Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
Geral Especial
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
 

Os coloridos e elegantes hospitais da Rede Sarah
A temperatura sobe no planeta, mas cai na Antártica
Portugal e Espanha têm recorde populacional
Livro mostra distorções nos telejornais dos EUA

A malhação dos famosos em busca de um corpo fortão
O mutirão nacional para acabar com o crime

Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Como na Chicago de Capone

Cresce nas grandes cidades brasileiras um poder paralelo que impõe suas regras pela barbárie e impede a ação do governo

Ronaldo França

O Rio de Janeiro conseguiu equacionar um dos principais problemas de segurança pública que afligem o país atualmente. Descobriu uma maneira eficaz de combater os seqüestros, depois de amargar 108 ocorrências num ano. Aconteceram apenas cinco em 2000 e nove no ano passado. Desmobilizou quadrilhas, prendeu seus líderes e resgatou a confiança da população quanto a esse tipo de crime. Bastaram a gerência competente da força policial, o emprego das técnicas de inteligência na investigação e o apoio da sociedade. Portanto, é de espantar que, após essa demonstração de competência, esteja justamente no Rio o terreno mais fértil da inoperância do Estado em conter o poder paralelo que o tráfico de drogas exerce nas favelas. Os morros cariocas tornaram-se territórios sitiados pelo crime, que impõe a lei do silêncio a seus moradores, dita as regras de conduta e cria uma justiça própria, avessa às leis que regem a vida de todo o restante do país. E o pior: esse mal começa a se alastrar.

O Estado do Tráfico é totalitário e suas leis não estão escritas em lugar algum. Quem desobedece às regras morre de maneira exemplar. Há alguns anos, entrou em moda uma forma de execução singelamente chamada de "microondas". A vítima é amarrada, colocada dentro de uma pilha de pneus, encharcada de gasolina, e o restante é desnecessário descrever. O poder do tráfico é simbólico. A propaganda oficial desse governo paralelo há muito tempo tomou os muros das favelas cariocas. Mas não tinha, até então, a visibilidade que ganhou há três semanas, quando integrantes do Terceiro Comando, a segunda maior organização criminosa do Estado, instalaram numa creche pública da Zona Norte da capital uma armação de neon com as iniciais de sua facção. O carioca se acostumou a conviver com bandeiras no alto dos morros e outros símbolos de domínio. Nos muros próximos ao Piscinão de Ramos, a nova área de lazer popular do Rio, a mesma organização já tinha estampado, havia algum tempo, as regras de conduta que exige dos freqüentadores. Naquela área da cidade estava proibido o uso de roupas vermelhas, por ser essa a cor da facção rival, o Comando Vermelho, a primeira organização desse tipo a surgir no Brasil. A polícia fluminense tratou de apagar as inscrições, numa tentativa de demonstrar que ainda mantinha a autoridade. O tiro saiu pela culatra quando os próprios bandidos ignoraram o aviso e usaram o mesmo muro que antes anunciava a proibição para revogar sua decisão.

"Há uma dualidade legal nas centenas de favelas do Rio. Instalou-se um Estado paralelo nessas áreas", afirma o prefeito carioca, Cesar Maia. O raciocínio do prefeito está baseado na concepção do Estado moderno, o modelo de organização social que surgiu na Europa a partir do século XII em Portugal e se consolidou na França com Luís XIV em que somente o Estado pode deter o monopólio da força, da cobrança de tributos e da aplicação das leis. Quando essas três atribuições estão nas mãos de uma organização criminosa, cria-se o poder paralelo. O exemplo mundialmente conhecido de como o crime organizado pode apoderar-se de uma cidade inteira aconteceu em Chicago, durante o período da Lei Seca, que vigorou entre 1920 e 1933. A organização criminosa controlada por Al Capone não só espalhou o medo e a violência pelas ruas da cidade, como colocou na cadeira de prefeito, por três mandatos, o gângster "Big Bill" Thompson. Institucionalizou a bandidagem. O alto poder de corrupção da Máfia criou tentáculos na política, na Justiça e na administração pública. O exemplo de Chicago, assim como o da Colômbia de Pablo Escobar, é um alerta sobre as conseqüências do desleixo na manutenção da presença do Estado e de sua autoridade.

Começam a proliferar no Brasil os sintomas de que a autoridade está doente. Em São Paulo, a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) deu demonstrações de poder ao organizar, em fevereiro do ano passado, 29 rebeliões simultâneas em cadeias do Estado. Descobriu-se, mais tarde, que a organização operava um sistema privado de comunicação integrado por no mínimo treze centrais telefônicas, espalhadas por municípios paulistas, capazes de permitir que 300 pessoas falem ao mesmo tempo. Não há ainda sinais de outras cidades brasileiras em que a bandidagem tenha chegado a tal nível, embora já existam em capitais como Porto Alegre e Recife territórios dominados pelo tráfico de drogas.

Se a presença de traficantes numa comunidade é nefasta, pode ter potencial explosivo quando entra em contato com alguns indicadores sociais brasileiros. Uma pesquisa da Secretaria Municipal de Trabalho do Rio de Janeiro e da Escola Nacional de Estatísticas, do IBGE, revela que 55% dos jovens entre 15 e 24 anos que moram nas favelas cariocas estão fora da escola. E, mais grave, 24% não estudam nem trabalham e já desistiram de procurar emprego. É um contingente fabuloso de mão-de-obra de reserva para o tráfico. O menino logo descobre que ficar em cima de uma laje prestando atenção à chegada da polícia pode render o dobro do que o pai ganha com o trabalho assalariado. Adicione-se a essa equação um poderio bélico cada vez maior. "Os bandidos estão armados com fuzis de guerra. Ninguém precisa disso para vender drogas. O objetivo deles é a defesa de seu território", afirma o coronel Romeu Ferreira, que durante quatro anos comandou o centro de inteligência da polícia do Rio. A combinação é letal: armas sofisticadas, financiamento com o dinheiro de um mercado em que os lucros são crescentes e mão-de-obra farta. Ou o Brasil acorda para o problema, ou cada vez mais brasileiros serão jogados na estrada.

 
Veja também
O choque e a reação
É possível sair do caos
Para fugir à armadilha da simplificação
Lições de quem venceu os bandidos
O Brasil pode vencer o crime
"Eu seqüestro por 8 000 reais"
Cidade refém
Seqüestro: o sucesso do Rio de Janeiro
Como operam as quadrilhas
É preciso chamar a polícia
Como na Chicago de Capone
Só o pacto social vence a guerra

 

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS