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O choque e a reação

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O
assassinato do prefeito Celso Daniel lança o Brasil numa mobilização
que pode finalmente reduzir a criminalidade no país
Fotos Patricia Santos/Folha Imagem

Celso
Daniel: a polícia não descarta nenhuma hipótese para sua morte brutal |

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Raras vezes
o Brasil se mobilizou tanto e tão rapidamente como na semana passada
ao saber do assassinato do prefeito Celso Daniel, do PT, da cidade de
Santo André, na Grande São Paulo. A execução
bárbara do prefeito na noite de sábado 19 chocou o país
quase instantaneamente. O assassinato tocou um nervo exposto mas profundo
da sensibilidade nacional. Por todo o Brasil, em meio às explorações
políticas de costume, os cidadãos das grandes cidades foram
às ruas pedir providências contra o crime, contra a impunidade
dos assassinos e para o começo de uma faxina nas polícias.
Não é a primeira vez que as capitais do país são
tomadas por passeatas pela paz ou contra a violência. Dessa vez
foi diferente, não apenas pela amplitude dos protestos ou pela
indignação sincera dos manifestantes. A diferença
foi que os gritos da rua da semana passada vieram acompanhados de uma
reação rápida das autoridades. Mesmo que atabalhoadas
num primeiro momento, as medidas anunciadas e a arregimentação
de governantes de todos os níveis, parlamentares e juízes
permitem supor que, ao contrário do que se viu no passado, desta
vez o país vai levar a sério o combate ao crime.
Numa
mostra clara do momento que o país atravessa, Luís Inácio
Lula da Silva, presidente de honra e eterno candidato do PT à Presidência,
foi ao Palácio do Planalto cobrar providências e ao mesmo
tempo oferecer ao presidente Fernando Henrique Cardoso sua ajuda para
um amplo programa de combate ao crime. A imagem do aperto de mãos
de Lula e FHC num momento de comoção nacional provocada
por um crime de grande repercussão pode entrar para a história
como um daqueles momentos transformadores. Eles são muito pouco
freqüentes. No ano passado, em menor intensidade, houve no racionamento
de eletricidade um mutirão semelhante que harmonizou medidas corretas
do governo com a vontade das pessoas de evitar a situação
pior de um país no escuro.

O
amigo Sérgio Gomes da Silva: pânico e contradições |
A morte do
prefeito sinaliza de modo trágico que ninguém está
a salvo. Nem mesmo os políticos, que muitos brasileiros julgam
viver num mundo encantado de favorecimentos e imunidades. Até o
presidente da República já teve seu carro particular roubado
duas vezes. O prédio onde Fernando Henrique tem um apartamento
em São Paulo também já foi assaltado. Num país
onde o assalto no semáforo se tornou rotina e o seqüestro
já faz vítimas na classe média, o assassinato de
Celso Daniel funcionou como o alarme estridente dando conta de que a explosão
da violência já foi longe demais.
Até
sexta-feira à noite não havia uma explicação
clara para a morte do prefeito de Santo André, seqüestrado
quando saía com um amigo de uma churrascaria em São Paulo
e assassinado 24 horas depois. Em virtude de outro crime de morte em que
a vítima foi um prefeito do Partido dos Trabalhadores, Antonio
da Costa Santos, o Toninho do PT, de Campinas, interior de São
Paulo, chegou-se a cogitar de uma conspiração política
destinada a matar integrantes do partido de Lula. A morte de Celso Daniel,
segundo essa interpretação, teria sido um crime político.
Os próprios líderes do PT, no entanto, admitem que essa
é a mais fraca das hipóteses a ser investigadas.
Outra possibilidade,
bem mais forte, é a de crime comum. Os seqüestradores teriam
abordado o carro em que estavam o prefeito e um amigo, o empresário
Sérgio Gomes da Silva, na esperança de seqüestrar e
fazer dinheiro com o resgate. Ao descobrirem que tinham levado um político
conhecido, cujo sumiço teve enorme repercussão, resolveram
simplesmente matá-lo, com receio de ser apanhados na gigantesca
operação de busca que se seguiria. Por fim, há dúvidas
a respeito dos depoimentos do amigo, dono da Mitsubishi Pajero blindada
que foi abordada pelos seqüestradores. Ele não foi levado
pelos bandidos. Na polícia contou uma história que depois
se revelou cheia de contradições. Silva, o melhor amigo
de Celso Daniel, disse aos policiais que as travas elétricas das
portas da Pajero se abriram sozinhas, depois de seu veículo ter
sofrido abalroamento pelos carros dos seqüestradores. Assim, os bandidos
teriam podido tirar o prefeito da Pajero e levá-lo para o cativeiro.
Silva disse também que desistiu de continuar tentando fugir dos
bandidos depois que a Pajero perdeu tração. Com os abalroamentos,
o motor teria girado em falso mesmo com as marchas engatadas. Os peritos
não conseguiram encontrar nem reproduzir os defeitos relatados
por Silva. "Eu não sou mecânico e não entendo nada
disso, mas tudo o que eu disse foi o que aconteceu", defendeu-se. Os policiais
dizem que esse tipo de confusão é consistente com o quadro
de pânico e terror vivido pelo empresário ao lado do amigo.
O engenheiro
e economista Celso Daniel, um dos políticos mais populares do PT,
tinha 50 anos. Ele conheceu Silva em 1988, em sua primeira campanha vitoriosa
à prefeitura de Santo André. Silva prosperou. De motorista
e segurança do prefeito, tornou-se empresário. Uma investigação
do Ministério Público de Santo André resultou num
dossiê de quarenta páginas em que os promotores descrevem
seu espanto com a súbita riqueza de Silva. Em quatro anos, sua
renda aumentou dez vezes. Segundo levantamento dos promotores, em 1996,
tinha rendimentos anuais de 30.000 reais. Em
2000, eram 300.000 reais. Há um complicador.
Silva é sócio de um certo Ronan Pinto, dono de três
empresas de ônibus e beneficiário de contratos milionários
com a prefeitura de Santo André, muitos deles investigados por
irregularidades. O próprio Silva foi investigado por ter recebido
272.000 reais de uma das empresas de coleta
de lixo de Ronan Pinto, a Rotedalli Serviços e Limpeza Urbana,
que na época tinha contratos de 1,7 milhão de reais com
a prefeitura de Santo André. Todos esses detalhes deverão
ser examinados pelos policiais envolvidos na elucidação
da morte de Celso Daniel. Eles não descartam a hipótese
de que o assassinato pode estar relacionado a interesses econômicos
contrariados pelo prefeito. Seja qual for o desfecho das investigações,
ele não atenuará a indignação demonstrada
pelos brasileiros na semana passada. Está claro que a sociedade
está disposta, como nunca, a colocar um limite à ação
criminosa no país.

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