Entrevista:Bruno Chateaubriand "Ser gay não é
opção"
Um dos anfitriões
mais celebrados do Rio fala
sobre a sua condição de homossexual e diz
que gays ricos são mais bem-aceitos no Brasil
Juliana Linhares
Oscar Cabral
"A única opção
que temos
é assumir o desejo por
alguém do mesmo sexo
ou ter uma vida paralela"
O
carioca Bruno Chateaubriand Diniz Weissmann, de 32 anos, foi
seis vezes campeão brasileiro de ginástica olímpica,
apresentou um quadro de entrevistas no SBT e atualmente empresaria
os ginastas Diego e Daniele Hypólito. Mas o que o tornou
conhecido não foi nada disso. Bruno é célebre
pelas festas que dá: o réveillon em seu apartamento
no edifício Chopin, em Copacabana, é o mais disputado
do Rio de Janeiro. O deste ano (com 300 convidados, que consumiram
igual número de garrafas de champanhe Dom Pérignon)
contou até com a presença da atriz italiana Monica
Bellucci. Bruno se mostra alegre e irreverente quando o assunto
é festa, mas se revela muito sério e lúcido
ao falar sobre a sua condição de gay. Nascido
em família de classe média alta (a avó
materna era prima do magnata da imprensa Assis Chateaubriand),
ele tentou negar a própria homossexualidade quando criança,
por achar que gays eram "coisa de circo". Concluiu
que seria impossível. Desistiu de namorar meninas, enfrentou
a família e conheceu André Ramos, o empresário
com quem vive há onze anos. Nesta entrevista a VEJA,
ele fala de preconceitos explícitos e disfarçados
, relaciona as limitações da vida de um
casal homossexual e critica eventos como as paradas gay, que
apresentam homossexuais como seres "exibicionistas, caricatos
e que parecem viver sempre em clima de boate".
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Quando você descobriu que não era igual
aos outros meninos? Bruno Desde a alfabetização,
quando eu tinha 6 anos, e as crianças da escola me xingavam.
Eu já sabia que havia algo de diferente comigo.
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Como você reagia? Bruno
Corria para o banheiro da escola, me trancava e chorava. Acontecia
quase todo dia, tanto que eu morria de medo de ir à aula.
Era sempre muita humilhação. Quando eu chegava
em casa, contava para a minha mãe que os meninos me xingavam,
mas não tinha coragem de dizer do quê. Ela falava:
"Dá um tapa neles".
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Você teve namoradas? Bruno Tive. Meu primeiro beijo foi em uma
garota, quando eu tinha 12 anos. Aos 16, comecei a namorar firme
uma colega de escola e cheguei a usar aliança de noivado.
Transava com ela, tudo aparentemente normal. Mas, no fundo,
sabia que aquela não era a minha essência. Só
que tentava jogar esse sentimento para debaixo do tapete. Já
tinha desejo por meninos, mas me perguntava: "Como eu posso
estar sentindo isso?".
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Você tinha medo? Vergonha? Bruno
Na minha cabeça, gay era uma coisa meio bacalhau de circo.
Homossexual tinha a ver com transformista, com personagens circenses.
E isso tudo sempre foi muito distante da minha vida. Minha mãe
é museóloga, fui educado em bons colégios.
Além disso, parte da minha família é paraibana.
Tive uma criação supermachista e sou o único
gay numa família de vinte primos. Quer dizer, talvez
tenha mais um primo homossexual, mas ninguém fala sobre
isso. Eu me lembro de que me desesperava no meu quarto. Deitava
na cama e pensava: "Eu não posso ser isso, meu Deus!
Tenho de gostar de mulher!". Eu era muito jovem, não
sabia que existia a possibilidade de uma relação
de amor entre dois homens.
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Até quando seu tormento durou? Bruno
Até a faculdade. Cheguei a sair com várias meninas.
Quanto mais escutava comentários, piadinhas de gente
dizendo que eu era isso e aquilo, mais queria provar para mim
mesmo que não era verdade.
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Quando você teve a sua primeira experiência
com um homem? Bruno
Aos 21 anos. Eu tinha um amigo mais velho que havia se assumido
gay fazia pouco tempo. Quando eu soube, fui contra, disse que
ele estava louco e me distanciei dele. Meses depois, eu o procurei
e disse que achava que era igual. Ele, então, me levou
a uma boate gay. Não demorou muito, um homem veio conversar
comigo. Ao contrário do que acontece entre casais heterossexuais,
com os gays tudo é mais rápido. Não teve
muito papo, paquera, nada. Ele me deu um beijo na boca e eu
fiquei ali, besta. Voltei para casa com vontade de vomitar tudo
o que estava dentro de mim. Tomei um banho que durou quase uma
hora. Esfregava com força meus braços, minha cabeça,
passei sabonete várias vezes na boca, escovei os dentes
outras tantas tudo para tirar o cheiro daquele homem,
para tentar me livrar de uma sensação de sujeira.
Nesse mesmo ano, porém, saí com outros dois homens
que não tiveram importância afetiva para mim. Logo
em seguida, conheci o André, por quem me apaixonei. Vivemos
juntos há onze anos.
Veja Foi aí
que você optou por assumir sua sexualidade? Bruno
Você disse a frase certa: foi aí que eu optei por
me assumir gay. Porque o homossexual não tem a opção
de não ser homossexual. Não é que nós
escolhemos gostar de homem. Ainda criancinha, se passassem à
minha direita uma mulher linda e à minha esquerda um
homem bonito, eu olhava para a esquerda. A única opção
que o homossexual tem é assumir seu desejo por outra
pessoa do mesmo sexo ou levar uma vida paralela. Quem não
sabe de histórias de homens que são casados, têm
filhos e mantêm um namorado escondido?
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Como foi a reação da sua família
quando você contou que era homossexual? Bruno
Foi horrível. Minha mãe se utilizava daquele artifício
clássico de fingir que não vê que o filho
é gay. Um dia, no meio de uma briga boba, ela soltou:
"Você está muito diferente". Eu, que
já não agüentava mais aquela situação,
disse: "Por que diferente? Porque eu estou
namorando um homem?". Ela disse que sim, e eu respondi:
"Então, mamãe, acho que a senhora é
que está com um problema. Deveria fazer análise".
E ela acatou a sugestão. Hoje, a relação
dela conosco é muito afetiva. Também foi difícil
com meu irmão. Eu me lembro de que ele gritava: "Não
sei por que você é assim!". Meu pai, de família
austríaca, é o único que até hoje
não me aceita. Dia desses, ele me escreveu uma carta
horrível. Entre outras coisas, disse que eu deveria ficar
feliz de ele nunca ter usado do pátrio poder para me
proibir de ser gay. Como se ele pudesse fazer isso e como se
eu pudesse escolher.
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E
a família do André? Bruno Com
o André, foi bem mais tranqüilo. A mãe dele
sempre me tratou como filho e a avó dele me adorava.
O pai morreu muito cedo, eu nem conheci.
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Como foi o início do namoro? Bruno
Como o André herdou uma boa condição financeira,
sempre tivemos uma vida muito confortável. Só
no ano em que nos conhecemos, ele me levou nove vezes para fora
do Brasil. Fomos para lugares como Inglaterra, França,
Egito, Estados Unidos e Taiti. Viajamos também para assistir
à cerimônia do Oscar, em Los Angeles. Essa foi
a primeira vez. Depois, fomos outras quatro vezes. Nos primeiros
meses de namoro, viemos morar neste apartamento de 400 metros
quadrados, na Avenida Atlântica, ao lado do Copacabana
Palace. Algumas vezes, o André me levava para viajar
e dizia para eu ir sem mala. Chegávamos a outro país
e ele comprava um guarda-roupa inteiro para mim. Minha mãe
ficava aflita com tanto dinheiro. Ela achava que o André
queria apenas se divertir comigo e depois iria me largar. Aos
poucos, ela e toda a minha família viram o respeito que
nós temos um pelo outro.
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O fato de você ter se tornado rico contribuiu
para que a sua família aceitasse a sua homossexualidade? Bruno
Não vou ser hipócrita: é claro que o dinheiro
ajudou. Gay rico, no Brasil, é mais bem-aceito. Se eu
não tivesse essa estrutura, teria virado, como dizem,
"aquela bicha pobre". Mesmo para mim, o dinheiro faz
diferença. Esta casa, por exemplo, é a minha proteção.
Aqui ninguém me xinga. A nossa sociedade privilegia a
posição social das pessoas.
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Você se sente à vontade para demonstrar
carinho pelo André em lugares públicos? Bruno Não.
O gay tem de desenvolver maneiras sutis de mostrar afeto. É
um jogo de olhar, é um toque de corpo discreto. Do contrário,
você corre o risco de fazer com que pessoas que não
gostam de homossexuais se sintam agredidas. Na última
festa de Ano-Novo, por exemplo, na hora da virada, nossa casa
estava cheia de jornalistas, artistas, empresários. Embora
tivesse vontade, não pude beijar o André, como
faz qualquer casal.
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Mas você estava na sua casa, cercado de amigos.
Nem assim se sentiu à vontade? Bruno
Talvez eu ainda tenha um pouco de medo de ser motivo de chacota
aquele mesmo medo que eu sentia quando era criança.
Acho que todo gay acaba desenvolvendo uma espécie de
defesa. Quase todos nós temos um histórico de
humilhações e piadinhas que ouvimos durante boa
parte da vida.
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Você ainda sofre preconceito? Bruno Muito. Algumas vezes, quando vamos a
eventos públicos, acontecem coisas desagradáveis.
No último baile de Carnaval do Copacabana Palace, algumas
pessoas que estavam do lado de lá do cordão de
isolamento nos xingaram quando estávamos entrando. Não
consegui reagir. Olhei para a frente e segui andando. Em programas
de TV dos quais participo, volta e meia alguém da platéia
grita alguma ofensa. No SBT, nunca sofri discriminação
explícita. O Silvio Santos sabe que sou gay, mas nunca
falamos sobre o assunto. Mas noto que, nas piadas sobre gays
em programas humorísticos de qualquer canal, o preconceito
é evidente.
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Há muitos artistas gays na TV que não
assumem essa condição? Bruno
Sim. Muitos apresentadores,
diretores... Eles não assumem, porque têm medo
de perder valor de mercado, de ter seu passe desvalorizado.
Eu não acredito nisso. Estou investindo na minha carreira
de comunicador (é formado em jornalismo pela PUC-RJ)
e acredito que ser gay não vai me atrapalhar em nada.
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Que outras manifestações de preconceito
são comuns no seu cotidiano? Bruno Uma das mais comuns é a da socialite
que nos abraça e, aos berros, diz para quem está
em volta: "Eu adoro este casal!". É claro que
ela não está querendo nos agradar. Está
é querendo mostrar para os outros quão nobre ela
é de aceitar esses "alienígenas".
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Vocês têm mais amigos homossexuais ou
heterossexuais? Bruno
Heterossexuais. Mas não por uma questão de escolha.
É simplesmente porque há mais heterossexuais do
que gays no mundo. Um casal amigo fez uma cerimônia de
casamento há pouco tempo e nos convidou para sermos padrinhos.
Foi preciso fazer um trabalho de convencimento para que o padre
que conduziu a cerimônia nos aceitasse. Tudo acertado,
chegou a hora da festa. Os casais de padrinhos iam entrando
e, quando chegavam diante do altar, dividiam-se: os homens seguiam
para a esquerda e as mulheres para a direita. Na nossa vez,
empacamos. Não tínhamos ensaiado nada. Senti um
frisson no salão. O impasse durou alguns segundos, até
que eu e o André nos olhamos e, sem dizer nada, fomos
cada um para um lado. Eu para a direita, ele para a esquerda.
Veja
O que você mais gostaria de fazer e não
pode? Bruno
Eu não tenho vontade de fazer um casamento escandaloso
para chocar as pessoas, ou sair beijando na boca no meio da
rua. Tenho vontade de fazer coisas simples, do dia-a-dia. Por
exemplo: nós viajamos muito para o exterior e, na fila
da imigração, sempre observo que casais heterossexuais
se apresentam juntos na hora de mostrar os passaportes. Se há
algum problema com um dos dois, o outro socorre. Nós
não temos essa segurança. Sempre entramos separados.
Também gostaria muito de ter um filho. Queremos adotar
uma criança com síndrome de Down, mas sabemos
que será difícil.
Veja
Mas há também vantagens em um casamento
homossexual, não? Bruno
Claro. Numa relação heterossexual, a mulher sempre
acaba sobrecarregada de funções. Isso porque,
pelas normais sociais, é ela quem vai ao supermercado,
ela é quem cuida de filho, da empregada etc. Na nossa
casa, as tarefas são feitas por quem tem mais prazer
em realizá-las.
Veja O
que você acha dos atos de afirmação homossexual,
como as paradas gay de São Paulo e do Rio? Bruno Acho que eles têm dois problemas.
O primeiro é que são caricatos: fazem pensar que
todo gay é exibicionista e vive em clima de boate. O
segundo é que, em matéria de defesa dos direitos
dos gays, essas passeatas não funcionam. Pelo contrário:
aquelas cenas de homens quase nus se pegando e se beijando em
cima de um caminhão podem fazer com que políticos
e juízes pensem que somos todos promíscuos ou
incapazes de adotar e educar uma criança.