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Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
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CINEMA

2001 Castle Rock Ent.

Lembranças: boa dose de charme


Lembranças de um Verão
(Hearts in Atlantis, Estados Unidos, 2001. Desde sexta-feira em cartaz no país) – É verdade que Anthony Hopkins cada vez mais interpreta em piloto automático, e é certo também que o australiano Scott Hicks não é um diretor assim tão original quanto se alardeou à época de Shine. Mas isso não impede que este drama sentimental e nostálgico tenha uma boa dose de charme. Hopkins é um estranho que, no início dos anos 60, aluga um quarto na casa do garoto Bobby, que vive só com sua mãe – uma viúva bonita e jovem, que trata o filho como um empecilho à oportunidade de refazer sua vida. A amizade que surge entre o inquilino, o menino e a melhor amiga deste será a senha para que as duas crianças dêem seus primeiros passos no mundo adulto. A ala infantil do elenco, formada por Anton Yelchin e Mika Boorem, é irresistível. E, se o clima da história lembra um tantinho o de Conta Comigo, não é por acaso: como o sucesso de 1986, este filme se baseia num escrito de Stephen King.

 

LIVROS

O Evento Cobra, de Richard Preston (tradução de Aulyde Soares Rodrigues; Rocco; 416 páginas; 42 reais) – O jornalista americano Richard Preston é uma das poucas pessoas do planeta a ter "batizado" um asteróide. E é bem apropriado que esse asteróide faça parte da lista dos que podem vir a se chocar com a Terra: Preston é um especialista em combinar (boa) ciência e sensação. Seu best-seller Zona Quente, por exemplo, deflagrou uma epidemia de pânico – e de notícias – em torno do vírus Ebola. Neste novo romance, ele confirma seu senso de oportunidade. No enredo, uma adolescente manifesta estranhos sintomas. Trata-se, na verdade, da primeira vítima de uma ação terrorista com armas biológicas. Preston diz ter se baseado em extensa pesquisa, o que só torna seu diagnóstico mais assustador.

Coração Enfurecido, de Ingrid Betancourt (tradução de Adalgisa Campos da Silva; Objetiva; 238 páginas; 29,90 reais) – Senadora mais votada nas últimas eleições de seu país e atual candidata à Presidência (com 2% das intenções de voto), Ingrid Betancourt tece um relato impressionante da aventura que é fazer política na Colômbia. Crítico, mas não moralista, seu livro autobiográfico reflete sobre as causas do atual estágio de violência e corrupção naquele país. Ingrid denuncia ligações do narcotráfico com a classe política. Os trechos mais impactantes, contudo, são aqueles em que ela descreve seu cotidiano. Devido a ameaças de morte, seus filhos têm de morar no exterior e ela vive cercada de forte aparato de segurança.

Alexandre e César – As Vidas Comparadas dos Maiores Guerreiros da Antiguidade, de Plutarco (tradução de Hélio Vega; Prestígio; 256 páginas; 25,90 reais) – Alexandre, o líder macedônio, tinha fama de gostar de um copo, mas seu prazer era na verdade conversar, e não beber. Já o romano César inspirava tal afeição que fazia até soldados comuns se tornarem invencíveis. Os fãs dos romances históricos, pródigos nesse tipo de detalhe, podem ir agora diretamente à fonte: o grego Plutarco, que viveu no século I e é considerado um dos pais do gênero biográfico. Sua preocupação, como fica evidente neste volume (para o qual Plutarco não chegou a escrever uma comparação formal entre os dois personagens), era menos tratar dos fatos e mais captar a alma, por assim dizer, do biografado. Para os cultores do gênero, uma obra fundamental.

 

QUADRINHOS

 
Gorazde: sobre a Guerra da Bósnia  

Área de Segurança Gorazde, de Joe Sacco (tradução de Sérgio Augusto Miranda; Conrad; 228 páginas; 37 reais) – Apesar de ser uma história em quadrinhos, este lançamento é tudo, menos um passatempo inconseqüente. Seu autor, Joe Sacco, notabilizou-se por criar obras que misturam desenhos realistas em branco-e-preto e narrativas quase documentais. Ele fez isso de forma brilhante em Palestina, que recebeu o prestigioso American Books Award de 1996, descrevendo sua estada naquela região de conflito do Oriente Médio. Repete agora a dose em Área de Segurança Gorazde. Trata-se de um apanhado dos fatos que testemunhou e dos depoimentos que colheu em quatro viagens à cidade de Gorazde, durante a Guerra da Bósnia. Sacco mostra, com boa dose de humor negro, como os habitantes do lugarejo bósnio, longamente sitiado por forças sérvias, lutaram para tocar a vida em meio à barbárie.

 

DISCOS

Brasilidade, Bossacucanova & Roberto Menescal (Trama) – Não é de hoje que DJs americanos e europeus surrupiam trechos de clássicos da bossa nova a fim de usá-los como matéria-prima de suas canções. Nada mais natural que artistas brasileiros jovens, de música eletrônica, acabassem fazendo uso do mesmo recurso. O trio Bossacucanova, contudo, não se limitou a tomar emprestado antigas melodias. Eles fizeram questão de ter como parceiro um artista que entende do velho riscado: Roberto Menescal, um bossa-novista de primeira hora. O violão elegante de Menescal adoça o baticum eletrônico e faz de Brasilidade um CD para ser apreciado do começo ao fim. No disco, misturam-se composições inéditas e releituras criativas de canções como Água de Beber e Garota de Ipanema.

Dwitza, Ed Motta (Universal) – O cantor carioca nunca escondeu o desejo de lançar um disco de música instrumental, distante do pop. Dwitza é esse disco. Ele traz catorze faixas em que Ed dedilha o piano elétrico e a guitarra semi-acústica – e, claro, em que solta o vozeirão. Mas atenção. Só duas músicas, Doce Ilusão e Coisas Naturais, têm letra. Nas outras composições, ele se dedica aos chamados vocalises – canta sílabas sem sentido no estilo "dubi-dubi" ou "paparapá". Uma faixa dá errado: Valse au Beurre Blanc parece a leitura de uma carta de vinhos em francês de quinta categoria. Mas o restante do álbum é biscoito fino, com influências que vão do jazz com sotaque nordestino do maestro Moacir Santos ao suingue do tecladista americano Herbie Hancock.

 
Divulgação

The Chemical Brothers: mais pop e leve

 

Come with Us, The Chemical Brothers (EMI) – Os ingleses Ed Simons e Tom Rowlands são os DJs mais criativos da música eletrônica. Em doze anos de carreira eles burilaram um estilo inconfundível. Adicionam programações eletrônicas e toneladas de teclados a ritmos que variam do rock ao funk. Os Chemical Brothers são também os DJs mais bem-sucedidos do gênero: suas apresentações ao vivo costumam reunir grandes platéias. Em seu quarto disco, Come with Us, eles põem a casa abaixo com a primeira faixa, que traz a batida pesada de seus primeiros trabalhos. O restante do CD é um pouco mais leve e pop. Há brincadeiras com a disco music (Star Guitar) e até ecos surpreendentes da banda de rock progressivo Pink Floyd, em The State We're in.

 

   
 

 

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