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Como na Chicago de
Capone
Cresce
nas grandes cidades brasileiras um poder paralelo que impõe suas
regras pela barbárie e impede a ação do governo
Ronaldo
França
O
Rio de Janeiro conseguiu equacionar um dos principais problemas de segurança
pública que afligem o país atualmente. Descobriu uma maneira
eficaz de combater os seqüestros, depois de amargar 108 ocorrências
num ano. Aconteceram apenas cinco em 2000 e nove no ano passado. Desmobilizou
quadrilhas, prendeu seus líderes e resgatou a confiança
da população quanto a esse tipo de crime. Bastaram a gerência
competente da força policial, o emprego das técnicas de
inteligência na investigação e o apoio da sociedade.
Portanto, é de espantar que, após essa demonstração
de competência, esteja justamente no Rio o terreno mais fértil
da inoperância do Estado em conter o poder paralelo que o tráfico
de drogas exerce nas favelas. Os morros cariocas tornaram-se territórios
sitiados pelo crime, que impõe a lei do silêncio a seus moradores,
dita as regras de conduta e cria uma justiça própria, avessa
às leis que regem a vida de todo o restante do país. E o
pior: esse mal começa a se alastrar.
O Estado
do Tráfico é totalitário e suas leis não estão
escritas em lugar algum. Quem desobedece às regras morre de maneira
exemplar. Há alguns anos, entrou em moda uma forma de execução
singelamente chamada de "microondas". A vítima é amarrada,
colocada dentro de uma pilha de pneus, encharcada de gasolina, e o restante
é desnecessário descrever. O poder do tráfico é
simbólico. A propaganda oficial desse governo paralelo há
muito tempo tomou os muros das favelas cariocas. Mas não tinha,
até então, a visibilidade que ganhou há três
semanas, quando integrantes do Terceiro Comando, a segunda maior organização
criminosa do Estado, instalaram numa creche pública da Zona Norte
da capital uma armação de neon com as iniciais de sua facção.
O carioca se acostumou a conviver com bandeiras no alto dos morros e outros
símbolos de domínio. Nos muros próximos ao Piscinão
de Ramos, a nova área de lazer popular do Rio, a mesma organização
já tinha estampado, havia algum tempo, as regras de conduta que
exige dos freqüentadores. Naquela área da cidade estava proibido
o uso de roupas vermelhas, por ser essa a cor da facção
rival, o Comando Vermelho, a primeira organização desse
tipo a surgir no Brasil. A polícia fluminense tratou de apagar
as inscrições, numa tentativa de demonstrar que ainda mantinha
a autoridade. O tiro saiu pela culatra quando os próprios bandidos
ignoraram o aviso e usaram o mesmo muro que antes anunciava a proibição
para revogar sua decisão.
"Há
uma dualidade legal nas centenas de favelas do Rio. Instalou-se um Estado
paralelo nessas áreas", afirma o prefeito carioca, Cesar Maia.
O raciocínio do prefeito está baseado na concepção
do Estado moderno, o modelo de organização social que surgiu
na Europa a partir do século XII em Portugal e se consolidou na
França com Luís XIV em que somente o Estado pode deter o
monopólio da força, da cobrança de tributos e da
aplicação das leis. Quando essas três atribuições
estão nas mãos de uma organização criminosa,
cria-se o poder paralelo. O exemplo mundialmente conhecido de como o crime
organizado pode apoderar-se de uma cidade inteira aconteceu em Chicago,
durante o período da Lei Seca, que vigorou entre 1920 e 1933. A
organização criminosa controlada por Al Capone não
só espalhou o medo e a violência pelas ruas da cidade, como
colocou na cadeira de prefeito, por três mandatos, o gângster
"Big Bill" Thompson. Institucionalizou a bandidagem. O alto poder de corrupção
da Máfia criou tentáculos na política, na Justiça
e na administração pública. O exemplo de Chicago,
assim como o da Colômbia de Pablo Escobar, é um alerta sobre
as conseqüências do desleixo na manutenção da
presença do Estado e de sua autoridade.
Começam
a proliferar no Brasil os sintomas de que a autoridade está doente.
Em São Paulo, a facção Primeiro Comando da Capital
(PCC) deu demonstrações de poder ao organizar, em fevereiro
do ano passado, 29 rebeliões simultâneas em cadeias do Estado.
Descobriu-se, mais tarde, que a organização operava um sistema
privado de comunicação integrado por no mínimo treze
centrais telefônicas, espalhadas por municípios paulistas,
capazes de permitir que 300 pessoas falem ao mesmo tempo. Não há
ainda sinais de outras cidades brasileiras em que a bandidagem tenha chegado
a tal nível, embora já existam em capitais como Porto Alegre
e Recife territórios dominados pelo tráfico de drogas.
Se a presença
de traficantes numa comunidade é nefasta, pode ter potencial explosivo
quando entra em contato com alguns indicadores sociais brasileiros. Uma
pesquisa da Secretaria Municipal de Trabalho do Rio de Janeiro e da Escola
Nacional de Estatísticas, do IBGE, revela que 55% dos jovens entre
15 e 24 anos que moram nas favelas cariocas estão fora da escola.
E, mais grave, 24% não estudam nem trabalham e já desistiram
de procurar emprego. É um contingente fabuloso de mão-de-obra
de reserva para o tráfico. O menino logo descobre que ficar em
cima de uma laje prestando atenção à chegada da polícia
pode render o dobro do que o pai ganha com o trabalho assalariado. Adicione-se
a essa equação um poderio bélico cada vez maior.
"Os bandidos estão armados com fuzis de guerra. Ninguém
precisa disso para vender drogas. O objetivo deles é a defesa de
seu território", afirma o coronel Romeu Ferreira, que durante quatro
anos comandou o centro de inteligência da polícia do Rio.
A combinação é letal: armas sofisticadas, financiamento
com o dinheiro de um mercado em que os lucros são crescentes e
mão-de-obra farta. Ou o Brasil acorda para o problema, ou cada
vez mais brasileiros serão jogados na estrada.

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