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Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
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O azarão está no páreo

Garotinho alcança Roseana
e embola a corrida sucessória

Daniela Pinheiro

 
Cristina Horta/Estado de Minas/AE
Ana Araujo
Garotinho e Roseana: as aparições na televisão catapultaram suas candidaturas

Quatro meses depois de as pesquisas de opinião revelarem o "fenômeno Roseana", surge um fato novo para embolar a sucessão presidencial. A grande novidade é a ascensão do governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PSB), de 41 anos, que saiu do fundo da bacia que reúne as intenções de voto dos brasileiros e encostou na pefelista Roseana Sarney na disputa pela segunda posição. Uma pesquisa realizada pelo Ibope, com exclusividade para VEJA, entre 17 e 21 de janeiro mostra que em um mês Garotinho saltou de 12% para 15%, enquanto Roseana praticamente estacionou, movendo-se de 17% para 18%. No vocabulário eleitoral, isso significa que a dupla está tecnicamente empatada – ou seja, a diferença entre os dois está dentro da margem de erro do levantamento. Outra prova de sua musculatura é que Garotinho aparece na periferia com 1 ponto porcentual à frente de Luís Inácio Lula da Silva. É uma marca nunca obtida por nenhum oponente do petista. Até aqui, a briga eleitoral estava polarizada entre Roseana e Lula, que continua na dianteira da corrida presidencial com 28% das preferências, 2 pontos a menos que o registrado em dezembro. "A partir de agora, o 'fator Garotinho' impõe uma nova realidade: não se sabe mais quem está em segundo", afirma Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope.

Garotinho entrou no páreo como um azarão. Sua candidatura vinha sendo discretamente estimulada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso como uma maneira de conter um eventual crescimento de Lula. No entanto, outro dado pode mudar os humores palacianos em relação ao governador. Pelo levantamento do Ibope, a oficialização da candidatura de José Serra (PSDB), ocorrida há duas semanas, não empolgou. O ministro se manteve congelado com um índice de 7% dos votos, mesmo porcentual obtido por ele em dezembro. É importante ressaltar que a pesquisa foi realizada entre o dia do lançamento da candidatura Serra e a segunda-feira passada, já depois do brutal assassinato do prefeito de Santo André, o petista Celso Daniel. "A época para crescer é durante o horário eleitoral na televisão. Antes disso, tudo é perfumaria", desdenha o publicitário Nelson Biondi, marqueteiro do tucano. "Ainda temos muito tempo." Ciro Gomes e Itamar Franco estão em escalada descendente. O primeiro caiu de 12% para 7% nos últimos quatro meses. E o governador de Minas Gerais despencou: aparece com 5%, metade do que possuía em setembro.

 
Ana Araujo

Serra: mesmo assumindo a candidatura, ele continua com 7% das preferências

Naturalmente, ninguém é vencedor, em janeiro, de uma eleição que se disputa em outubro, seja lá quais forem os números das pesquisas. Basta examinar um dos elementos centrais da ascensão de Roseana e Garotinho. Ambos subiram com mais vigor depois de aparecer na propaganda eleitoral em horário nobre na televisão. Assim, o andar das campanhas, com debates, denúncias e outros elementos, pode alterar o panorama das pesquisas. Entretanto, os índices possibilitam vislumbrar, entre outros fatores, o peso real das alianças partidárias. Até aqui, tudo indica que, se quisessem repetir a dobradinha PSDB/PFL, os candidatos cresceriam, mas não a ponto de alterar significativamente o resultado. Numa das simulações do Ibope, José Serra aparece como candidato do governo, coligado ao PFL. Ele sobe 3 pontos porcentuais, chegando aos 10%. Lula e Garotinho permanecem em seus patamares. No caso de Roseana ser o nome do governo, em uma coligação com o PSDB, ela sobe 1 ponto porcentual. No que diz respeito ao segundo turno, o Ibope revela que, se as eleições fossem hoje, Roseana seria a única a bater Lula. Teria 46% dos votos, contra 39% do petista. Mais uma vez chama a atenção o bom desempenho de Garotinho, que contaria com 39%, contra 43% de Lula.

Agenda pesada – No Rio, Garotinho tem cerca de 35% das intenções de voto. Sua administração é considerada satisfatória por 86% da população. Mesmo os adversários reconhecem o poder de fogo do governador fluminense. "É um candidato perigoso. Sua mulher, Rosinha, é articulada e pode ajudar. Ele também pega um eleitorado grande, da esquerda à direita. E tem os números do Estado para mostrar", diz Nelson Biondi. Garotinho protagonizou em dezembro um programa de dez minutos na TV e fez quarenta inserções comerciais de trinta e sessenta segundos em janeiro. No programa de dezembro, falou sobre salário mínimo. Salientou que, enquanto em outros Estados ele é de 180 reais, no Rio está em 240 reais. Também promoveu o restaurante popular que seu governo montou no Rio, onde o prato de comida sai por 1 real. E, finalmente, apareceu rodeado por seus nove filhos.

Segundo a pesquisa do Ibope, o grosso do eleitorado de Garotinho é formado por mulheres, jovens entre 16 e 24 anos e com renda mensal entre cinco e dez salários mínimos. Sem falar no segmento dos evangélicos, estimado em 20 milhões de pessoas e sempre muito cortejado pelo governador, que também é evangélico e faz questão de apregoar sua fé em público. Paralelamente às aparições na TV, Garotinho vem cumprindo uma pesada agenda de pré-candidato. Mesmo quando ainda ostentava magros 7% das preferências, ele passou a viajar pelo país. Entre outubro e novembro, visitou dezesseis Estados. Ex-locutor de rádio e ex-animador de televisão, Garotinho tem ótima cancha como comunicador. E faz questão de falar no rádio por onde quer que vá – sempre com um discurso de forte tintura populista. Chega a participar de quatro programas em cada cidade que visita. Na semana passada, esteve no Recife e em Belo Horizonte. "Sou o único que bate na taxa de juros com vocabulário popular. Em vez de falar de juros, eu digo: se a senhora for comprar um fogão em doze vezes, só o que vai pagar para dividir o valor dá para comprar mais dois fogões. Isso não pode continuar", diz, explicando sua técnica de se comunicar com o povão. Pesa também a seu favor um baixo índice de rejeição, 14%, o mesmo de Serra, e um pouco mais do que o de Roseana (11%).

Na semana passada, um telefonema da governadora Roseana Sarney ao ministro José Serra gerou uma avalanche de especulações. Na conversa, Roseana convidou Serra para um jantar nesta quarta-feira. Os mais apressados viram um sinal de que a governadora estaria abrindo caminho para imediatamente compor uma chapa com Serra. "Foi um mero gesto de gentileza, que mostra que ela é uma candidata da base governista", diz Saulo Queiroz, secretário-geral do PFL. Evidentemente, PSDB e PFL têm chances de apresentar uma só candidatura às eleições, mas existe um impasse: a cabeça de chapa não está definida. O alto comando do PFL, em peso, negou qualquer intenção de que Roseana estivesse pronta a desistir em favor de Serra. Pior: os pefelistas atribuíram a distorção na conversa a partidários do ministro. Em defesa de Roseana, os pefelistas dizem que a governadora está realizando o que eles chamam de "operação simpatia". No mesmo dia em que chamou Serra para conversar, Roseana ligou para o ministro Pratini de Moraes, pré-candidato do PPB, e para o presidente do PMDB, Michel Temer. Disse o que vem dizendo a todos eles: existe possibilidade de aliança mais para a frente e o inimigo comum é Lula. "A interpretação de que a governadora estava desistindo foi divulgada pelo pessoal do Serra. Isso não é verdade", diz o senador Edison Lobão, do PFL.

Roseana jantou na quarta-feira com o presidente Fernando Henrique no Palácio da Alvorada. O encontro potencializou os boatos sobre a aliança já. Existem dois fatos que fundamentam a tese de que Roseana não está pensando em "jogar a tolha". Na semana passada, o programa do PFL de vinte minutos, que irá ao ar em 31 de janeiro, estava sendo regravado em São Paulo. O comando da candidatura de Roseana resolveu aumentar o espaço dedicado ao assunto segurança. Houve participação do senador Romeu Tuma e do deputado Moroni Torgan, autor de um plano de segurança que foi entregue ao Ministério da Justiça. Outro ponto foi a conversa com Fernando Henrique. De acordo com um interlocutor do presidente, a governadora estava bastante animada com a candidatura e não demonstrou nenhuma intenção de sair da disputa. No jantar com FHC, Roseana pediu ainda "eqüidistância" ao presidente. Ela quer receber dele o mesmo tratamento que dá à candidatura de José Serra, já que ambos são igualmente ligados aos partidos de sustentação do governo. Também pediu tratamento melhor no Orçamento. A candidata acha que vem sendo prejudicada na distribuição de verbas federais, entre elas as do campo da saúde, território dominado pelo rival Serra.

Os pefelistas citam as pesquisas como fator fundamental para o prosseguimento da candidatura de Roseana. Enquanto ela estiver com uma diferença tão gritante, não há acerto possível no sentido de aceitar o lugar de vice numa chapa encabeçada por Serra. A cúpula pefelista admite uma união com o PSDB, mas desde que exista um acordo. Se o ministro estiver mal nas pesquisas em maio, o PFL quer os tucanos na candidatura Roseana. O problema é exatamente esse. Nas conversas entre representantes dos dois partidos, inclusive com a presença de Serra, fica claro que o PSDB não vem cogitando o apoio a Roseana como hipótese concreta. "Se a escolha do candidato for atrelada ao desempenho na pesquisa, é melhor a gente indicar o Roberto Carlos. Ele faz sucesso há trinta anos, já tem jingle pronto e 1 milhão de amigos", diz Jutahy Júnior, líder do PSDB na Câmara dos Deputados.

Também na semana passada os tucanos intensificaram o contato com o PMDB. Nomes de peso na sigla admitiram que o lançamento de um candidato próprio é difícil e acenaram com apoio a Serra. O namoro entre PSDB e PMDB é antigo. Foi a articulação dos dois partidos que tirou o PFL da presidência da Câmara, elegendo o tucano Aécio Neves para o cargo, e colocou Jader Barbalho na chefia do Senado. Na ocasião, Serra teve atuação fundamental. Ligou até o último dia para pedir votos aos parlamentares na dobradinha Aécio-Jader. Ciente dessa aproximação, o PFL e Roseana vêm tentando atrapalhar o jogo de aproximação entre os concorrentes. Primeiro, porque deseja o apoio do PMDB. Os dois maiores peemedebistas defensores da união do partido com o PFL são o ex-presidente José Sarney, por motivos óbvios, e o senador Renan Calheiros. A segunda razão é que, se Roseana cair nas pesquisas, o PFL almeja um lugar de honra numa aliança com o PSDB, e não quer ver esse posto ocupado pelo PMDB. Por enquanto, porém, o jogo continua na mesma base. Roseana pretende concorrer com Serra no primeiro turno, a menos que caia muito nas pesquisas. Acha delirante a idéia de um candidato com 18%, como ela, aceitar a posição de vice numa chapa de outro candidato com 7%, caso de Serra. A governadora foi além num trocadilho com a campanha da Embratel, apresentada por Ana Paula Arosio. "Serra, faça primeiro um 21 e depois a gente conversa", provocou ela.

 

 

Com reportagem de Maurício Lima

 
 

 

A última rodada

O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, é a grande surpresa da nova pesquisa do Ibope. Ele está tecnicamente empatado com Roseana Sarney1. O quadro mostra a trajetória dos candidatos à sucessão presidencial de setembro do ano passado até agora, segundo a intenção de voto

 

(1) Só foram computados os candidatos incluídos nas quatro pesquisas

 

   
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