A oposição comemora a votação
que decretou o fim da CPMF: com a ajuda dos aliados fisiológicos
do governo
Nesta edição, VEJA
traz uma radiografia exclusiva do escândalo que originou
o terremoto político no primeiro governo Lula. A revista
teve acesso ao relatório final da Polícia Federal
sobre a bandalheira que corria solta nos Correios aquela
imortalizada, como deve lembrar o leitor, na imagem do funcionário
Maurício Marinho embolsando propina, enquanto explicava
ao pagador como funcionava o esquema de corrupção
na empresa estatal, de cujos cofres se locupletavam os partidos
governistas. A gatunagem nos Correios acabou por abrir as portas
do inferno ao PT, escancarando o mensalão. Quase três
anos depois, a PF concluiu e enviou à Justiça
um relatório primoroso. Ele autopsia as vísceras
de um sistema corroí-do pelo câncer do loteamento
de cargos públicos.
No plano ideal, como funcionaria
o sistema político brasileiro? O presidente da República
e seu partido, ao não dispor de maioria no Congresso,
procurariam fazer coalizões com agremiações
adversárias, a fim de ver aprovados os projetos enviados
à Câmara e ao Senado. Essas coalizões deveriam
se dar, principalmente, a partir do estabelecimento de visões
coincidentes na defesa dos interesses do país. Aos aliados,
como demonstração de boa vontade, caberiam alguns
cargos no governo, preenchidos forçosamente por pessoas
com competência técnica. Não é o
que ocorre. Para compor e manter sua base aliada
na Câmara e no Senado, o governo vem oferecendo um sem-número
de cargos a partidos fisiológicos, empenhados numa única
tarefa: meter a mão no Erário. Esse loteamento
está na raiz de bandalheiras como a que vitimou os Correios.
A melhor forma de resolver isso é diminuir dramaticamente
o número de cargos loteáveis. Para se ter uma
idéia, quando muda o partido no governo, trocam-se apenas
100 cargos públicos na Inglaterra e 1.000 na França.
No Brasil, a estimativa é que haja a substituição
de 21.000 servidores. O problema não é trocar
um assalariado por outro, e sim o afastamento de funcionários
competentes, que dão lugar a quadros especializados em
desviar dinheiro público para os partidos a que pertencem.
Esse loteamento fisiológico, além de causar danos
à administração do Brasil, não traz
sequer ganho político para o governo. Basta ver o que
ocorreu na votação da CPMF no Senado. O governo
entregou mundos e fundos à base aliada, mas foi derrotado
também por ela.