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30 de janeiro de 2008
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Televisão
Cérebro do riso

Por que Tina Fey, da série 30 Rock,
se tornou o grande nome feminino
do humor na TV americana


Marcelo Marthe

Para sobreviver como redatora do humorístico fictício retratado na série 30 Rock, Liz Lemon não tem de usar sua massa cinzenta. Basta uma paciência de Jó: roteiro é o de menos quando se tem de aturar um chefe neurótico, um astro negro sem estribeiras e uma atriz em crise de auto-estima. Nos bastidores reais da TV, Tina Fey – criadora de 30 Rock e intérprete da personagem – também lida com egos complicados. Mas foi graças a seu cérebro que se tornou o nome feminino mais influente do humor na televisão americana. Embora não faltem mulheres competentes na área, nenhuma ostenta a verve de Tina. Ela despontou em 1997 no Saturday Night Live, o humorístico mais tradicional dos Estados Unidos. Num ambiente notório pela misoginia, foi a primeira mulher a virar redatora-chefe. Em 2004, aventurou-se no cinema com o filme Meninas Malvadas, e se deu bem nas bilheterias. Em 30 Rock, aposta na metalinguagem: o programa de que se fala na trama é uma alusão direta ao Saturday Night Live. A série vem desafiando a lei da gravidade na TV americana: com críticas positivas de sobra e audiência de menos, sustenta-se no ar em razão da qualidade. No momento, aliás, sustenta-se fora do ar. A partir desta semana, o canal pago Sony exibirá só reprises, já que as gravações da segunda temporada estão suspensas por causa da greve dos roteiristas (a boa notícia é que a primeira acaba de sair por aqui em DVD). Tina não deixa de ser avalista desse caos: foi uma das primeiras artistas conhecidas a se juntar aos piquetes dos grevistas.

Tina, de 37 anos, é uma humorista ferina que não abdica da incorreção política diante de qualquer tema. Ao assumir o leme do Saturday Night Live, recolocou em voga expressões como "vaca" e "prostituta" para se referir às mulheres, para horror das feministas. Em 30 Rock, ela não abranda o tom. Tome-se a prima-dona negra vivida por outro egresso do Saturday Night Live, o comediante Tracy Morgan. Por meio da estrela drogada a que ninguém ousa impor limites, Tina lança farpas sobre a hipocrisia americana na questão racial. A série cutuca de forma impiedosa, sobretudo, o status quo da TV. Jack Donaghy, o chefão representado por Alec Baldwin, é um sujeito boçal a ponto de ameaçar o contínuo porque este o venceu no pôquer. Na segunda temporada, Jack interage com convidados do porte de Jerry Seinfeld, que surge em cena no papel dele próprio. Há anos longe das séries de TV, o humorista de maior sucesso dos anos 90 retorna de férias hipotéticas num país distante para reclamar da exploração de imagens suas em programas da NBC. Só mesmo alguém com a moral de Tina Fey para tirar Seinfeld de seu exílio voluntário.


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