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Roberto
Pompeu de Toledo
Elementar, meu
caro Watson
Exclusivo!
Um Sherlock
Holmes
que nunca se viu, fruto de outro
meio ambiente
Contrariando
seus hábitos, Sherlock Holmes tinha acordado cedo naquela manhã
e tomava o café com o companheiro Watson quando lhe vieram dar
a notícia. Havia sido morto em circunstâncias misteriosas
um certo Charles Baskerville. O corpo fora encontrado num terreno baldio
nos arredores de São Paulo, próximo dos escritórios
do senhor X, um famoso, ainda que suspeito, potentado, amigo de políticos.
Não,
não há engano. A história se passa mesmo em São
Paulo. O Sherlock Holmes em questão tem dedos curtos, baixa estatura,
cabeça grande, barriga proeminente, pele morena e, por extenso,
chama-se Sherlock Holmes dos Santos. É brasileiríssimo.
O nome Watson de seu companheiro é prenome. Como se sabe, os brasileiros
têm especial predileção pelos prenomes de origem inglesa
e iniciados com W: Washington, Wellington, Wilson... Este se chama Watson
Cruz da Silva. A vítima tinha Charles Baskerville como pseudônimo,
não como nome verdadeiro. Aurélio Mendonça
este o verdadeiro nome fazia parte de um conjunto de rock e achava
que um nome "americano", como dizia, facilitaria sua projeção
internacional. Quanto aos métodos científicos de investigação
criminal desse Sherlock caboclo e do outro, célebre, o leitor julgará
por si no que coincidem e no que diferem.
"Que estão
fazendo esses aí?", começou nosso Sherlock, tão logo
chegou ao local do crime, notando a presença de três rapazes
de compleição franzina e pele escura. "Dotô, eu...",
um deles, vestindo camiseta com propaganda de candidato às eleições
de oito anos antes e bermudas furadas nas coxas, balbuciou. Sherlock cortou-o.
"Cuide deles, Watson", ordenou. Watson era um grandalhão de 2 metros
de altura, braços de halterofilista e óculos escuros. Começou
por empurrar os três rumo ao carro em que ele e Sherlock tinham
chegado. "Vamos andando, e quietinhos", dizia. Enfiou-os no banco de trás
e sumiu com eles. Sherlock agora passeava pelo local. Pisava no chão
junto ao corpo, chutava pequenos objetos. Nunca acreditara nessa história
de preservar a cena do crime. Sua escola era outra. Esticou a vista para
a construção fortificada que servia de escritório
do senhor X, na verdade um QG para as múltiplas operações
desse personagem. "Que maçada", pensou. "Por que foi acontecer
tão perto?"
Um repórter
aproximou-se. "Lá vem esse chato", disse Sherlock de si para si.
Ao mesmo tempo, armou um sorriso. Era mister não destratar a mídia.
"O senhor confirma que Charles Baskerville tinha entrado em conflito com
o senhor X?", perguntou o repórter. "Nada a declarar. As investigações
são sigilosas", respondeu Sherlock. O repórter tinha informações
de que Baskerville, nos últimos meses, diante do marasmo da carreira
no rock, se decidira por uma alternativa. Ingressara no promissor ramo
do tráfico de drogas. Ora, ocorre que o senhor X, embora ninguém,
em tempo algum, tenha conseguido provar nada, era tido como um dos chefões
do tráfico. "Vamos esperar", disse Sherlock, despachando o repórter.
"Você pode ter uma surpresa."
Três
dias depois, tem lugar a edificante cerimônia que, no jargão
do ramo, se intitula "apresentação do suspeito". No caso,
suspeitos, porque eram três. Adivinhou o leitor: aqueles três
que haviam sido detidos por Watson. Um apresentava hematoma no rosto.
Outro arrastava uma perna. O terceiro tremia sem parar. Os três
confessaram o crime, diante da imprensa, e confessaram de novo, e mais
confessariam, esse e outros crimes, se para tal fossem solicitados. Mais
um caso esclarecido. Quanto ao senhor X... "Vá lá agora",
ordenou Sherlock. "Ele disse que já separou a nossa parte." Watson,
que, como bom brutamontes, tinha o vezo das perguntas idiotas, indagou:
"Levo a mala?". Sherlock, sentado em sua poltrona predileta, as duas mãos
juntas nos dedos, respondeu, calmamente condescendente: "Claro. Isso é
elementar, meu caro Watson".
Os últimos acontecimentos desencadearam um clamor contra a situação
da segurança pública no país. Espera-se que a elucidação
do assassínio do prefeito Celso Daniel não venha a provocar
seu arrefecimento. O problema da segurança pública no Brasil
tem um nome: polícia. Como de outras vezes, acena-se com medidas,
algumas já velhas conhecidas, como o aumento de penas, outras surgidas
de novas fantasias, como a proibição dos celulares pré-pagos,
mas nunca se vai ao fundo da questão: a reforma da polícia.
Na verdade, e para corrigir uma injustiça, a polícia é
o problema número 2 da segurança pública. O número
1 são os dirigentes, do presidente aos governadores, dos ministros
aos secretários estaduais, que, diante das respectivas polícias,
são tomados de incurável paralisia, como se fossem reféns
delas. Quanto à historinha acima, é dever confessar que
é muito fraca mas que queria o leitor? Literatura policial
é algo que exige inteligência e sagacidade não só
do autor. Viceja apenas em ambientes onde sejam minimamente verossímeis
as intuições sagazes e as deduções inteligentes.
Como fazê-la prosperar no Brasil?
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