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Gustavo Franco

A revolta dos
perdedores

"Diante da idéia de que existe uma
conspiração alienígena para nos escravizar,
o bom senso consiste em enfatizar
as fraquezas
da economia doméstica. A origem dos nossos
problemas está debaixo de nosso nariz"

 
Ilustração Alê Setti

A expressão "destruição criadora" foi cunhada pelo mestre Joseph Schumpeter para descrever os surtos de progresso, mudança e redefinição de vocações desencadeados por inovações revolucionárias na economia. Não estaremos longe da verdade em alegar que algo assim se passou no Brasil se notarmos que o fim súbito da hiperinflação nos fez experimentar, simultaneamente, as novas realidades da globalização e da estabilização, cujos efeitos foram ainda mais amplificados por programas como a privatização e a abertura.

Numa terra que não conhece vulcões nem terremotos, e cujas revoluções são bem menos freqüentes e sangrentas que nos países vizinhos, um episódio de destruição criadora como o que se observou especialmente no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique não poderia deixar de produzir enormes ressentimentos.

Como amiúde ocorre nesses processos, os perdedores apenas enxergam o lado da "destruição" e nada concedem ao da "criação". Ademais, como é próprio do Brasil, a responsabilidade pelos danos é sempre do governo, pois nada acontece ou deixa de acontecer se não for pela vontade do governo, fonte de todos os vícios e virtudes nesta terra onde o Estado acha que é maior que a Sociedade. Tivemos, na visão dos perdedores, uma conspiração: um governo mau os atacou pessoalmente ao permitir que forças malignas do exterior aqui aportassem para extraviar nossas riquezas e destruir nosso futuro. A noção de que a competição nos mercados pode produzir perdedores ainda é estranha aos hábitos locais.

Há, com efeito, enorme valor simbólico em atribuir nossos problemas a fatores fora do alcance das pessoas comuns, a idiossincrasias do governo ou a choques externos. Apela-se ao nacionalismo, aos medos primordiais do desconhecido e do escuro, aos custos do Progresso, à irracionalidade do Príncipe, possivelmente mancomunado com a Potência Colonizadora, e ao absurdo de sermos afetados pelo que se passa na Indonésia, Turquia ou Afeganistão.

É desse caldeirão de inquietações que nascem idéias, cada vez mais presentes nos meios de comunicação, que parecem combinar um nacionalismo mercantilista e utilitário, construído de forma oportunista a partir das feridas acima descritas, e um ativismo iluminado a partir do desencanto com as políticas públicas (não) intervencionistas dos últimos anos e da ilusão de que existem heróis que podem usar a máquina do Estado para a redenção do país, e mais especificamente das elites perdedoras.

Esse neomessianismo professa e alega dispor da capacidade para interferir nos "complexos industriais", mobilizar professores universitários tornados reguladores para ensinar os administradores desses "complexos" a trabalhar e guiá-los para a virtude, da qual sempre e necessariamente se afastam em razão de sua natureza má. De forma análoga, alega-se que nossas defesas contra a globalização estão baixas, e que os muros têm de ser elevados. Acredita-se no uso iluminado e seletivo do protecionismo, da política industrial e da substituição de importações, a despeito das barbaridades perpetradas no passado sob essas rubricas. Acredita-se também que o país estaria bem melhor com o dólar a 3,50 reais a fim de fazer renascer os gigantescos superávits comerciais, e a esse projeto incendiário e irresponsável chegaram a chamar de "âncora do desenvolvimento". Na verdade, não temos aí projeto algum senão os perdedores da modernização buscando sua indenização.

Em oposição a essa gente existe basicamente o bom senso, que não é monopólio de apenas uma escola de pensamento. Diante da idéia de que existe uma conspiração alienígena para nos escravizar, o bom senso consiste em enfatizar as fraquezas da economia doméstica, ou seja, em não procurar no exterior a origem dos nossos problemas, mas aqui bem debaixo de nosso nariz, nas áreas fiscal, tributária, previdenciária, trabalhista, regulatória – enfim, nas áreas em que os problemas são bem conhecidos e em que o governo procurou fazer reformas nos últimos anos e teve sucesso apenas muito parcial.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com - www.gfranco.com.br)


 
 
   
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