um líder, chegará nos próximos
dias às livrarias brasileiras. Em entrevista a VEJA, Covey conta suas experiências
com governantes a quem assessorou, fala da importância da generosidade para
quem exerce cargos de chefia e dá dicas de como aumentar as chances de
obter sucesso profissional do momento de pedir emprego à hora de
formar uma equipe. Veja
Como foi a consultoria que o senhor prestou ao governo brasileiro? Covey
Cheguei ao Brasil para dar palestras e fiz o de sempre quando estou
em um país estrangeiro: pedi para que minha secretária entrasse
em contato com o governo federal para oferecer meus serviços. Fui logo
encaminhado ao ministro Luiz Gushiken, muito afável, com quem passei três
animadas horas em Brasília. Ele estava ansioso. Repetia que queria criar
uma sinergia com os partidos de oposição. Dizia o ministro: "Preciso
de apoio para realizar um projeto de longo prazo, senão corremos o risco
de um fiasco, Covey". Veja
E o que o senhor respondeu ao ministro? Covey Disse a
ele que, se quisesse o apoio dos partidos de oposição, precisava
começar a escutá-los com respeito. É uma cartilha elementar,
mas rara de ser cumprida na prática. Para um chefe de Estado, é
difícil entender que as discordâncias na política podem criar
ótimos caminhos alternativos, uma terceira via sobre a qual nenhuma das
partes pensou antes. Por essas e outras, minha experiência me autoriza a
dizer que os governantes são infinitamente menos eficientes do que os CEOs
das grandes companhias privadas. Veja
Por quê? Covey O político não precisa
enfrentar a competição de um alto executivo para manter o cargo
em uma empresa. Se não fizer nenhuma grande besteira, seu poder está
garantido. É por isso que os governantes se dão ao luxo de errar
mais como líderes e recorrer a práticas atrasadas de gestão.
A pior delas é a tentação autoritária de resolver
tudo na marra um vício dos partidos de direita e de esquerda no
mundo todo. Avisei isso ao ministro Gushiken e tenho dito o mesmo em minhas viagens
pela China. Veja Por
que o governo chinês o contratou? Covey Eles querem
que eu transforme velhos burocratas em empreendedores competitivos, capazes de
alavancar zonas comerciais e criar uma classe média sólida no país.
O que eu digo a eles, basicamente, é que precisam trabalhar num ambiente
de confiança mútua, sem esconder informação uns dos
outros. Devem ter em mente, também, o objetivo final bem claro. Bato nessa
tecla porque ainda escuto dos chineses um discurso ambíguo. Por um lado,
eles têm horror à idéia de virar uma nova ex-União
Soviética e querem ingressar na modernidade, ser competitivos para valer.
De outro, morrem de medo de mudar. Os líderes de lá estão
ainda numa tremenda crise de insegurança. Veja
O senhor já testemunhou muitas "crises de insegurança"
de chefes políticos? Covey Muitas. Certa vez, passei
uma temporada em Camp David, durante o primeiro reinado, por assim dizer, dos
Clinton. O presidente estava sofrendo porque se sentia enfraquecido depois de
ter perdido cadeiras importantes nas eleições para o Congresso.
Hillary, por sua vez, estava particularmente deprimida porque havia trabalhado
duro para emplacar uma proposta de nacionalização dos planos de
saúde, barrada pelos parlamentares. Nesse estado de espírito, o
casal Clinton me convocou para discutir princípios da boa liderança.
É uma experiência interessante conhecer um poderoso em sua casa de
campo. Ele fica autêntico a ponto de confessar a um estranho como eu: "Me
ajude, não sei o que fazer". Veja
E o que disse ao presidente americano? Covey
Ele estava preocupado em imprimir eficiência ao governo e achava que precisava
unir sua equipe para ter sucesso. Dei a dica de que colocasse em prática
um dos princípios que considero básicos para o bom gestor: aquele
segundo o qual um líder se torna eficiente quando aprende a dividir seus
louros e troféus com os subordinados. O presidente escutou com atenção.
Digo sempre que só é bom chefe quem sabe comemorar a vitória
de um chefiado como se fosse sua. E, na verdade, é dele mesmo. Na iniciativa
privada, trata-se de um jeito de liderar já bastante disseminado entre
as maiores empresas do mundo. Há vários exemplos por aí.
Veja Dê um. Covey
Outro dia, estava fazendo uma palestra para uma platéia internacional
de executivos da Motorola e perguntei a eles quantos haviam ascendido na carreira
porque tiveram como chefe um sujeito do tipo generoso. Quase todos levantaram
o braço. Veja Sua experiência
nas grandes empresas mostra que elas são bem geridas? Covey
Tenho uma estatística para isso, baseada em meu trabalho em 400 das 500
maiores empresas do mundo: um de cada quatro CEOs está no lugar errado
porque não reúne as qualidades básicas de um bom chefe. Quer
dizer que são incompetentes ou prescindem de caráter. Os incompetentes
não têm a capacidade de fazer julgamentos e tomar decisões
acertadas. Já os que não têm caráter estão tão
voltados para o próprio ego e seu projeto pessoal de carreira que deixam
de lado um princípio básico da liderança: o de que é
necessário inspirar os liderados valendo-se de uma conduta moral exemplar.
A força de um chefe vem da admiração que ele desperta
e não do medo que inspira. Uma gestão baseada no medo leva a conseqüências
fatais para a produtividade. Veja
Quais? Covey Em uma pesquisa feita com 23 000 executivos
nas maiores empresas dos Estados Unidos, apenas 15% disseram ter instituído
um ambiente de confiança entre seus subordinados. Na maioria dos casos,
há desconfiança e medo. O resultado disso é desastroso porque
os funcionários, inseguros, passam a relatar ao chefe apenas o que acham
que ele quer ouvir. Não é por acaso que 37% dos CEOs admitem saber
pouco a respeito do que se passa em sua própria organização.
A história mostra que manter o poder pelo medo não funciona no longo
prazo. A via da confiança e do respeito é a mais eficiente.
Veja O senhor pode dar um exemplo? Covey
Há o exemplo de George Washington, o primeiro presidente americano.
Ele teve o mérito de lidar com a oposição vinda de todos
os lados e conseguir chegar a uma Constituição que era o produto
de vários pontos de vista. Gosto de citar esse caso em minhas palestras
para defender a tese de que o importante para um chefe não é esbanjar
carisma nem exibir força. George Washington era de personalidade tímida
e estava cercado de pessoas muito mais carismáticas do que ele, mas inspirava
mais confiança e respeito. Veja
Em seu livro, o senhor diz que qualquer pessoa pode tornar-se um líder.
Como? Covey Sei que essa idéia cheira a um velho
clichê da sociedade industrial, mas não é. O que defendo é
que todo mundo tem uma área da vida na qual é especial, seja no
campo das competências intelectuais, seja no setor das emoções
e por isso pode inspirar outras pessoas. O problema é que, muitas
vezes, os indivíduos não sabem sequer rastrear as próprias
habilidades. O primeiro passo para desenvolver liderança, portanto, é
descobrir quais são essas aptidões. No ambiente de trabalho, um
bom chefe pode ser o desbravador das tais habilidades especiais. Em casa, a família
tem um papel importante. Veja Isso
é suficiente? Covey Não. Para influenciar outras
pessoas, é preciso aprimorar as habilidades pessoais com disciplina e,
sobretudo, ter um entusiasmo verdadeiro pela coisa. Canso de repetir nas empresas
para as quais presto consultoria que a melhor forma de saber se vale a pena contratar
uma pessoa, seja para o alto escalão, seja para o chão da fábrica,
é fazendo a ela duas perguntas simples: o que adora fazer na vida e o que
faz melhor. Quem não tem paixão por nada que diga respeito aos objetivos
da empresa deve ser descartado de cara. Por isso recomendo às pessoas que
estão desesperadas atrás de um emprego que, antes de se submeter
à maratona de entrevistas, tenham bem claro em mente o que podem oferecer
de melhor para o empregador. Veja
E dá certo? Covey Segundo pesquisas que fiz nos
departamentos de recursos humanos das grandes empresas, essa estratégia
resulta em 75% de sucesso para quem pede emprego. Sem o fator entusiasmo, as chances
caem a 5%. Achar emprego é uma das maiores angústias modernas. A
outra é ganhar mais dinheiro. Veja
O que o senhor recomenda a quem quer pedir aumento de salário? Covey
Minha resposta, à primeira vista, não é muito
popular. Digo: "Não peça". Isso porque as chances de sucesso para
quem entra na sala do chefe implorando aumento são remotas demais para
valer o risco. Sugiro uma tática que se demonstra muito mais eficiente.
Primeiro, aconselho que, ao contrário de esperar por tarefas, o funcionário
vá atrás delas, chamando para si cada vez mais responsabilidade.
A proatividade é um dos meus mais estimados princípios. Em segundo
lugar, recomendo que o chefiado tente saber tudo sobre o ambiente em que está
inserido, a situação da empresa, as questões que mais angustiam
o chefe. Resumo da ópera: não se apresente como um motivo de dor
de cabeça, mas como uma pessoa que está lá para trazer soluções.
Aí, sim, conseguirá o aumento. Ele vem como uma conseqüência
natural. Veja Quem são
os profissionais que atualmente conseguem as melhores vagas no mercado de trabalho?
Covey Eles reúnem quatro características básicas:
além da paixão e da disciplina, sobre as quais já falamos,
eles têm uma visão ampla dos assuntos e são pessoas extremamente
racionais na hora de tomar decisões. Repare que não são os
mais competitivos, aqueles que têm na ascensão profissional seu maior
objetivo e não param de olhar para o que o colega do lado produz. Esse
tipo está perdendo espaço conforme o mercado de trabalho se moderniza.
Veja Por quê? Covey
As empresas perceberam que a competição interna emperra
o fluxo de informações entre as pessoas, o que acaba comprometendo
a produtividade. Isso explica por que as empresas estão, pouco a pouco,
trocando o chip e adotando uma nova cultura em relação ao assunto.
Veja o que aconteceu na General Electric. Eles fizeram uma limpa na matriz porque
consideravam que suas principais cabeças ainda cultivavam a idéia
de que a competição é a força motriz de uma empresa
lucrativa. O resultado pode ser medido na comparação com os concorrentes.
Várias divisões da GE conquistaram a liderança no mercado
depois disso. Veja Seus
princípios valem para a vida pessoal? Covey Certamente.
Não tento ensinar nenhuma fórmula da felicidade, mas proponho uma
mudança de hábitos que tem se revelado eficiente nos vários
campos da vida. O que digo, em suma, é que, no lugar de sentir-se um produto
imutável da genética ou um azarado pelo meio em que vive, o indivíduo
deve procurar tomar as rédeas da situação, tendo objetivos
em mente e uma postura ativa. O mais difícil para as pessoas, hoje, é
saber priorizar o que consideram mais importante. Veja
E o que o senhor fala a elas? Covey Minha dica
é simples: aprendam a discernir, no trabalho, o que parece urgente do que
é de fato importante. Na prática, as pessoas podem até reduzir
sua carga horária, mas vão produzir mais e ter um tempo maior com
a família. Quando falava isso no passado recente, era impopular no ambiente
das empresas. Hoje sou ovacionado. Veja
O senhor segue todos os seus passos? Covey
Em geral, sim, mas às vezes até eu acho essa auto-ajuda toda difícil
de acompanhar. Meus filhos são a patrulha: "Pai, se você ensinou
isso ao presidente dos Estados Unidos e até ao ministro do Brasil, não
pega bem não fazer o que diz". Eles estão certos. |