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Edição 2045

30 de janeiro de 2008
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Carta ao leitor
O câncer do loteamento

Ailton de Freitas/Ag. O Globo
A oposição comemora a votação que decretou o fim da CPMF: com a ajuda dos aliados fisiológicos do governo

Nesta edição, VEJA traz uma radiografia exclusiva do escândalo que originou o terremoto político no primeiro governo Lula. A revista teve acesso ao relatório final da Polícia Federal sobre a bandalheira que corria solta nos Correios – aquela imortalizada, como deve lembrar o leitor, na imagem do funcionário Maurício Marinho embolsando propina, enquanto explicava ao pagador como funcionava o esquema de corrupção na empresa estatal, de cujos cofres se locupletavam os partidos governistas. A gatunagem nos Correios acabou por abrir as portas do inferno ao PT, escancarando o mensalão. Quase três anos depois, a PF concluiu e enviou à Justiça um relatório primoroso. Ele autopsia as vísceras de um sistema corroí-do pelo câncer do loteamento de cargos públicos.

No plano ideal, como funcionaria o sistema político brasileiro? O presidente da República e seu partido, ao não dispor de maioria no Congresso, procurariam fazer coalizões com agremiações adversárias, a fim de ver aprovados os projetos enviados à Câmara e ao Senado. Essas coalizões deveriam se dar, principalmente, a partir do estabelecimento de visões coincidentes na defesa dos interesses do país. Aos aliados, como demonstração de boa vontade, caberiam alguns cargos no governo, preenchidos forçosamente por pessoas com competência técnica. Não é o que ocorre. Para compor – e manter – sua base aliada na Câmara e no Senado, o governo vem oferecendo um sem-número de cargos a partidos fisiológicos, empenhados numa única tarefa: meter a mão no Erário. Esse loteamento está na raiz de bandalheiras como a que vitimou os Correios. A melhor forma de resolver isso é diminuir dramaticamente o número de cargos loteáveis. Para se ter uma idéia, quando muda o partido no governo, trocam-se apenas 100 cargos públicos na Inglaterra e 1.000 na França. No Brasil, a estimativa é que haja a substituição de 21.000 servidores. O problema não é trocar um assalariado por outro, e sim o afastamento de funcionários competentes, que dão lugar a quadros especializados em desviar dinheiro público para os partidos a que pertencem. Esse loteamento fisiológico, além de causar danos à administração do Brasil, não traz sequer ganho político para o governo. Basta ver o que ocorreu na votação da CPMF no Senado. O governo entregou mundos e fundos à base aliada, mas foi derrotado também por ela.

 

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