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É possível sair do caosA
luta contra a criminalidade
Alexandre Secco
A criminalidade é um desses problemas brasileiros que atravessam décadas sem uma reação eficiente para domá-los. Para combater a inflação, foram necessários dez anos de tentativas dramáticas, quatro presidentes da República, nove ministros da Fazenda e meia dúzia de planos econômicos frustrados. A solução apareceu quando se chegou ao caos econômico e a um programa de combate à hiperinflação que reunia as medidas corretas e o apoio da sociedade. O mesmo parece estar ocorrendo com a criminalidade. O Brasil não agüenta mais, a sociedade se mobilizou e está fazendo pressão, as autoridades, embora ainda envolvidas num jogo de empurra-empurra, passaram a discutir seriamente a questão. O assassinato há uma semana do prefeito petista Celso Daniel, de Santo André, na Grande São Paulo, funcionou como a gota de sangue que faz o cálice transbordar. O brasileiro das grandes cidades tem medo de sair à noite, consegue apontar pessoas de seu relacionamento que já foram assaltadas ou seqüestradas e lê a todo momento notícias assustadoras sobre a insegurança que cerca o cotidiano de cada indivíduo, num momento em que o seqüestro já atinge a classe média e ganhou até uma modalidade chamada "overnight". É a operação que dura poucas horas e termina com a entrega de alguns magros trocados ao seqüestrador.
O Brasil, para chegar a uma conclusão óbvia, está fazendo muito pouco no combate ao crime e o pouco que faz é errado. O resultado não poderia ser outro. Cento e dez pessoas são assassinadas no Brasil todos os dias. Isso dá 40.000 mortes por ano. Para aferir o grau de contaminação da criminalidade no país, deve-se conhecer a única estatística que interessa nesse campo: quantas vidas poderiam ser "economizadas" se o Brasil conseguisse alcançar no campo da criminalidade o mesmo sucesso registrado no campo da estabilidade econômica. Seria irreal imaginar que o volume de assassinatos poderia despencar a zero. Nenhum país do mundo realizou tal proeza. Esse indicador "número de assassinatos por ano" , que é usado em comparações internacionais, inclui o total de homicídios praticados nas diversas nações sem levar em conta a motivação do criminoso. A morte pode se dar como conseqüência de uma briga de marido e mulher, por causa da disputa de vizinhos, confusão no trânsito ou resultado de assalto ou seqüestro.
Para lutar contra o crime, o Brasil dispõe de 500.000 homens nas polícias Militar, Civil e Federal. Não é pouca gente. Nas principais cidades brasileiras, a proporção entre policiais e a população é semelhante à de Nova York. O problema é a ineficiência. Nossos policiais formam entre os mais improdutivos do mundo. No tempo em que eles esclarecem um caso, seus colegas americanos desvendam nove e os ingleses resolvem catorze. É difícil imaginar performance pior, mas os especialistas asseguram que, se a polícia trabalhasse melhor e atingisse padrões de Primeiro Mundo, a Justiça entraria em colapso. Já se percebe que o problema é mais amplo do que aparenta. Seria necessário nomear dez vezes mais juízes e abrir cinco vezes mais vagas em prisões. Há razões para tão medíocre desempenho da polícia. Um policial militar em início de carreira ganha 1 000 reais por mês e só dobra os vencimentos se chegar a tenente. Os da polícia de Los Angeles são dez vezes mais altos. Com os salários oferecidos no Brasil é difícil atrair bons candidatos para a carreira. De arma na cintura, o policial brasileiro se comporta de maneira pouco apropriada. Em Nova York, no ano passado, a totalidade da força policial disparou 500 tiros 70 deles foram contra cães sem coleira enfurecidos. Apenas oito suspeitos foram mortos pela polícia. Em São Paulo, não há levantamento sobre o número de tiros disparados pela Polícia Militar, mas sabe-se que ela matou 400 pesssoas em confronto. Além disso, a tortura é o o principal método de investigação e a propina um hábito. Na semana passada, o governador Geraldo Alckmin esteve em Brasília para mostrar ao presidente Fernando Henrique Cardoso um pacote de medidas que nada mais são que um apanhado das providências citadas sempre que as autoridades querem demonstrar preocupação com a violência. Entre as treze propostas apresentadas, Alckmin não anunciou nenhuma ação para modernizar a polícia que dirige. A mais comentada foi a proibição do uso de telefone celular pré-pago, bastante empregado pelos bandidos nas transações de seqüestro. Na mesma linha, por que não proibir a utilização de computador, instrumento dos hackers? Na semana passada, VEJA conversou com diversos especialistas sobre quais são as medidas capazes de reduzir a criminalidade no país. Há um consenso em relação a sete delas, todas ligadas ao trabalho da polícia:
Os especialistas dizem que um país não se transforma no campo da criminalidade sem investimentos de caráter social para reduzir a desigualdade e a miséria. No entanto, todos concordam que o emprego dessas sete medidas poderia levar o Brasil não ao Primeiro Mundo, mas pelo menos até o Chile.
Com reportagem de Luis Henrique Amaral e Murilo Ramos
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