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Não vou desanimar
Piloto
italiano que perdeu as pernas
em corrida dá aula de otimismo, diz
que acidente foi lição de vida e que
se pudesse seria piloto de novo
Gabriela
Carelli

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O piloto
italiano Alessandro Zanardi passou catorze de seus 35 anos nas pistas
de alta velocidade. Foi contemporâneo de Ayrton Senna na Fórmula
1, defendeu a escuderia da Williams e tornou-se bicampeão na Fórmula
Mundial, a antiga Indy. Famoso e milionário seus rendimentos
anuais ultrapassavam os 6 milhões de dólares , pretendia
abandonar o automobilismo no final da temporada de 2001. Em 15 de setembro,
a cinco corridas da aposentadoria, concluiu a carreira de forma trágica.
Faltavam doze voltas para o fim do Grande Prêmio de Lausitz, na
Alemanha, quando seu carro foi atingido por outro a 320 quilômetros
por hora. O impacto partiu o Honda-Reynard ao meio. Zanardi sobreviveu,
mas teve as duas pernas amputadas. Quatro meses após o acidente,
o piloto virou exemplo de força de vontade. Otimista e esforçado,
passa mais da metade do dia em centros de recuperação, faz
ginástica e dirige um carro adaptado. O restante das horas dedica
à mulher, Daniela, ao filho, Niccolò, de 3 anos, e a suas
plantas. De reclamações, só tem uma: "Faço
tudo muito devagar. Sou piloto, gosto de velocidade em tudo", diz ele,
com bom humor. Zanardi falou a VEJA de sua casa, em Bolonha.
Veja
Desde o acidente, o senhor tornou-se um exemplo de otimismo e força
de vontade. De onde tirou forças para reagir à perda das
duas pernas?
Zanardi
Antes do acidente, eu olhava com compaixão, com pena, para as pessoas
que hoje são como eu. Não achava possível ter uma
vida feliz sem um corpo perfeito, completo. Depois de perder as pernas,
mas não a vida, minha percepção mudou totalmente.
Estive muito perto de morrer. Se a batida fosse 30 centímetros
para trás, eu estaria perdido. Manter o otimismo e suar bastante
na fisioterapia é o melhor que posso fazer hoje. É uma perspectiva
e tanto num caso como o meu. Acidentes como aquele raramente deixam sobreviventes.
Não posso reclamar. Tenho, na verdade, de agradecer. Quero agora
viver com intensidade
Veja
O senhor esbanja bom humor em aparições públicas
e até brincou com a própria deficiência, dizendo que
suas pernas tremiam de felicidade. O senhor acredita que essa atitude
ajuda pessoas com problemas parecidos?
Zanardi
Eu
não sou um professor nem tenho pretensão de ser. Mas será
motivo de orgulho para mim se alguém acompanhar meus avanços
e tirar proveito deles. Para dizer a verdade, não penso muito nas
mensagens que posso passar. Tudo é ainda muito recente. Estou viajando
numa nova rota, não sei o que vai acontecer, tudo é muito
nebuloso. Não tenho a experiência de pessoas como o ator
Christopher Reeve, que ficou tetraplégico num acidente hípico.
Ele escreveu um livro porque já vivenciou muito de seu drama. O
que mais penso e do que mais me orgulho é que, nos últimos
tempos, tenho encontrado pessoas como eu com a mesma determinação.
Só que elas não estão nas páginas dos jornais
nem na televisão. Por isso são os verdadeiros heróis.
Eu é que estou aprendendo com elas.
Veja
Logo após deixar o hospital, o senhor dirigiu de Mônaco
até Bolonha num carro adaptado, numa viagem de 450 quilômetros.
Por quê?
Zanardi
Voltar para casa ao volante de um carro me ajudou bastante. Estava cheio
de dúvidas, não sabia o que podia fazer ou não. Passei
46 dias no hospital, cinco deles em coma. Dirigir novamente foi ótimo,
pois me senti uma pessoa normal. Pilotava e conversava com minha mulher.
Olhava para o retrovisor e via meu filho dormindo. Foi certamente isso
que me fez repensar sobre minha situação e encarar os problemas.
Veja
O senhor sofreu um acidente grave em 1993, na Fórmula 1, e assistiu
a vários acidentes. Isso não o motivou a abandonar tudo?
Zanardi
No meu outro acidente, senti o medo, mas não sofri nada. Um acidente
que me chocou e certamente me fez pensar sobre minha carreira foi o de
Ayrton Senna. Foi muito chocante. Senna era um símbolo para todos
nós, não só pela forma como dirigia, mas pelo seu
jeito de ser. De repente, perdeu a vida. Fazia então bastante tempo
que ninguém morria em acidentes na Fórmula 1. Naquele fim
de semana foram dois pilotos, dois amigos, Senna e Roland Ratzenberger.
Foi uma loucura entre nós. Cada um reagiu de forma diferente, mas
ninguém deixou de sentir o drama, de se questionar, de pensar na
sua família.
Veja
O senhor tem momentos de depressão?
Zanardi
Tenho
de admitir que fico mal muitas vezes, com sentimentos nostálgicos.
Quando chego em casa, vindo do centro de tratamento, e vejo alguém
praticando jogging, sinto inveja. Lembro-me de quando corria 10 quilômetros
por dia. Isso acabou. Nunca mais vou correr. É fato. Quanto à
inveja, esse é um desafio que tenho de vencer. Tenho de me conformar
que o impossível, o milagre, não vai acontecer. Caminhar,
quem sabe. Correr, isso só em sonhos.
Veja
O acidente mudou sua relação com a família?
Zanardi Não
amo minha família mais ou menos do que amava antes. Mas agora tento
aproveitar cada momento. As tardes de brincadeiras com meu filho, Niccolò,
são mais intensas, mais longas. O mesmo acontece no relacionamento
com minha mulher, Daniela. Quando acidentes como o meu ocorrem, caímos
de um pedestal. Percebemos que perder o que se tem é muito fácil,
que estamos sempre perto de perder algo.
Veja
Como está sua recuperação?
Zanardi
Infelizmente,
os médicos dizem que não há grandes esperanças
para casos como o meu. Perdi uma das pernas acima do joelho e outra, logo
abaixo da articulação. O que sobrou é pouco, mas
o bastante para estimular alguns impulsos nervosos que permitem a locomoção.
Não desanimo. Estou com os melhores profissionais e no melhor lugar
para progredir. Decidi vir para Bolonha, onde nasci, onde vive minha mãe,
porque aqui estou na minha terra, num lugar em que me sinto bem. Todas
as manhãs vou ao centro de tratamento, onde reaprendo a andar com
pernas mecânicas, com a ajuda de muletas. Às vezes fico andando
em círculos. Tenho ainda de fazer as mais variadas terapias para
recuperar os músculos danificados das pernas.
Veja
É muito difícil conviver com as próteses?
Zanardi
É um relacionamento difícil. Afinal, elas não são
minhas. Mas são elas ou nada. É com essas pernas artificiais
que tenho de aprender a viver. De qualquer forma, são as mais sofisticadas
que o dinheiro pode comprar. Vou com elas à ginástica, tomo
café com minhas pernas, vou com elas ao jardim. A pior parte é
quando tenho de tirá-las antes de dormir, ou a hora de colocá-las
ao levantar. Tudo é muito estranho, mas em breve, muito breve,
saberei usá-las com perfeição e poderei fazer tudo
por mim mesmo. Hoje, ainda dependo da cadeira de rodas.
Veja
Qual a parte mais difícil de suportar na sua recuperação?
Zanardi
Tudo
é difícil. O que vou dizer pode parecer brincadeira. Mas
o maior problema é que tudo é muito lento. Estou dirigindo
carros adaptados, o que me dá mobilidade. Mas tenho de abrir a
porta traseira, pular dentro do carro, fechar a cadeira de rodas, ir pulando
até o banco do motorista. Leva um tempão. Logo eu, que sempre
gostei de tudo rápido. Hoje demora uma infinidade até para
lavar o rosto pela manhã. Sou piloto, gosto de velocidade em tudo.
Alguns dos melhores momentos da minha vida aconteceram a 400 quilômetros
por hora.
Veja
Em algum momento o senhor achou ter perdido o sentido da vida por ter
de abandonar as pistas?
Zanardi
Nunca. Eu era, talvez ainda seja, um piloto de muita sorte. Sempre tive
a sensação de que era muito sortudo por estar correndo.
Muitos jovens como eu, corredores, nunca tiveram a chance que eu tive.
Não só por talento, mas por oportunidade. Eu me sinto satisfeito.
Não tenho frustrações. Fiz muitas corridas, todas
as que eu quis, não ficou nada faltando na minha carreira. Em dois
anos na Fórmula Mundial foram quinze vitórias, dez poles
e 28 pódios. Tenho certeza de que ainda vou encontrar um modo de
suprir a falta das pistas.
Veja
Logo depois de deixar o hospital, o senhor declarou que gostaria de
voltar a pilotar. Ainda pensa assim?
Zanardi
Não. Correr de novo não é exatamente o que importa.
Primeiro porque é muito difícil saber o que é possível
ou não. Meu sonho é que um dia eu consiga melhorar tanto
minha condição que eu possa fazer a minha escolha. Voltar
a ter capacidade de escolher se eu quero correr ou não. A capacidade
de escolha é daquelas dádivas às quais não
damos valor. Mas é o que faz a vida valer a pena. Isso é
o principal para todo ser humano.
Veja
O senhor se recorda do acidente?
Zanardi
Não me lembro de nada do que aconteceu desde a batida. Só
a partir do momento em que acordei do coma. Minhas condições
eram muito ruins. Só queria esquecer a dor. Minha mulher se aproximou
e contou do acidente. Explicou minhas possibilidades. Não me deu
tempo para lamentações, para refletir sobre essa situação
tão absurda para mim. Prometemos que encontraríamos um caminho
e é isso que estou fazendo. Depois pedi a Daniela para dormir.
Precisava, antes de pensar na vida, descansar.
Veja
O automobilismo é um esporte de risco. O senhor e seus colegas
estão preparados para fatos como esse?
Zanardi
Quando
alguém perde a vida nas pistas de corrida, lembram que se trata
de um esporte de risco. É, realmente, mas não tão
mais arriscado que dirigir nas rodovias. Ou um avião pilotado por
um terrorista derrubar o prédio onde você está trabalhando.
Os pilotos são como os trabalhadores. Entram no carro e pensam
que é só mais um dia. Não pensamos nisso o tempo
todo. Na verdade, nunca pensei que aconteceria.
Veja
O senhor acredita que seu acidente poderia ter sido evitado?
Zanardi
Meu
acidente foi má sorte. Eu sou um piloto e sou bom nisso. O carro
derrapou, girou na pista. Tudo foi tão rápido que Alex Tagliani
(que pilotava o carro envolvido no acidente) não podia desviar
de mim.
Veja
O senhor criticava a falta de segurança na Fórmula 1
e elogiava a da Mundial. Continua considerando que ela é mais segura?
Zanardi Na
Fórmula 1 assumimos riscos muito maiores. É o preço
que se paga para ser mais famoso e ter maior velocidade. Como se trabalha
com pneus menos aderentes, se fugimos da trajetória normal o carro
sai da pista sem controle. Uma freada e pronto: há 99% de possibilidade
de uma batida grave. Na Mundial podemos fazer manobras mais arrojadas,
como frear 2 ou 3 metros antes da curva sem que isso se transforme numa
tragédia. No caso do meu acidente, foi tudo muito imprevisível.
O piloto que vinha na minha direção não pôde
me avistar a tempo. Era impossível mudar a direção
por mais bem aparelhado que ele estivesse. É aquela velha história
de destino.
Veja
O senhor deixaria seu filho, Niccolò, de 3 anos, seguir a carreira
de piloto?
Zanardi
Num primeiro momento, não. O perigo, apesar de nós pilotos
não sentirmos isso no dia-a-dia, é evidente para quem está
de fora. Ainda mais depois de tudo o que passei. Mas eu o respeitarei.
Se ele quiser, será um piloto.
Veja
O senhor tem alguém em quem se espelha para continuar sua luta?
Zanardi
Admiro o piloto Clay Regazzoni. Num Grande Prêmio de Long Beach
ele ficou sem freio e fraturou a espinha. Desde então, já
participou até do rali ParisDacar. Ele deixou de se emocionar
nas pistas, mas conseguiu suprir isso. Eu ainda não sinto falta
da emoção, da hora da vitória, porque estou muito
ocupado. Mas isso vai acontecer. Vamos ver o que vou fazer, então.
Veja
O senhor já voltou a um autódromo desde o acidente?
Zanardi
Não fui porque ainda não posso. Será muito difícil
fazer isso. Mas não acho que quando estiver lá terei sentimentos
ruins. Não tenho medo de ver outra corrida. Sou, antes de tudo,
um realista. Planejo ir para Long Beach neste ano. Estarei lá assistindo
a tudo. Vou apoiar meus amigos. Afinal, é o meu mundo. Não
vou fugir do meu passado. Vou aprender a conviver com ele. Talvez de longe.
Veja
O senhor conquistou fama e dinheiro como piloto, já tinha
até anunciado a aposentadoria. Sua carreira valeu a pena ou está
arrependido?
Zanardi
Não
me arrependo de jeito nenhum. Em 35 anos de vida fiz muito mais coisa
do que a maioria das pessoas. Tenho centenas de carimbos no meu passaporte,
conheci o mundo, falo três línguas fluentemente. O melhor
de tudo é que tenho uma grande vida pela frente. O que está
feito está feito. E afirmo que, se tivesse de voltar no tempo,
faria a mesma escolha. Seria piloto.
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