Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
Brasil Tocantins

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

Sucessão: Garotinho sobe e alcança Roseana
Tocantins: Os amplos laços partidários do governador
O apagão está acabando
Laudo não esclarece a morte de Cássia Eller

Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

A bancada dos Siqueira

O governador do Tocantins é
do PFL, joga para o PSDB,
tem filhos em outras legendas e
sonha com a Siqueirada no Senado



José Edward, de Palmas

 
Ana Araujo
O governador Siqueirão: gosto por eleições e presentes para os amigos

O governador do Tocantins, José Wilson Siqueira Campos, conhecido como Siqueirão, gosta de ter um pé em cada canoa. É por isso que ele pertence ao PFL, tem seu filho José Eduardo Siqueira Campos, o Siqueirinha, no PSDB, e duas filhas, Telma e Estela, uma no PTB e outra no PPB. Na semana passada, Siqueirão começou a acomodar-se na campanha presidencial. Embora a candidata de seu partido, Roseana Sarney, desponte nas pesquisas, ele mandou avisar ao tucano José Serra que está a sua disposição e até gostaria de ver o ministro da Saúde dando o pontapé inicial dos comícios lá em seu Estado. Outro plano de Siqueirão diz respeito à bancada do Tocantins no Senado, a qual ele pretende ver toda tomada pela família – além de eleger um amigo para o governo, mantendo, digamos, seu estilo de administração. Isso seria feito do seguinte modo: Siqueirinha, que já é senador e tem mais quatro anos de mandato pela frente, renunciaria ao posto deixando em seu lugar Telma, sua suplente e irmã. Para as duas vagas de senador a ser renovadas concorreriam, então, Siqueirinha e o próprio Siqueirão, que se desincompatibilizaria do cargo. O governador faz valer a frase que, por sua inspiração, está no brasão do Tocantins: "Esta terra é nossa".

No governo do Tocantins pela terceira vez – foi o primeiro governador, entre janeiro de 1989 e março de 1991, voltou ao cargo em 1995 e acabou reeleito no último pleito –, Siqueirão adora eleições. Tanto que entra, com sua turma, até na disputa pelo poder em entidades privadas, como a Ordem dos Advogados, o sindicato dos jornalistas, a federação de futebol, as associações de empresários e os diretórios de estudantes. Normalmente, ganha todas. Em seu Estado, ele tem o apoio de 126 dos 139 prefeitos, de 21 dos 24 deputados estaduais, de cinco dos oito deputados federais e de todo o trio de senadores. Como governou por nove dos treze anos de existência do Tocantins, ele também nomeou a maioria dos desembargadores e dos conselheiros do Tribunal de Contas. O desembargador Luiz Aparecido Gadotti, atual presidente do Tribunal de Justiça, conseguiu furar a fila de nomeações de magistrados. A pedido do governador, a Assembléia Legislativa mudou a lei, e o presidente anterior do tribunal, João Alves, cuidou para que o regimento do órgão também fosse alterado. Gadotti é sobrinho da ex-mulher de Siqueira. Sete dos onze desembargadores do Tocantins são aliados do governador. Como precisam submeter seus votos nos casos de liminar ao plenário do tribunal – coisa que não acontece em outros Estados –, os magistrados dificilmente vão aprovar uma medida contra ele. Na As-sembléia Legislativa, não havia painel eletrônico de votação até meados de 1997. Por isso, o governador conseguia controlar sua bancada mesmo nas votações secretas. Cada deputado aliado tinha seu símbolo – sol, lua, estrela, e assim por diante – e todos "assinavam" com sua marca as papeletas de votação.

Siqueirão é generoso com seus amigos. Deu, por exemplo, 1.500 hectares de terra ao ex-presidente da Infraero Adyr da Silva, responsável pela liberação de grande parte dos recursos que permitiram construir o Aeroporto Internacional de Palmas. No fim do ano passado, o deputado Freire Júnior, do PMDB, protocolou 25 representações em vários órgãos do Judiciário contra o governador. Uma delas acusa um superfaturamento nas obras do aeroporto, que custaram quase o dobro dos 40 milhões de reais inicialmente previstos. O governador afirma que os preços foram reajustados devido à ampliação da área do aeroporto e à introdução de equipamentos eletrônicos de última geração.

Uma coisa que chama a atenção é o enriquecimento de amigos próximos de Siqueira. O empresário goiano Ronaldo de Barros Barreto é um caso. Há quinze anos, Barreto era chefe de gabinete do presidente da Caixa Econômica Federal em Brasília e dava uma mão a quem precisasse defender interesses na instituição. Foi assim que conheceu e passou a trabalhar, desde meados dos anos 90, com o então prefeito de Palmas, o Siqueirinha. Segundo informa a Junta Comercial do Estado, Barreto já tem uma emissora de televisão, um jornal, uma gráfica, uma construtora, uma concessionária de veículos importados, uma empresa que aluga caminhões para o Estado, uma produtora de vídeo e uma indústria de asfalto. Dois outros amigos, ex-pilotos do governo estadual, os irmãos Jackson e Alberto dos Reis, acabaram se tornando proprietários de uma empresa de táxi aéreo. Justamente a que faz o serviço de transporte oficial no Tocantins, terceirizado por Siqueirão durante seu segundo mandato.

Siqueirão dá força aos empreendedores do Tocantins. Recentemente, ele cedeu 51% da empresa de saneamento, a Saneatins, a um grupo que se comprometeu a investir dinheiro na companhia. Pouco depois, o governo estadual fez um aporte de capital que reestatizou a empresa, numa jogada para que ela pudesse pleitear recursos a fundo perdido do Projeto Alvorada, do Ministério da Saúde. Percebendo a manobra, o ministério mandou entregar os recursos – cerca de 50 milhões de reais – diretamente aos 84 municípios beneficiados. Os prefeitos, então, mandaram a Brasília cartas informando que não tinham condições técnicas para realizar as obras. As cartas têm o mesmo texto e até o timbre do governo do Tocantins. A Saneatins, que está sendo reprivatizada com mais um aporte de capital, agora do lado da empreiteira que a assumiu, acabará tocando a maior parte das obras no interior e ficando com o dinheiro.

Siqueirão já distribuiu terras a preço de banana até para si mesmo. Sua mais nova empreitada foi a autorização para que um consórcio privado venda 20.000 lotes públicos nas proximidades de um lago que está sendo construído no entorno da capital, Palmas. O negócio movimentará dezenas de milhões de reais, mas a escolha do consórcio foi feita sem licitação. O governo terá direito a apenas 6% do valor arrecadado com a venda dos lotes. No ano passado, Siqueirão entregou, também sem licitação, para a empresa Nobre Express Viagens & Turismo duas pousadas ecológicas pertencentes ao governo do Estado. Uma das proprietárias da Nobre, Nara Rela, é a secretária de Turismo do Estado. O marido de Nara, João Carlos Rela, é um dos nomes do PFL que Siqueirão cogita para que concorra a sua sucessão.

Quando deputado, em 1977, Siqueirão foi lançador da candidatura de direita do general Sylvio Frota para a sucessão do presidente Ernesto Geisel. Governando o Tocantins, ergueu um memorial à Coluna Prestes sob protesto da historiadora Anita Leocádia, filha do líder do movimento, o comunista Luís Carlos Prestes. Agora, seu novo projeto é fazer em Palmas uma versão do Cristo Redentor 10% mais alta que a original, que tem 30 metros de altura. A obra do escultor Luiz Olinto de Paula Leite vai custar 5,9 milhões de reais ao Estado e terá outras duas diferenças em relação à do Rio de Janeiro. Uma serão os braços, que vão ficar estendidos para a cidade, em vez de abertos em cruz. A outra é que não estará no Corcovado e sim num monte próximo à capital. Um monte que se chama Morro do Governador.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS