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Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Elementar, meu
caro Watson

Exclusivo! Um Sherlock Holmes
que nunca se viu, fruto de outro
meio ambiente

Contrariando seus hábitos, Sherlock Holmes tinha acordado cedo naquela manhã e tomava o café com o companheiro Watson quando lhe vieram dar a notícia. Havia sido morto em circunstâncias misteriosas um certo Charles Baskerville. O corpo fora encontrado num terreno baldio nos arredores de São Paulo, próximo dos escritórios do senhor X, um famoso, ainda que suspeito, potentado, amigo de políticos.

Não, não há engano. A história se passa mesmo em São Paulo. O Sherlock Holmes em questão tem dedos curtos, baixa estatura, cabeça grande, barriga proeminente, pele morena e, por extenso, chama-se Sherlock Holmes dos Santos. É brasileiríssimo. O nome Watson de seu companheiro é prenome. Como se sabe, os brasileiros têm especial predileção pelos prenomes de origem inglesa e iniciados com W: Washington, Wellington, Wilson... Este se chama Watson Cruz da Silva. A vítima tinha Charles Baskerville como pseudônimo, não como nome verdadeiro. Aurélio Mendonça – este o verdadeiro nome – fazia parte de um conjunto de rock e achava que um nome "americano", como dizia, facilitaria sua projeção internacional. Quanto aos métodos científicos de investigação criminal desse Sherlock caboclo e do outro, célebre, o leitor julgará por si no que coincidem e no que diferem.

"Que estão fazendo esses aí?", começou nosso Sherlock, tão logo chegou ao local do crime, notando a presença de três rapazes de compleição franzina e pele escura. "Dotô, eu...", um deles, vestindo camiseta com propaganda de candidato às eleições de oito anos antes e bermudas furadas nas coxas, balbuciou. Sherlock cortou-o. "Cuide deles, Watson", ordenou. Watson era um grandalhão de 2 metros de altura, braços de halterofilista e óculos escuros. Começou por empurrar os três rumo ao carro em que ele e Sherlock tinham chegado. "Vamos andando, e quietinhos", dizia. Enfiou-os no banco de trás e sumiu com eles. Sherlock agora passeava pelo local. Pisava no chão junto ao corpo, chutava pequenos objetos. Nunca acreditara nessa história de preservar a cena do crime. Sua escola era outra. Esticou a vista para a construção fortificada que servia de escritório do senhor X, na verdade um QG para as múltiplas operações desse personagem. "Que maçada", pensou. "Por que foi acontecer tão perto?"

Um repórter aproximou-se. "Lá vem esse chato", disse Sherlock de si para si. Ao mesmo tempo, armou um sorriso. Era mister não destratar a mídia. "O senhor confirma que Charles Baskerville tinha entrado em conflito com o senhor X?", perguntou o repórter. "Nada a declarar. As investigações são sigilosas", respondeu Sherlock. O repórter tinha informações de que Baskerville, nos últimos meses, diante do marasmo da carreira no rock, se decidira por uma alternativa. Ingressara no promissor ramo do tráfico de drogas. Ora, ocorre que o senhor X, embora ninguém, em tempo algum, tenha conseguido provar nada, era tido como um dos chefões do tráfico. "Vamos esperar", disse Sherlock, despachando o repórter. "Você pode ter uma surpresa."

Três dias depois, tem lugar a edificante cerimônia que, no jargão do ramo, se intitula "apresentação do suspeito". No caso, suspeitos, porque eram três. Adivinhou o leitor: aqueles três que haviam sido detidos por Watson. Um apresentava hematoma no rosto. Outro arrastava uma perna. O terceiro tremia sem parar. Os três confessaram o crime, diante da imprensa, e confessaram de novo, e mais confessariam, esse e outros crimes, se para tal fossem solicitados. Mais um caso esclarecido. Quanto ao senhor X... "Vá lá agora", ordenou Sherlock. "Ele disse que já separou a nossa parte." Watson, que, como bom brutamontes, tinha o vezo das perguntas idiotas, indagou: "Levo a mala?". Sherlock, sentado em sua poltrona predileta, as duas mãos juntas nos dedos, respondeu, calmamente condescendente: "Claro. Isso é elementar, meu caro Watson".

Os últimos acontecimentos desencadearam um clamor contra a situação da segurança pública no país. Espera-se que a elucidação do assassínio do prefeito Celso Daniel não venha a provocar seu arrefecimento. O problema da segurança pública no Brasil tem um nome: polícia. Como de outras vezes, acena-se com medidas, algumas já velhas conhecidas, como o aumento de penas, outras surgidas de novas fantasias, como a proibição dos celulares pré-pagos, mas nunca se vai ao fundo da questão: a reforma da polícia. Na verdade, e para corrigir uma injustiça, a polícia é o problema número 2 da segurança pública. O número 1 são os dirigentes, do presidente aos governadores, dos ministros aos secretários estaduais, que, diante das respectivas polícias, são tomados de incurável paralisia, como se fossem reféns delas. Quanto à historinha acima, é dever confessar que é muito fraca – mas que queria o leitor? Literatura policial é algo que exige inteligência e sagacidade não só do autor. Viceja apenas em ambientes onde sejam minimamente verossímeis as intuições sagazes e as deduções inteligentes. Como fazê-la prosperar no Brasil?

 
 
   
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