Edição 1898 . 30 de março de 2005

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Auto-retrato
Sue Johanson

A canadense Sue Johanson é a dama do sexo na TV. Com seu jeitão de avó (ela só confirma que tem mais de 70 anos) e sólidas credenciais acadêmicas, há mais de duas décadas ela faz sucesso nos Estados Unidos e no Canadá transmitindo informações sobre o tema. No Brasil, onde seu programa é exibido pelo canal a cabo GNT, ela também conquista cada vez mais espectadores. Sue vem ao país nesta semana e conversou por telefone com o repórter Marcelo Marthe.

QUAL O CAMINHO PARA UMA VIDA SEXUAL FELIZ?
A felicidade de um casal no sexo depende, em primeiro lugar, de quão saudável e vibrante é sua intimidade afetiva. É preciso conversar francamente sobre sexo, compartilhar fantasias e esforçar-se para entender as demandas e limitações do parceiro. Também é essencial divertir-se. Não se deve fazer do sexo uma obrigação, uma espécie de serviço sujo que é preciso cumprir.  

NOS ESTADOS UNIDOS, O GOVERNO BUSH INCENTIVA AS ESCOLAS A ABOLIR A EDUCAÇÃO SEXUAL E A RECOMENDAR A ABSTINÊNCIA A SEUS ALUNOS. O QUE A SENHORA ACHA DISSO?
É uma medida irresponsável, que está saindo pela culatra. Estatísticas recentes mostram que 87% dos jovens que receberam apenas sermões sobre abstinência quebraram o jejum sexual em menos de um ano e muitos, sem dispor de informação, entraram para as estatísticas sobre gravidez precoce e doenças como a aids. Educar as crianças sobre sexo é uma obrigação moral, e a velha idéia de que se deve deixar que a vida lhes ensine essas coisas, um disparate. Cedo ou tarde elas terão relações, e estarão mais protegidas se os pais e a escola as prepararem para isso.  

AS PESSOAS MAIS VELHAS PODEM SER TÃO FELIZES QUANTO OS JOVENS EM MATÉRIA DE SEXO?
Eu diria que podem ser até mais felizes, na medida em que a idade lhes traga sabedoria para entender e aceitar seu corpo. Pessoas mais velhas de bem consigo mesmas não sentem a obrigação de chegar ao clímax todas as vezes que tocam seus parceiros – e elas ainda podem obter grande prazer de práticas como o beijo e as carícias. Existe ainda uma grande vantagem em relação à molecada: os velhos não precisam se preocupar com uma gravidez indesejada.

ALGUMA VEZ, AO RESPONDER A PERGUNTAS SOBRE SEXO, A SENHORA FICOU CHOCADA?
Não tenha dúvida disso. Afinal, sou uma mulher de família. A história mais bizarra, creio eu, foi a de um casal que tinha o hábito de fazer sexo dentro do carro, sobre uma linha ferroviária. A garota só atingia o orgasmo quando sentia o trem se aproximando. Fantasias sexuais são maravilhosas, mas entram no campo do ilícito quando envolvem coerção, riscos físicos e a exploração de menores.  

COMO A SENHORA SE TORNOU UMA EXPERT EM SEXO?
Sou enfermeira por formação e, em 1970, fui chamada para dar aulas sobre controle de natalidade numa escola do ensino médio. Tratava-se da primeira iniciativa do gênero num colégio dos Estados Unidos – e o resultado foi surpreendente. Descobrimos que os jovens estavam fazendo muito mais sexo do que os adultos supunham, sem dispor de informação adequada em casa ou na escola. Então voltei à universidade e me especializei no assunto. Exerci por treze anos o ofício de professora de educação sexual antes de entrar para a TV.  

QUANDO A SENHORA COMEÇOU A FALAR DE SEXO NA TELEVISÃO ENFRENTOU DIFICULDADES?
Quando estreei, já era uma mulher madura e ostentava credenciais acadêmicas. Isso minorou o preconceito. Além disso, eu soube me impor. Consigo falar com gente de todas as idades, pois trato o tema com objetividade, sem dar lição de moral ou fazer gracejos desnecessários.  

E SUA FAMÍLIA, PASSOU POR ALGUM CONSTRANGIMENTO?
Meus filhos não falavam sobre o emprego da mãe, a menos que fosse indispensável. Já meus netos me vêem na TV desde que nasceram e se divertem com a vovó especialista em sexo.

 
 
 
 
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