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André
Petry De Dourados a Paris
"Haveria
um escândalo se as ararinhas-azuis estivessem morrendo uma após a outra nos
manduvis do Pantanal. Mas são só índios que estão morrendo"
Haveria um escândalo se as ararinhas-azuis estivessem morrendo uma após
a outra nos manduvis do Pantanal. Haveria um escândalo talvez ainda maior
se uma epidemia estivesse matando um mico-leão-dourado por dia. Mas não
há escândalo nenhum com a morte em ritmo quase diário
dos indiozinhos que vivem nas aldeias de Mato Grosso do Sul. Os indiozinhos,
todos sabem, estão morrendo de fome ou de doenças provocadas pela
desnutrição, mas isso não parece despertar interesse, muito
menos indignação. É até natural. O governo, por exemplo,
já mandou dizer que a morte dos indiozinhos está no mesmo padrão
do ano anterior, sugerindo que não existe razão para espanto ou
preocupação. É mentira. No ano anterior morreram quinze.
Agora, nem se passaram três meses do ano e já morreram catorze. Mas
até a mentira é natural. Ninguém dá muita bola. Afinal,
são só índios que estão morrendo e índios,
ao que parece, são seres inferiores, desprezíveis, atrasados. Só
são bacanas quando estão mumificados e servem para impressionar
francês. Sim, nos suntuosos salões
do Grand Palais, em Paris, acaba de ser inaugurada a exposição Brasil
Índio: as Artes dos Ameríndios. É uma espetacular coleção
de 350 peças indígenas. São cocares imensos e coloridos,
com aquela vivacidade ímpar que a arte indígena consegue transmitir.
São as inventivas urnas funerárias, que nos deixaram um testemunho
tão eloqüente sobre a visão indígena da morte. São
as belíssimas cerâmicas marajoaras, que emprestam graciosidade até
à dureza da geometria. A exposição inclui ainda uma esplendorosa
cabeça mumificada pelos índios mundurucus. Tudo isso está
exposto num ambiente decorado com sobriedade e elegância, num projeto concebido
por dois designers brasileiros. A julgar pela reação inicial da
imprensa francesa que tem sido generosa em elogios à exposição
, o evento será um sucesso. E, nas galerias do Grand Palais, sucesso
significa algo como uns 6.000 visitantes por dia.
Por aqui, a galeria a visitar fica no pólo indígena de Dourados,
em Mato Grosso do Sul. De acordo com a lista oficial do governo, só naquele
local morreram doze indiozinhos neste ano. Todos morreram de fome. Eis a lista:
2 de janeiro: J.S.C. Ia completar
9 meses de idade. 5 de janeiro: L.V.D. Teve
parada cardíaca, era desnutrido. Não completou 3 meses de vida.
6 de janeiro: J.P.M., 1 ano e 8 meses.
11 de janeiro: A.M.F., também não fez
9 meses de vida. 4 de fevereiro: E.D.S.,
3 meses. 8 de fevereiro: I.I.A. Ia fazer
5 anos. 19 de fevereiro: K.F., pouco mais
de 6 meses. 24 de fevereiro: R.G.B., 11
meses. No mesmo dia, também morre J.D.G., 3 meses.
2 de março: J.V.D, quase 4 meses.
18 de março: R.C., menos de 3 meses.
22 de março: Q.E.A. Não fez 2 meses de vida. Bem,
a exposição em Paris deve ser um sucesso. |