Edição 1898 . 30 de março de 2005

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Carta ao leitor
A epidemia democrática


Vilma no Líbano em 1989, com o fotógrafo Claudio Versiani, e na semana passada, com Paulo Vitale, editor de fotografia de VEJA

As idéias se propagam como os vírus. Por esse conceito, enunciado pelo cientista britânico Richard Dawkins, pode-se dizer que o mundo árabe está vivendo uma epidemia de idéias democráticas. Em capitais e grandes cidades islâmicas, as pessoas, em especial os jovens, ganharam coragem de ir às ruas em protesto contra os governos tirânicos que há décadas as oprimem. Em alguns casos, os donos do poder estão se apressando em propor reformas políticas liberalizantes, como o voto direto para a escolha de dirigentes de escalões intermediários (na Arábia Saudita) ou a aceitação de candidatos oposicionistas nas eleições presidenciais (no Egito). As disparidades são imensas em uma zona geopolítica que abriga 304 milhões de pessoas – 374 milhões, quando se inclui no cenário o Irã, cujos habitantes seguem a religião islâmica mas não são árabes. O vento de mudança sopra com intensidade diferente mas aponta para a mesma direção: a democracia.

Essa é uma das melhores notícias dos últimos tempos. Desde o ataque terrorista contra os Estados Unidos ocorrido em 11 de setembro de 2001, a política mundial gira em torno de uma solução para a questão islâmica. A onipresença e a imprevisibilidade do terror islâmico vêm mantendo o mundo ocidental em constante suspense. Mesmo distantes do epicentro da crise, os brasileiros sentem seu impacto quando são bombardeados por imagens de corpos dilacerados em Israel e no Iraque, em viagens ao exterior ou quando sofrem com a disparada do preço do petróleo. A idéia de que uma solução pode estar nascendo nas ruas árabes pelas mãos de seus próprios jovens é auspiciosa.

Para ver de perto esse fenômeno, VEJA enviou a Beirute, a capital do Líbano, a editora executiva Vilma Gryzinski e o editor de fotografia, Paulo Vitale, ambos veteranos de coberturas jornalísticas no Oriente Médio. Vilma cobriu a primeira Guerra do Golfo, em 1991, e esteve no Líbano em 1989, quando o país se dilacerava em uma guerra civil entre milícias armadas cristãs e muçulmanas. "Beirute mudou. É hoje uma cidade cheia de vida, onde se respira esperança", afirma Vilma. A dupla de VEJA acompanhou as grandes manifestações públicas que forçaram a retirada das tropas sírias invasoras do Líbano. A reportagem escrita por Vilma começa na pág. 102. Ela informa que os próximos meses dirão se se está diante apenas de uma revolta que ainda pode ser sufocada ou de algo tão definitivo e duradouro quanto a queda do Muro de Berlim, em 1989. Que vingue a última hipótese.

 
 
 
 
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