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Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
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Ninguém chora

Sem confiança em Duhalde,
o FMI e os países ricos hesitam
em conceder empréstimos

Raul Juste Lores

 
Fotos Editorial Perfil
Menem nos bons tempos, com sua Ferrari, e, à direita, a nova esposa, Cecília: contas bloqueadas na Suíça

Quando as economias dos países emergentes ameaçaram entrar em colapso na década passada, os organismos internacionais e os governos de países ricos apressaram-se em acudir com empréstimos generosos, temerosos de que crises localizadas acabassem por detonar problemas globais. Não é o que está ocorrendo com a Argentina. Sufocado pela recessão, pelo calote da dívida externa e pela escassez de dinheiro no sistema bancário, o governo de Eduardo Duhalde tem seus apelos recebidos com indiferença. O Fundo Monetário Internacional (FMI), ao qual foi pedido 20 bilhões de dólares, recusa-se a entregar um sequer tostão enquanto o governo argentino não parar de gastar acima do que arrecada. "Não há sucesso sem sofrimento", disse friamente Horst Koehler, diretor-geral do FMI. Na terça-feira passada, foi a União Européia que advertiu Duhalde para que não discrimine empresas estrangeiras. No dia seguinte, o influente diário americano The Wall Street Journal partiu para a martelada final. Definiu a Argentina como uma "república bananeira".



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Esses poderosos dão-se ao luxo de ignorar o sofrimento dos argentinos porque a moratória da dívida externa e o colapso econômico do país foram previstos com tal antecedência que seus efeitos sobre o restante do mundo foram mínimos. Mas não é só isso. O FMI, o governo dos Estados Unidos e a União Européia estão convencidos de que a crise econômica decorre de maus costumes locais e que não há outra solução exceto uma reforma mais profunda que a monetária. Nas últimas cinco décadas, a governabilidade na Argentina dependeu do populismo e do corporativismo patronal e sindical. Para financiar esse esquema, o governo endividou-se até o pescoço. Desde que chegou ao poder, Duhalde rasgou contratos com empresas estrangeiras, quebrou o sistema bancário e tungou as economias daqueles que depositaram em dólares e agora vão receber em pesos. Bem ao estilo da velha-guarda peronista, recusa-se a frear a gastança nas províncias (uma das principais razões dos problemas do Tesouro Nacional), critica o "modelo de abertura econômica" e culpa o FMI pela situação da Argentina. "Não precisamos de ninguém que nos diga como devemos sofrer", mandou avisar seu chefe de gabinete, Jorge Capitanich.

O que Duhalde ainda não tem é um plano para reativar a economia – em seu quarto ano de recessão – e estabilizar o sistema bancário. Para piorar o descrédito em relação aos credores estrangeiros, na semana passada a Justiça da Suíça bloqueou duas contas bancárias em nome do ex-presidente Carlos Menem, num total de 10 milhões de dólares. A existência dessa dinheirama numa conta secreta reforça a sensação no exterior de que uma parte do dinheiro que chegou à Argentina – como empréstimo de bancos privados ou ajuda do FMI – sumiu pelo ralo da corrupção. Menem foi o presidente que adotou a paridade entre o peso e o dólar, artifício que permitiu derrotar a hiperinflação. Foi também quem deu início à modernização da economia e privatizou as estatais ineficientes. Mas usou e abusou do tradicional clientelismo peronista, numa orgia de gastança e rapina do dinheiro público.

No ano passado, esteve preso seis meses por envolvimento em contrabando de armamento para a Croácia e o Equador. As armas das Forças Armadas argentinas foram vendidas clandestinamente e 60 milhões de dólares "desapareceram" do total de 100 milhões da transação. Um ex-cunhado de Menem, Emir Yoma, foi preso pelo mesmo caso. Libertado, Menem foi passar sua lua-de-mel com a ex-miss Universo chilena Cecilia Bolocco em um luxuoso resort no México. A diária da suíte ocupada pelo casal é de 4.000 dólares. Nos dez anos e meio de governo Menem, a corrupção foi desenfreada – e boa parte do dinheiro que chegou com o vigoroso processo de privatização simplesmente evaporou-se. Menem sofre vários processos na Justiça, a maioria por enriquecimento ilícito ou compras superfaturadas. Pelo menos 130 altos funcionários de seu governo estão sendo processados por enriquecimento ilícito. Uma personagem que simboliza a década de farra com dinheiro público é María Julia Alsogaray, ministra responsável pelas privatizações da telefonia e da siderurgia, de quem se diz ter despertado a veia de conquistador em Carlos Menem. Dos bens avaliados em 10.000 dólares na declaração de renda de 1990, ela evoluiu para 2,5 milhões no ano passado. Com um salário de 4.000 dólares, a elegante ministra tinha um gasto médio de 7.000 dólares em cada um de seus seis cartões de crédito. Viajava constantemente para Paris e Nova York, onde comprou um apartamento em frente ao Central Park por 400.000 dólares. Também comprou um palacete de três andares do início do século XX na Recoleta, um dos bairros mais caros de Buenos Aires. Com uma turma assim, tinha mesmo de dar confusão no governo.



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