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30 de janeiro de 2008
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Música
"O centro da orquestra"

Acredite: é isso que dizem os tocadores de pratos
a respeito do seu instrumento


Sérgio Martins

Oscar Cabral

Lino Hoffmann, da OSB: "Grande responsabilidade"

Ciência de uma pratada
De que são feitos os pratos: de ligas metálicas cuja base é o cobre
Tamanho: de 30 centímetros a 60 centímetros de diâmetro
Peso: de 0,5 a 2 quilos
Repertório: óperas de Richard Wagner; Abertura 1812  e Quarta Sinfonia, de Tchaikovsky; A Sagração da Primavera, de Stravinsky

Se você freqüenta concertos de música erudita, talvez já tenha cismado com a figura do pratista. Enquanto a orquestra se esfalfa, ele está lá no fundo, impassível. A música segue. Os violinistas suam. Os clarinetistas ficam de rosto afogueado. Mas o pratista continua em seu repouso. De repente ele se levanta, ajeita o fraque, endireita as costas e toca os pratos uma vez. Isso é tudo. Em inúmeros concertos, o pratista não dá mais que uma pratada. Uma das anedotas mais repetidas no mundo erudito gira em torno dessa situação. Numa excursão no Japão, o regente da Filarmônica de Berlim (ou da Sinfônica de Nova York – a orquestra varia de acordo com quem conta a história) atrasou as apresentações para que o pratista, que não havia viajado com o resto do grupo, conseguisse chegar. O repertório incluía a Sinfonia do Novo Mundo, de Antonín Dvorák, e os pratos intervêm no final do quarto movimento, num momento dramático da peça. Finalmente o músico chega, o primeiro concerto começa e, na hora-chave, cansado da viagem e cansado de tanto esperar, ele dorme a sono solto. Outra piada cruel diz que alguém só vai tocar pratos quando descobre que não tem talento para o trombone. Que espécie de vocação é essa?

O primeiro fato relevante é que o conhecimento de um pratista não se restringe ao seu instrumento. Ele deve dominar todo o campo da percussão, do bumbo ao martelo gigante (usado na Sexta Sinfonia do austríaco Mahler). É comum, nas grandes orquestras, que se estabeleça um rodízio, de modo que quem toca o prato hoje cuida do xilofone amanhã. Como todo músico erudito, o percussionista precisa dominar a teoria. "Se não souber harmonia, ele só vai fazer barulho", diz o americano John Boudler, professor titular do curso de percussão da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Como chefe de naipe, um bom percussionista pode ter salário alto numa orquestra – no Brasil, algo em torno de 6 000 ou 7 000 reais. Ele pode completar a renda dando aulas ou montando um grupo próprio. Ricardo Righini, percussionista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), compõe música incidental para a novela Dance Dance Dance, em cartaz na Rede Bandeirantes.

Paulo Vitale
John Boudler: "As piadas são injustas"


O uso da percussão é relativamente novo na música orquestral. Começa no período barroco, quando o alemão Johann Sebastian Bach lançou mão de tímpanos nos Concertos de Brandemburgo. Foi preciso chegar a outro alemão, Beethoven, várias décadas mais tarde, para que a percussão desse outro salto. Mas ainda não chegara a vez dos pratos. "O pratista espera até o quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven para fazer algum barulho. E muitas vezes é abafado pelo coro", queixa-se Boudler. A era de ouro começa com os românticos. O russo Tchaikovsky compôs a Capela Sistina da música para pratos. Em sua Quarta Sinfonia, o instrumento aparece 193 vezes. "A peça é tão importante que virou teste de admissão numa orquestra", diz Lino Hoffmann Filho, percussionista da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Os compositores modernos e contemporâneos também são generosos. Os pratos aparecem profusamente na música do russo Stravinsky, por exemplo. Em 1965, o italiano Mario Bertoncini compôs Tune, um concerto-solo para cinco pratos.

Embora devam dominar toda a gama da percussão, alguns músicos se consideram pratistas acima de tudo. "Nossa responsabilidade é grande. Poucos percebem os erros de um violino, mas ninguém perdoa a pratada fora de hora", diz Hoffmann. Ele afirma que os pratistas são um ponto de referência para toda a orquestra. "Herbert von Karajan, um dos principais regentes de todos os tempos, nos chamou de ‘segundos maestros’ por causa de nossa importância", declara. John Boudler faz coro com Hoffmann e assegura que todas as histórias deletérias sobre os percussionistas são injustas. Exceto uma. Eles são grandes causadores de acidentes. É bastante comum que o naipe de sopros seja atingido por baquetas voadoras. E às vezes os pratos, que pesam até 2 quilos, despencam e acertam um desavisado. "Nessas horas, a gente se finge de morto", diz Boudler.

 

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