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Edição 2045

30 de janeiro de 2008
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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Trajetória de um
sessenta-e-oitão (2)

Outras do consultor Dirceu,
incluindo a importância estratégica
de um certo pentinho verde

No capítulo anterior, deixamos nosso personagem no Recife, para onde o conduzira uma operação de transplante de cabelos. O típico sessenta-e-oitão, combativo combatente de tantas causas, iniciava este 2008 em que se comemoram os quarenta anos do ano de 1968 combatendo a calvície. O personagem em questão é o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, hoje "consultor", entenda-se por isso o que bem se entender, ou não se entenda. Sessenta-e-oitão é a palavra que, à falta de uma mais elegante, como a francesa soixante-huitard, quer designar as pessoas que viveram com intensidade o ano de 1968, e ficaram marcadas pelas idéias e experiências do período. Há mais a declarar, tanto do personagem quanto do ano e dos sessenta-e-oitões.

1968 não foi apenas o ano dos grandes rebuliços políticos, para o bem ou para o mal, do Maio francês à invasão da Checoslováquia, dos movimentos contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis, nos EUA, ao assassinato de Martin Luther King e de Bob Kennedy, das passeatas contra a ditadura, no Brasil, à decretação do AI-5. Foi também o ponto culminante de uma década em que se inventou o jovem. Se o leitor pensa que o jovem sempre existiu, engana-se. Na década de 50 só havia o velho. O ideal era ser velho. As moças, tão logo saíam da puberdade, vestiam-se e penteavam-se como suas mães ou avós. É só conferir nos retratos de nossas mães ou avós. Os meninos, tão logo deixavam as calças curtas, vestiam um terno, de preferência cinzento, e metiam um chapéu na cabeça. Bacana era ser, ou pelo menos parecer, circunspecto como um velho.

Na década da grande virada que foi a de 60, o jovem tomou espetacularmente o lugar do velho. Três grandes fatos mundiais estão na origem do fenômeno. O primeiro foi a troca, na Presidência dos EUA, de Eisenhower por John Kennedy. Ninguém mais velho, mais careta e mais careca do que Eisenhower. Ninguém mais jovem (43 anos), mais moderno e mais boa-pinta, entre todos os ocupantes da Casa Branca, até então, do que Kennedy. O segundo fato, auto-explicativo, foi o surgimento dos Beatles. O terceiro foi o Maio de 1968 na França, radiosa etapa da imaginação no poder e do "não-confie-em-ninguém-com-mais-de-trinta-anos". O Brasil foi a reboque, tanto nas passeatas – aqui com mais razão de ser, pois protestavam contra a ditadura – quanto nas manifestações culturais, como a música, e nos costumes, estes tendo a liberação sexual como seu item mais glorioso. José Dirceu, como típico sessenta-e-oitão, não apenas se destacava na militância política como estava na linha de frente da revolução dos costumes. Passava como um trator sobre o coração das meninas. Chamavam-no "o Alain Delon dos pobres".

Um sessenta-e-oitão é bicho duro na queda. Quarenta anos depois, e já sexagenário, além de sessenta-e-oitão, Dirceu continua fiel à mesma e inconfundível pauta da revolução nos costumes deflagrada quando ele tinha 20 anos. No perfil que lhe dedicou a revista Piauí, de autoria da repórter Daniela Pinheiro, lá está ele explicando por que, apesar de ainda gostar de sua terceira mulher, Maria Rita, se separou dela e está de namorada nova: "Eu ficaria casado com ela (Maria Rita) a vida toda, mas uma hora o casamento acaba, e o casamento tem de estar vivo, sabe como é?" Nada mais sessenta-e-oitão, setor costumes. Aos quase 62 anos, idade de Dirceu, um homem da década de 50 era um Matusalém sem outra ambição romântico-sexual na vida senão vestir um robe de chambre de seda. Já Dirceu está longe de aposentar o Alain Delon dos pobres que abriga dentro de si. A reportagem da Piauí o flagra em dois momentos reveladores. Num deles, no restaurante, comenta com um amigo que uma mulher o estava "secando com os olhos". Em outro, conta que uma vez, no Peru, uma mulher mandou o garçom perguntar quem era "el hermoso" da mesa ao lado.

José Dirceu confere a aparência a cada espelho que lhe aparece pela frente. Tem um pentinho verde no bolso da calça para acertar os cabelos sempre que julga necessário. E é doido por cremes hidratantes, especialmente um cubano, de fórmula feita para Alicia Alonso. O.k., isso já está parecendo caricato. Nem todo sessenta-e-oitão é assim. Tal qual pintado nestes últimos parágrafos, o consultor José Dirceu tende perigosamente para o Gatão de Meia-Idade, personagem dos quadrinhos de Miguel Paiva. Mas a caricatura é feita exatamente para, ao acentuar os traços, melhor caracterizar o tipo, e neste caso "el hermoso", como foi chamado pela mulher do restaurante – e não se constrangeu em repetir para os amigos –, nos serve. O culto ao jovem inaugurado nos anos 60 espalhou-se dos costumes e das músicas para todos os setores e ganhou vida fértil na moda e na publicidade. Alguém formado nesse caldo de cultura não vai admitir um casamento que não está mais vivo nem se render à calvície sem mais nem menos. Eis um sessenta-e-oitão que, assim como faz com o Alain Delon que o habita, lutará até a última gota de sangue contra a aposentadoria do pentinho verde.


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