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30 de janeiro de 2008
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André Petry
Desmatando Marina

"Quando cai a taxa de desmatamento
da Amazônia, a ministra Marina diz que
é obra do governo eficiente. Quando
aumenta o desmatamento, aí é culpa do
preço do boi e da soja. Não é uma delícia?"

O brutal aumento do desmatamento da Amazônia ceifou 7 000 quilômetros quadrados de floresta no segundo semestre do ano passado e arrancou a raiz das bravatas da ministra Marina Silva. Em 2004-2005, quando o desmatamento caiu 31%, a ministra garantiu que o saldo era resultado do trabalho do governo, e não uma decorrência dos preços baixos do boi e da soja – atividades que costumam avançar sobre a floresta. Em 2005-2006, com nova queda, desta vez de 25%, a ministra comemorou o sucesso e voltou à carga. "Seria simplismo e reducionismo achar que o que aconteceu foi por causa do preço das commodities."

A platéia sempre foi informada pela ministra de que a floresta estava ficando de pé porque o Ministério do Meio Ambiente era eficiente e implementava políticas públicas na direção certa, e não porque o boi e a soja estavam baratos, o que certamente desestimulava sojicultores e pecuaristas de comer um pedaço da floresta. Agora, com o anúncio do recorde no desmatamento, adivinha de quem é a culpa? Do boi e da soja. Eis o que disse a ministra na semana passada diante do desastre: "Esperamos conseguir conter o desmatamento mesmo com o aumento do preço das commodities". Não é uma delícia? Quando o desmatamento cai, é obra do governo eficiente. Quando aumenta, é culpa do preço do boi e da soja.

Marina já fez pior. Em entrevista em setembro de 2005, a ministra deu pormenores do sucesso do seu trabalho. Disse que havia uma previsão naquele ano de que o desmatamento cairia entre 50% e 60% no Pará. E para ressaltar a importância do trabalho ministerial explicou que, no Pará, boi e soja eram desimportantes. "Lá a influência das commodities não é tão relevante como é em Mato Grosso." Agora, o Imazon, respeitada ONG que trabalha na Amazônia, informa que o desmatamento disparou justamente no Pará. Só de outubro para novembro, a ação da motosserra aumentou 300% no Pará. Quer dizer: no peculiar raciocínio da ministra, o desmatamento aumentou onde o preço das commodities não é tão relevante e, no entanto, esse aumento se explica justamente pelo preço das commodities.

É óbvio que boi e soja não esclarecem tudo. Não são os únicos responsáveis por derrubar árvores ou mantê-las em pé. Há outras causas que confluem para um resultado positivo ou negativo. O discurso da ministra esconde isso e distorce a realidade, desviando-a para o que lhe convém.

A ministra Marina Silva fala baixo, tem saúde frágil e uma biografia admirável. Era analfabeta até os 17 anos. Aos 26, estava formada em história. Sua vida inspira respeito e simpatia. Já ganhou prêmios internacionais e é elogiada pela imprensa estrangeira. Mas seus diagnósticos são dolorosamente temerários. A ministra é defensora leal da Amazônia, e ninguém desconfia de que tenha uma aliança clandestina com madeireiros vorazes. O problema é outro. Marina está muito bem assessorada em assuntos evangélicos, tendo sempre por perto um crente para lhe estender a Bíblia a qualquer hora, a ponto de confundir o estado laico com sua fé. Agora, falta só se cercar de assessores que saibam cuidar do meio ambiente e lhe entreguem explicações plausíveis para o que acontece. As bravatas, servidas com carne de gado ao molho de soja, só produzem vexame.

Escreva para o autor no endereço colunadopetry@abril.com.br

 

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