Plataformas vertiginosas,
formas e estampas
surpreendentes, por Vivienne Westwood
Bel Moherdaui
Naomi vai à lona, em desfile
de 1993: "Desequilibrou, jogue-se no chão",
ensina a criadora do fatídico sapato roxo e da sandália
(à dir.) de tecido franzido
Quando
Naomi Campbell foi ao chão em plena passarela, em 1993,
não teve culpa nenhuma do alto de plataformas
de 21 centímetros, simplesmente protagonizou uma queda
anunciada. "Com um sapato daqueles no pé, a primeira
sensação é de pavor. Fica todo mundo rezando
para não cair, não esbarrar em nada, não
bater um vento forte", relata a modelo Eliana Weirich.
Com quatro experiências dessas no currículo, ela
desenvolveu uma técnica para enfrentar o desafio com
dignidade: "Pisar o mais firme possível. E incorporar
um espírito de travesti". A fatídica plataforma
é obra da estilista inglesa Vivienne Westwood, 66 anos,
eternamente associada aos sapatões, aos punks e a um
espírito heterodoxo em matéria de moda. Hoje,
revelando a quilometragem, ela faz manifestos contra "a
propaganda" e "o consumo", mas ninguém
vai pensar nessas chatices diante dos 147 sapatos e sandálias
reunidos em uma exposição itinerante que
estreou na semana de moda de São Paulo e agora pode ser
vista no Centro Brasileiro Britânico e registrados
no livro Vivienne Westwood Shoes. Celebração
de extravagância criativa, a coleção inclui
o sapato roxo celebrizado no tombo de Naomi, uma sandália
coberta de tecido franzido com acabamento metalizado e o escarpim
Flame (labareda), com crina de cavalo pintada em tons flamejantes,
entre outras surpresas.
Vivienne garante
que a maioria dos calçados que desenha para suas coleções
é perfeitamente usável. "Faço apenas
um ou dois para passarela, daqueles que a mulher, não
sendo cortesã de Veneza, arrisca um pouco a sua vida
ao usar", brincou em entrevista a VEJA na semana passada,
quando esteve em São Paulo para inaugurar a ex-posição
e lançar um modelo de sapato de plástico com sua
assinatura. Entre os reconhecidamente "difíceis",
figuram a Goat Chain Boot, modelo de 1973 que traz como acessório
uma corrente presa a uma bola de ferro e faz parte da coleção
pessoal da estilista (que confessa: já perdeu a chave),
e a Super Elevated Fur Boot, que tem pele de carneiro e salto
de 21 centímetros. Também insólita, porém
mais usável o salto dourado tem apenas 14,5 centímetros
, é a graciosa bota curta com estampa de tigre,
forro vermelho e cano em forma de asa. E não há
quem veja e não queira calçar a bota de PVC com
estampa toile de jouy, aquela de cenas românticas criada
no século XVIII. Contrariando todas as evidências,
Vivienne jura: "Sempre penso no conforto". Na sua
interpretação, o tombo de Naomi foi provocado
pelas meias emborrachadas, "que enroscavam uma perna na
outra". Diante do inevitável, a modelo seguiu o
manual Vivienne para quem sobe àquela altura: "Desequilibrou,
jogue-se no chão. Senão, pode quebrar o tornozelo".
Fotos divulgação
Talento para a extravagância:
escarpim com detalhe em crina de cavalo tingida em cores
fortes, bota tigrada em forma de asa e salto dourado e estampa
toile de jouy reproduzida em PVC