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A bancada dos Siqueira
O governador
do Tocantins é
do PFL, joga para o PSDB,
tem filhos em outras legendas e
sonha com a Siqueirada no Senado

José Edward, de Palmas
Ana Araujo
 |
| O
governador Siqueirão: gosto por eleições e presentes
para os amigos |
O governador
do Tocantins, José Wilson Siqueira Campos, conhecido como Siqueirão,
gosta de ter um pé em cada canoa. É por isso que ele pertence
ao PFL, tem seu filho José Eduardo Siqueira Campos, o Siqueirinha,
no PSDB, e duas filhas, Telma e Estela, uma no PTB e outra no PPB. Na
semana passada, Siqueirão começou a acomodar-se na campanha
presidencial. Embora a candidata de seu partido, Roseana Sarney, desponte
nas pesquisas, ele mandou avisar ao tucano José Serra que está
a sua disposição e até gostaria de ver o ministro
da Saúde dando o pontapé inicial dos comícios lá
em seu Estado. Outro plano de Siqueirão diz respeito à bancada
do Tocantins no Senado, a qual ele pretende ver toda tomada pela família
além de eleger um amigo para o governo, mantendo, digamos,
seu estilo de administração. Isso seria feito do seguinte
modo: Siqueirinha, que já é senador e tem mais quatro anos
de mandato pela frente, renunciaria ao posto deixando em seu lugar Telma,
sua suplente e irmã. Para as duas vagas de senador a ser renovadas
concorreriam, então, Siqueirinha e o próprio Siqueirão,
que se desincompatibilizaria do cargo. O governador faz valer a frase
que, por sua inspiração, está no brasão do
Tocantins: "Esta terra é nossa".
No governo
do Tocantins pela terceira vez foi o primeiro governador, entre
janeiro de 1989 e março de 1991, voltou ao cargo em 1995 e acabou
reeleito no último pleito , Siqueirão adora eleições.
Tanto que entra, com sua turma, até na disputa pelo poder em entidades
privadas, como a Ordem dos Advogados, o sindicato dos jornalistas, a federação
de futebol, as associações de empresários e os diretórios
de estudantes. Normalmente, ganha todas. Em seu Estado, ele tem o apoio
de 126 dos 139 prefeitos, de 21 dos 24 deputados estaduais, de cinco dos
oito deputados federais e de todo o trio de senadores. Como governou por
nove dos treze anos de existência do Tocantins, ele também
nomeou a maioria dos desembargadores e dos conselheiros do Tribunal de
Contas. O desembargador Luiz Aparecido Gadotti, atual presidente do Tribunal
de Justiça, conseguiu furar a fila de nomeações de
magistrados. A pedido do governador, a Assembléia Legislativa mudou
a lei, e o presidente anterior do tribunal, João Alves, cuidou
para que o regimento do órgão também fosse alterado.
Gadotti é sobrinho da ex-mulher de Siqueira. Sete dos onze desembargadores
do Tocantins são aliados do governador. Como precisam submeter
seus votos nos casos de liminar ao plenário do tribunal
coisa que não acontece em outros Estados , os magistrados
dificilmente vão aprovar uma medida contra ele. Na As-sembléia
Legislativa, não havia painel eletrônico de votação
até meados de 1997. Por isso, o governador conseguia controlar
sua bancada mesmo nas votações secretas. Cada deputado aliado
tinha seu símbolo sol, lua, estrela, e assim por diante
e todos "assinavam" com sua marca as papeletas de votação.
Siqueirão
é generoso com seus amigos. Deu, por exemplo, 1.500 hectares de
terra ao ex-presidente da Infraero Adyr da Silva, responsável pela
liberação de grande parte dos recursos que permitiram construir
o Aeroporto Internacional de Palmas. No fim do ano passado, o deputado
Freire Júnior, do PMDB, protocolou 25 representações
em vários órgãos do Judiciário contra o governador.
Uma delas acusa um superfaturamento nas obras do aeroporto, que custaram
quase o dobro dos 40 milhões de reais inicialmente previstos. O
governador afirma que os preços foram reajustados devido à
ampliação da área do aeroporto e à introdução
de equipamentos eletrônicos de última geração.
Uma coisa
que chama a atenção é o enriquecimento de amigos
próximos de Siqueira. O empresário goiano Ronaldo de Barros
Barreto é um caso. Há quinze anos, Barreto era chefe de
gabinete do presidente da Caixa Econômica Federal em Brasília
e dava uma mão a quem precisasse defender interesses na instituição.
Foi assim que conheceu e passou a trabalhar, desde meados dos anos 90,
com o então prefeito de Palmas, o Siqueirinha. Segundo informa
a Junta Comercial do Estado, Barreto já tem uma emissora de televisão,
um jornal, uma gráfica, uma construtora, uma concessionária
de veículos importados, uma empresa que aluga caminhões
para o Estado, uma produtora de vídeo e uma indústria de
asfalto. Dois outros amigos, ex-pilotos do governo estadual, os irmãos
Jackson e Alberto dos Reis, acabaram se tornando proprietários
de uma empresa de táxi aéreo. Justamente a que faz o serviço
de transporte oficial no Tocantins, terceirizado por Siqueirão
durante seu segundo mandato.
Siqueirão
dá força aos empreendedores do Tocantins. Recentemente,
ele cedeu 51% da empresa de saneamento, a Saneatins, a um grupo que se
comprometeu a investir dinheiro na companhia. Pouco depois, o governo
estadual fez um aporte de capital que reestatizou a empresa, numa jogada
para que ela pudesse pleitear recursos a fundo perdido do Projeto Alvorada,
do Ministério da Saúde. Percebendo a manobra, o ministério
mandou entregar os recursos cerca de 50 milhões de reais
diretamente aos 84 municípios beneficiados. Os prefeitos,
então, mandaram a Brasília cartas informando que não
tinham condições técnicas para realizar as obras.
As cartas têm o mesmo texto e até o timbre do governo do
Tocantins. A Saneatins, que está sendo reprivatizada com mais um
aporte de capital, agora do lado da empreiteira que a assumiu, acabará
tocando a maior parte das obras no interior e ficando com o dinheiro.
Siqueirão
já distribuiu terras a preço de banana até para si
mesmo. Sua mais nova empreitada foi a autorização para que
um consórcio privado venda 20.000 lotes públicos nas proximidades
de um lago que está sendo construído no entorno da capital,
Palmas. O negócio movimentará dezenas de milhões
de reais, mas a escolha do consórcio foi feita sem licitação.
O governo terá direito a apenas 6% do valor arrecadado com a venda
dos lotes. No ano passado, Siqueirão entregou, também sem
licitação, para a empresa Nobre Express Viagens & Turismo
duas pousadas ecológicas pertencentes ao governo do Estado. Uma
das proprietárias da Nobre, Nara Rela, é a secretária
de Turismo do Estado. O marido de Nara, João Carlos Rela, é
um dos nomes do PFL que Siqueirão cogita para que concorra a sua
sucessão.
Quando deputado,
em 1977, Siqueirão foi lançador da candidatura de direita
do general Sylvio Frota para a sucessão do presidente Ernesto Geisel.
Governando o Tocantins, ergueu um memorial à Coluna Prestes sob
protesto da historiadora Anita Leocádia, filha do líder
do movimento, o comunista Luís Carlos Prestes. Agora, seu novo
projeto é fazer em Palmas uma versão do Cristo Redentor
10% mais alta que a original, que tem 30 metros de altura. A obra do escultor
Luiz Olinto de Paula Leite vai custar 5,9 milhões de reais ao Estado
e terá outras duas diferenças em relação à
do Rio de Janeiro. Uma serão os braços, que vão ficar
estendidos para a cidade, em vez de abertos em cruz. A outra é
que não estará no Corcovado e sim num monte próximo
à capital. Um monte que se chama Morro do Governador.
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