Retrospectiva 2007 | Ideologia "Pede
para sair, esquerda embolorada"
Divulgação
O
Capitão Nascimento, em Tropa de Elite: efeito catártico e
tiro no ideário do bandido-vítima
Nas
democracias, divisões ideológicas costumam manifestar-se com estridência
nas campanhas eleitorais. Em tais ocasiões, excessos retóricos são
perdoáveis, desde que não firam os valores e processos fundamentais
para a manutenção do jogo acordado. Dois mil e sete foi uma exceção
a essa regra tácita. Apesar de os brasileiros não terem ido às
urnas, o ano foi marcado por debates em que certo ideário se apresentou
mais exacerbado do que o habitual e em vários graus além
do tolerável, já que seguidores seus tentaram, agora sem meias palavras,
sobrepor seus equívocos políticos aos metros (morais e racionais)
balizadores das sociedades que se pretendem civilizadas. De acordo com esse ideário
de matriz esquerdista , a criminalidade se justifica porque é
fruto da miséria, e a polícia, sempre corrupta, está a serviço
da "burguesia exploradora". Como se não bastasse, os cidadãos
ricos devem ser alvos de "vinganças sociais" e a ignorância
popular é redentora.
Essas visões
são de um despropósito ululante. Mas, ainda assim, elas encontram
ressonância no Brasil, como a demonstrar a boutade de Roberto Campos,
segundo a qual a burrice no país tem um passado glorioso e um futuro promissor.
Diz o cientista político Denis Rosenfield: "O Brasil vive hoje sob
o império do politicamente correto, que se traduz em chavões pescados
do pensamento esquerdista do século XX. O primeiro desses chavões
afirma que não existe problema penal, tudo é uma questão
social. Isso não passa de um analfabetismo político sem tamanho,
porque a esfera do social não equivale à esfera da criminalidade.
Existem intersecções, não equivalência. O segundo chavão
defende que autoridade é igual a autoritarismo. E o terceiro prega que
todo signo de riqueza é sinônimo de exploração e precisa
ser rechaçado. As pessoas condenam o lucro e a livre escolha do sujeito
de fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou com seu trabalho. Tudo isso é
um grande absurdo. Desde o século XVII, não existe um cientista
político sério que não diga que a função primeira
do estado é proteger o cidadão física e juridicamente".
Simone
Marinho/Ag. O Globo
O
apresentador Luciano Huck: vítima dos ladrões e da ideologia caduca
A inflamação ideológica contaminou, particularmente,
as discussões em torno de três temas: o filme Tropa de Elite,
do diretor José Padilha, o assalto sofrido pelo apresentador Luciano Huck,
em São Paulo, e o livro A Cabeça do Brasileiro, escrito pelo
sociólogo Alberto Carlos Almeida. É compreensível, embora
não aceitável, que esses assuntos tenham despertado a belicosidade
nas hostes da esquerda. Afinal de contas, para desespero dessa gente, cada um
deles talvez represente, a sua maneira e proporção, o início
de uma inflexão rumo àquela modernidade promulgadora do bem-estar
e felicidade geral da nação. Que a possibilidade também se
tenha oferecido sob os modos de um Capitão Nascimento, personagem de Wagner
Moura em Tropa de Elite, é apenas um sinal trocado dos quais a ficção
é pródiga em seus momentos reveladores.
Onze milhões de pessoas assistiram ao filme de José Padilha, no
cinema e em cópias piratas. Para a maior parte dos espectadores, o efeito
de Tropa de Elite foi, antes de mais nada, catártico. A ferocidade
do Capitão Nascimento no trato com os bandidos vingou-os, na tela, do terrorismo
que os criminosos lhes impingem no cotidiano. Os ideólogos aproveitaram-se
dessa catarse para conferir ao filme de sucesso tonitruante uma moldura ao estilo
dos programas "mundo cão" e, desse modo, esvaziar as suas verdades.
Mas em que consistem, afinal de contas, os "pecados" de Tropa de
Elite? Em mostrar que o caminho do crime é uma opção
individual, que os consumidores de drogas da classe média são cúmplices
dos traficantes e que, sim, existem policiais honestos os quais, desamparados
pelo estado corrupto e omisso, são obrigados não raro a descambar
para a truculência até por razões de sobrevivência.
Resume o sociólogo Demétrio Magnoli: "A tese falsa e
preconceituosa de que a criminalidade é produto da pobreza é
sustentada pela classe política de esquerda. Ela se recusa a discutir uma
política de segurança pública para o país. Mas essa
recusa é tão restrita a esse círculo político e tão
pequena na sociedade que, quando surge um Capitão Nascimento que
faz a lei, mesmo fora da lei , ele se torna um herói popular. O filme
ajudou a levantar um aspecto muito importante: é preciso cobrar responsabilidade
individual pelas opções de cada um o criminoso não
deve ser tratado como representante de uma classe sem escolhas".
Roberto
Setton
A
falta de estudo, como demonstrou o sociólogo Almeida, puxa o país
para trás,...
Vidal Cavalcante/AE
...enquanto
o conhecimento das "elites" o impele para a frente
A falácia de atribuir à pobreza o caos da segurança pública
brasileira caiu como foice e martelo sobre a cabeça de Luciano Huck. Abordado
no trânsito por um motociclista armado que lhe roubou o Rolex, o apresentador
escreveu um artigo para o jornal Folha de S.Paulo, no qual relatava o ocorrido
e expressava a sua indignação e perplexidade com a falta de segurança
dos cidadãos de bem. Foi o que bastou para acender a ira dos ideólogos.
Eles simplesmente revogaram o direito de Huck de reclamar. Um energúmeno
chegou a escrever que o apresentador deveria sentir-se satisfeito, porque a troca
fora justa: Huck havia saído com vida do assalto, e o "correria"
com seu Rolex. "Os valores no Brasil se inverteram a tal ponto que as pessoas
acham que alguém bem-sucedido como Luciano Huck tem de ser roubado e ficar
calado, porque já teve privilégios demais na vida", diz o professor
de ciência política David Fleischer, da Universidade de Brasília.
"Os valores
no Brasil se inverteram a tal ponto que as pessoas acham que alguém bem-sucedido
como Huck tem de ser roubado e ficar calado, porque já teve privilégios
demais na vida." David
Fleischer, cientista político
Há décadas, os ideólogos
esquerdistas demonizam as "elites", das quais Huck é integrante.
Culpam-nas pela pobreza, pelo subdesenvolvimento, pelo descaso. Isso até
pode continuar a ser verdade em relação aos coronéis do Nordeste.
Mas o Brasil, apesar de todos os percalços e mazelas, sofreu metamorfoses
extraordinárias. Hoje, suas "elites", além de mais amplas,
são mais bem educadas e, por isso mesmo, mais conscientes e desprovidas
de preconceitos. Não se trata de impressão, mas do resultado de
uma vasta pesquisa levada a cabo pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida
e condensada em A Cabeça do Brasileiro (Editora Record).
Ao confrontar iletrados e menos ou mais escolarizados com questões sobre
política, economia e comportamento, Almeida constatou que a quantidade
de anos de estudo é diretamente proporcional à formação
de uma cabeça mais arejada. Como, no Brasil, mais educação
associa-se necessariamente ao topo da pirâmide social, isso quer dizer que
os mais ricos são mais modernos que os mais pobres. Ou seja, a ignorância
da massa puxa o país para trás e o conhecimento das "elites"
o impele para a frente, ao contrário do que apregoam as viúvas marxistas,
com seu blablablá sobre a consciência originada da miséria
e por aí vai. Previsivelmente, Almeida foi malhado, ironizado e vilipendiado.
Por desespero de causa, é claro. O livro, somado a Tropa de Elite
e ao desabafo de Luciano Huck, pode ser sinal, como já se disse, de uma
inflexão, de que algo está mudando para melhor no Brasil. "O
ano de 2007 foi aquele em que as vacas sagradas da esquerda começaram
a ser contestadas mais fortemente. Isso é uma novidade", diz Magnoli.
Em outras palavras, a burrice talvez não tenha um futuro tão brilhante
no país.