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Edição 1 736 - 30 de janeiro de 2002
Entrevista: Alessandro Zanardi

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Não vou desanimar

Piloto italiano que perdeu as pernas
em corrida dá aula de otimismo, diz
que acidente foi lição de vida e que
se pudesse seria piloto de novo

Gabriela Carelli


Acesso rápido
Páginas amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

O piloto italiano Alessandro Zanardi passou catorze de seus 35 anos nas pistas de alta velocidade. Foi contemporâneo de Ayrton Senna na Fórmula 1, defendeu a escuderia da Williams e tornou-se bicampeão na Fórmula Mundial, a antiga Indy. Famoso e milionário – seus rendimentos anuais ultrapassavam os 6 milhões de dólares –, pretendia abandonar o automobilismo no final da temporada de 2001. Em 15 de setembro, a cinco corridas da aposentadoria, concluiu a carreira de forma trágica. Faltavam doze voltas para o fim do Grande Prêmio de Lausitz, na Alemanha, quando seu carro foi atingido por outro a 320 quilômetros por hora. O impacto partiu o Honda-Reynard ao meio. Zanardi sobreviveu, mas teve as duas pernas amputadas. Quatro meses após o acidente, o piloto virou exemplo de força de vontade. Otimista e esforçado, passa mais da metade do dia em centros de recuperação, faz ginástica e dirige um carro adaptado. O restante das horas dedica à mulher, Daniela, ao filho, Niccolò, de 3 anos, e a suas plantas. De reclamações, só tem uma: "Faço tudo muito devagar. Sou piloto, gosto de velocidade em tudo", diz ele, com bom humor. Zanardi falou a VEJA de sua casa, em Bolonha.

Veja – Desde o acidente, o senhor tornou-se um exemplo de otimismo e força de vontade. De onde tirou forças para reagir à perda das duas pernas?
Zanardi – Antes do acidente, eu olhava com compaixão, com pena, para as pessoas que hoje são como eu. Não achava possível ter uma vida feliz sem um corpo perfeito, completo. Depois de perder as pernas, mas não a vida, minha percepção mudou totalmente. Estive muito perto de morrer. Se a batida fosse 30 centímetros para trás, eu estaria perdido. Manter o otimismo e suar bastante na fisioterapia é o melhor que posso fazer hoje. É uma perspectiva e tanto num caso como o meu. Acidentes como aquele raramente deixam sobreviventes. Não posso reclamar. Tenho, na verdade, de agradecer. Quero agora viver com intensidade

Veja – O senhor esbanja bom humor em aparições públicas e até brincou com a própria deficiência, dizendo que suas pernas tremiam de felicidade. O senhor acredita que essa atitude ajuda pessoas com problemas parecidos?
Zanardi – Eu não sou um professor nem tenho pretensão de ser. Mas será motivo de orgulho para mim se alguém acompanhar meus avanços e tirar proveito deles. Para dizer a verdade, não penso muito nas mensagens que posso passar. Tudo é ainda muito recente. Estou viajando numa nova rota, não sei o que vai acontecer, tudo é muito nebuloso. Não tenho a experiência de pessoas como o ator Christopher Reeve, que ficou tetraplégico num acidente hípico. Ele escreveu um livro porque já vivenciou muito de seu drama. O que mais penso e do que mais me orgulho é que, nos últimos tempos, tenho encontrado pessoas como eu com a mesma determinação. Só que elas não estão nas páginas dos jornais nem na televisão. Por isso são os verdadeiros heróis. Eu é que estou aprendendo com elas.

Veja – Logo após deixar o hospital, o senhor dirigiu de Mônaco até Bolonha num carro adaptado, numa viagem de 450 quilômetros. Por quê?
Zanardi – Voltar para casa ao volante de um carro me ajudou bastante. Estava cheio de dúvidas, não sabia o que podia fazer ou não. Passei 46 dias no hospital, cinco deles em coma. Dirigir novamente foi ótimo, pois me senti uma pessoa normal. Pilotava e conversava com minha mulher. Olhava para o retrovisor e via meu filho dormindo. Foi certamente isso que me fez repensar sobre minha situação e encarar os problemas.

Veja – O senhor sofreu um acidente grave em 1993, na Fórmula 1, e assistiu a vários acidentes. Isso não o motivou a abandonar tudo?
Zanardi – No meu outro acidente, senti o medo, mas não sofri nada. Um acidente que me chocou e certamente me fez pensar sobre minha carreira foi o de Ayrton Senna. Foi muito chocante. Senna era um símbolo para todos nós, não só pela forma como dirigia, mas pelo seu jeito de ser. De repente, perdeu a vida. Fazia então bastante tempo que ninguém morria em acidentes na Fórmula 1. Naquele fim de semana foram dois pilotos, dois amigos, Senna e Roland Ratzenberger. Foi uma loucura entre nós. Cada um reagiu de forma diferente, mas ninguém deixou de sentir o drama, de se questionar, de pensar na sua família.

Veja – O senhor tem momentos de depressão?
Zanardi – Tenho de admitir que fico mal muitas vezes, com sentimentos nostálgicos. Quando chego em casa, vindo do centro de tratamento, e vejo alguém praticando jogging, sinto inveja. Lembro-me de quando corria 10 quilômetros por dia. Isso acabou. Nunca mais vou correr. É fato. Quanto à inveja, esse é um desafio que tenho de vencer. Tenho de me conformar que o impossível, o milagre, não vai acontecer. Caminhar, quem sabe. Correr, isso só em sonhos.

Veja – O acidente mudou sua relação com a família?
Zanardi – Não amo minha família mais ou menos do que amava antes. Mas agora tento aproveitar cada momento. As tardes de brincadeiras com meu filho, Niccolò, são mais intensas, mais longas. O mesmo acontece no relacionamento com minha mulher, Daniela. Quando acidentes como o meu ocorrem, caímos de um pedestal. Percebemos que perder o que se tem é muito fácil, que estamos sempre perto de perder algo.

Veja – Como está sua recuperação?
Zanardi – Infelizmente, os médicos dizem que não há grandes esperanças para casos como o meu. Perdi uma das pernas acima do joelho e outra, logo abaixo da articulação. O que sobrou é pouco, mas o bastante para estimular alguns impulsos nervosos que permitem a locomoção. Não desanimo. Estou com os melhores profissionais e no melhor lugar para progredir. Decidi vir para Bolonha, onde nasci, onde vive minha mãe, porque aqui estou na minha terra, num lugar em que me sinto bem. Todas as manhãs vou ao centro de tratamento, onde reaprendo a andar com pernas mecânicas, com a ajuda de muletas. Às vezes fico andando em círculos. Tenho ainda de fazer as mais variadas terapias para recuperar os músculos danificados das pernas.

Veja – É muito difícil conviver com as próteses?
Zanardi – É um relacionamento difícil. Afinal, elas não são minhas. Mas são elas ou nada. É com essas pernas artificiais que tenho de aprender a viver. De qualquer forma, são as mais sofisticadas que o dinheiro pode comprar. Vou com elas à ginástica, tomo café com minhas pernas, vou com elas ao jardim. A pior parte é quando tenho de tirá-las antes de dormir, ou a hora de colocá-las ao levantar. Tudo é muito estranho, mas em breve, muito breve, saberei usá-las com perfeição e poderei fazer tudo por mim mesmo. Hoje, ainda dependo da cadeira de rodas.

Veja – Qual a parte mais difícil de suportar na sua recuperação?
Zanardi – Tudo é difícil. O que vou dizer pode parecer brincadeira. Mas o maior problema é que tudo é muito lento. Estou dirigindo carros adaptados, o que me dá mobilidade. Mas tenho de abrir a porta traseira, pular dentro do carro, fechar a cadeira de rodas, ir pulando até o banco do motorista. Leva um tempão. Logo eu, que sempre gostei de tudo rápido. Hoje demora uma infinidade até para lavar o rosto pela manhã. Sou piloto, gosto de velocidade em tudo. Alguns dos melhores momentos da minha vida aconteceram a 400 quilômetros por hora.

Veja – Em algum momento o senhor achou ter perdido o sentido da vida por ter de abandonar as pistas?
Zanardi – Nunca. Eu era, talvez ainda seja, um piloto de muita sorte. Sempre tive a sensação de que era muito sortudo por estar correndo. Muitos jovens como eu, corredores, nunca tiveram a chance que eu tive. Não só por talento, mas por oportunidade. Eu me sinto satisfeito. Não tenho frustrações. Fiz muitas corridas, todas as que eu quis, não ficou nada faltando na minha carreira. Em dois anos na Fórmula Mundial foram quinze vitórias, dez poles e 28 pódios. Tenho certeza de que ainda vou encontrar um modo de suprir a falta das pistas.

Veja – Logo depois de deixar o hospital, o senhor declarou que gostaria de voltar a pilotar. Ainda pensa assim?
Zanardi – Não. Correr de novo não é exatamente o que importa. Primeiro porque é muito difícil saber o que é possível ou não. Meu sonho é que um dia eu consiga melhorar tanto minha condição que eu possa fazer a minha escolha. Voltar a ter capacidade de escolher se eu quero correr ou não. A capacidade de escolha é daquelas dádivas às quais não damos valor. Mas é o que faz a vida valer a pena. Isso é o principal para todo ser humano.

Veja – O senhor se recorda do acidente?
Zanardi – Não me lembro de nada do que aconteceu desde a batida. Só a partir do momento em que acordei do coma. Minhas condições eram muito ruins. Só queria esquecer a dor. Minha mulher se aproximou e contou do acidente. Explicou minhas possibilidades. Não me deu tempo para lamentações, para refletir sobre essa situação tão absurda para mim. Prometemos que encontraríamos um caminho e é isso que estou fazendo. Depois pedi a Daniela para dormir. Precisava, antes de pensar na vida, descansar.

Veja – O automobilismo é um esporte de risco. O senhor e seus colegas estão preparados para fatos como esse?
Zanardi – Quando alguém perde a vida nas pistas de corrida, lembram que se trata de um esporte de risco. É, realmente, mas não tão mais arriscado que dirigir nas rodovias. Ou um avião pilotado por um terrorista derrubar o prédio onde você está trabalhando. Os pilotos são como os trabalhadores. Entram no carro e pensam que é só mais um dia. Não pensamos nisso o tempo todo. Na verdade, nunca pensei que aconteceria.

Veja – O senhor acredita que seu acidente poderia ter sido evitado?
Zanardi – Meu acidente foi má sorte. Eu sou um piloto e sou bom nisso. O carro derrapou, girou na pista. Tudo foi tão rápido que Alex Tagliani (que pilotava o carro envolvido no acidente) não podia desviar de mim.

Veja – O senhor criticava a falta de segurança na Fórmula 1 e elogiava a da Mundial. Continua considerando que ela é mais segura?
Zanardi – Na Fórmula 1 assumimos riscos muito maiores. É o preço que se paga para ser mais famoso e ter maior velocidade. Como se trabalha com pneus menos aderentes, se fugimos da trajetória normal o carro sai da pista sem controle. Uma freada e pronto: há 99% de possibilidade de uma batida grave. Na Mundial podemos fazer manobras mais arrojadas, como frear 2 ou 3 metros antes da curva sem que isso se transforme numa tragédia. No caso do meu acidente, foi tudo muito imprevisível. O piloto que vinha na minha direção não pôde me avistar a tempo. Era impossível mudar a direção por mais bem aparelhado que ele estivesse. É aquela velha história de destino.

Veja – O senhor deixaria seu filho, Niccolò, de 3 anos, seguir a carreira de piloto?
Zanardi – Num primeiro momento, não. O perigo, apesar de nós pilotos não sentirmos isso no dia-a-dia, é evidente para quem está de fora. Ainda mais depois de tudo o que passei. Mas eu o respeitarei. Se ele quiser, será um piloto.

Veja – O senhor tem alguém em quem se espelha para continuar sua luta?
Zanardi – Admiro o piloto Clay Regazzoni. Num Grande Prêmio de Long Beach ele ficou sem freio e fraturou a espinha. Desde então, já participou até do rali Paris–Dacar. Ele deixou de se emocionar nas pistas, mas conseguiu suprir isso. Eu ainda não sinto falta da emoção, da hora da vitória, porque estou muito ocupado. Mas isso vai acontecer. Vamos ver o que vou fazer, então.

Veja – O senhor já voltou a um autódromo desde o acidente?
Zanardi – Não fui porque ainda não posso. Será muito difícil fazer isso. Mas não acho que quando estiver lá terei sentimentos ruins. Não tenho medo de ver outra corrida. Sou, antes de tudo, um realista. Planejo ir para Long Beach neste ano. Estarei lá assistindo a tudo. Vou apoiar meus amigos. Afinal, é o meu mundo. Não vou fugir do meu passado. Vou aprender a conviver com ele. Talvez de longe.

Veja – O senhor conquistou fama e dinheiro como piloto, já tinha até anunciado a aposentadoria. Sua carreira valeu a pena ou está arrependido?
Zanardi – Não me arrependo de jeito nenhum. Em 35 anos de vida fiz muito mais coisa do que a maioria das pessoas. Tenho centenas de carimbos no meu passaporte, conheci o mundo, falo três línguas fluentemente. O melhor de tudo é que tenho uma grande vida pela frente. O que está feito está feito. E afirmo que, se tivesse de voltar no tempo, faria a mesma escolha. Seria piloto.

 
 
   
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