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Música Acredite: é isso que dizem
os tocadores de pratos
Se você freqüenta concertos de música erudita, talvez já tenha cismado com a figura do pratista. Enquanto a orquestra se esfalfa, ele está lá no fundo, impassível. A música segue. Os violinistas suam. Os clarinetistas ficam de rosto afogueado. Mas o pratista continua em seu repouso. De repente ele se levanta, ajeita o fraque, endireita as costas e toca os pratos uma vez. Isso é tudo. Em inúmeros concertos, o pratista não dá mais que uma pratada. Uma das anedotas mais repetidas no mundo erudito gira em torno dessa situação. Numa excursão no Japão, o regente da Filarmônica de Berlim (ou da Sinfônica de Nova York a orquestra varia de acordo com quem conta a história) atrasou as apresentações para que o pratista, que não havia viajado com o resto do grupo, conseguisse chegar. O repertório incluía a Sinfonia do Novo Mundo, de Antonín Dvorák, e os pratos intervêm no final do quarto movimento, num momento dramático da peça. Finalmente o músico chega, o primeiro concerto começa e, na hora-chave, cansado da viagem e cansado de tanto esperar, ele dorme a sono solto. Outra piada cruel diz que alguém só vai tocar pratos quando descobre que não tem talento para o trombone. Que espécie de vocação é essa? O primeiro fato relevante é que o conhecimento de um pratista não se restringe ao seu instrumento. Ele deve dominar todo o campo da percussão, do bumbo ao martelo gigante (usado na Sexta Sinfonia do austríaco Mahler). É comum, nas grandes orquestras, que se estabeleça um rodízio, de modo que quem toca o prato hoje cuida do xilofone amanhã. Como todo músico erudito, o percussionista precisa dominar a teoria. "Se não souber harmonia, ele só vai fazer barulho", diz o americano John Boudler, professor titular do curso de percussão da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Como chefe de naipe, um bom percussionista pode ter salário alto numa orquestra no Brasil, algo em torno de 6 000 ou 7 000 reais. Ele pode completar a renda dando aulas ou montando um grupo próprio. Ricardo Righini, percussionista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), compõe música incidental para a novela Dance Dance Dance, em cartaz na Rede Bandeirantes.
Embora devam dominar toda a gama da percussão, alguns músicos se consideram pratistas acima de tudo. "Nossa responsabilidade é grande. Poucos percebem os erros de um violino, mas ninguém perdoa a pratada fora de hora", diz Hoffmann. Ele afirma que os pratistas são um ponto de referência para toda a orquestra. "Herbert von Karajan, um dos principais regentes de todos os tempos, nos chamou de segundos maestros por causa de nossa importância", declara. John Boudler faz coro com Hoffmann e assegura que todas as histórias deletérias sobre os percussionistas são injustas. Exceto uma. Eles são grandes causadores de acidentes. É bastante comum que o naipe de sopros seja atingido por baquetas voadoras. E às vezes os pratos, que pesam até 2 quilos, despencam e acertam um desavisado. "Nessas horas, a gente se finge de morto", diz Boudler.
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