Retrospectiva 2007
| Memória Antonio Carlos Magalhães 79 anos |Político
Ricardo
Stuckert
Antonio Carlos Magalhães gabava-se de ser um dos poucos
políticos cujo nome se transformara numa sigla conhecida
em todo o país. Por quatro décadas, ACM mandou
e desmandou na Bahia, seu estado natal. Misturava uma visão
administrativa arrojada com cacoetes herdados dos coronéis
nordestinos. No plano nacional, também transpirava
poder. Influenciou quase todos os presidentes, civis ou militares,
de Juscelino Kubitschek a Lula. Sua maior tristeza foi a morte,
em 1998, do filho Luís Eduardo, que se preparava para
assumir a liderança política do clã.
ACM jamais se recuperou do baque. Com ambos, desapareceu o
carlismo. (em julho)
"Foi um
homem de personalidade muito forte, que definia com rapidez
o lado de cá e o lado de lá. E mudava quando
achava necessário. Mas sempre teve duas características:
amor à Bahia e eficiência." Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente
da República
Sidney Sheldon 89 anos |Escritor
O americano Sidney Sheldon
nunca pretendeu fazer alta literatura (talvez, nem literatura).
Seu objetivo era tão-somente atrair o maior número
possível de leitores. Nisso, foi insuperável.
Juntos, seus romances, como O Outro Lado da Meia-Noite
e Um Capricho dos Deuses, venderam 300 milhões
de exemplares. No mundo de Sheldon, os ricos se viam às
voltas com paixões violentas, traições
e assassinatos. A vida do autor, como as tramas de seus livros,
teve muitas reviravoltas. Ele só começou a escrever
os best-sellers que o tornariam célebre aos 50 anos.
Antes, foi piloto militar e roteirista de teatro e televisão
para a qual criou a série Jeannie É
um Gênio, clássico dos anos 60. (em janeiro)
"Meu
pai era um contador de histórias. Essa é a primeira
lembrança que tenho dele." Mary Sheldon, filha
Michelangelo Antonioni 94 anos |Cineasta
Terrence
Spencer/Time Life Pictures/Getty Images
O italiano Antonioni não foi o maior nem o mais festejado
diretor de seu tempo, mas deixou uma marca autoral suficientemente
forte. Depois de pagar tributo à escola neo-realista,
nos anos 50, ele migrou para um cinema de cunho existencialista,
caracterizado pelo silêncio e pela busca de identidade.
Com a atriz Monica Vitti a lhe servir de musa, criou a "trilogia
em preto-e-branco" composta de A Aventura,A
Noite e O Eclipse. Seus trabalhos mais lembrados
são Blow Up Depois Daquele Beijo
e Profissão: Repórter, ambos reverenciados
por cineastas de todas as latitudes. (em janeiro)
"No vazio,
nos espaços silenciosos do mundo, ele encontrou metáforas
que iluminam nosso coração e descobriu neles
uma estranha e terrível beleza." Jack Nicholson, ator
Maurice
Béjart 80 anos |Coreógrafo
Foi o pediatra quem
mandou Maurice Béjart entrar em uma escola de dança
pela primeira vez. O objetivo era fortalecer a musculatura
do menino francês, franzino demais. Ele nunca mais descalçou
as sapatilhas. No pós-guerra, ajudou a fixar as bases
da dança contemporânea. Béjart começou
a brilhar em 1959, com uma inovadora coreografia para A
Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky.
No ano seguinte, voltou a surpreender com sua interpretação
do Bolero de Maurice Ravel. Seu estilo sublinhava a
sensualidade e a presença masculina. (em novembro)
"Ele marcou
gerações de bailarinos. Não teríamos
chegado até aqui se Béjart não tivesse
existido, se não tivesse apresentado sua revolução
fantástica ao mundo da dança." Marie-Claude Pietragalla, bailarina
Kurt Vonnegut 84 anos
| Escritor
O bombardeio aéreo
que reduziu a cidade de Dresden a escombros foi um dos maiores
flagelos sofridos pela Alemanha durante a II Guerra Mundial.
O escritor Kurt Vonnegut, que assistiu à destruição
como soldado americano aprisionado pelos nazistas, relatou
o que viu em Matadouro 5, de 1969. A obra, com toques
de ficção fantástica, foi vista como
libelo contra a Guerra do Vietnã e alçou seu
autor à condição de ídolo pacifista.
As outras obras de Vonnegut o confirmam como um mestre do
humor negro na literatura. (em abril)
"Vonnegut
era diferente por ser imaginativo e criativo. Nossa geração
não se dava ao trabalho de imaginar muito. Literatura
realista era o estilo geral." Gore
Vidal, escritor
Octavio Frias 94 anos |
Editor
Octavio Frias de
Oliveira sempre teve tino para os negócios. Nos anos
40 e 50, foi banqueiro, dono de corretora e incorporador imobiliário
de sucesso. Em 1962, aos 50 anos, farejou a oportunidade de
sua vida. Comprou a Folha de S.Paulo, um jornal quebrado
que, sob seu comando, se transformaria no maior diário
do país. Para Frias, o sucesso financeiro era o único
caminho para garantir a independência editorial de seu
veículo. Com Victor Civita, fundador da Editora Abril,
e Roberto Marinho, das Organizações Globo, profissionalizou
a imprensa brasileira. (em abril)
"Era um
patriota, um democrata, um homem de grande visão empresarial
e um dos maiores inovadores da imprensa brasileira." Roberto
Civita,presidente da Editora
Abril e editor de VEJA
Enéas
Carneiro 68 anos |
Político
Antonio
Milena
Calva brilhante, barba hirsuta, óculos de fundo
de garrafa e fala histriônica. A figura de Enéas
Carneiro é inesquecível. Ele apareceu
como o Cacareco da campanha presidencial de 1989. Ocupava
seus quinze segundos no horário político
com uma torrente de idéias amalucadas. Finalizava
suas performances berrando o bordão "Meu
nome é Enéas!". Ninguém jamais
entendeu o que ele pretendia. Ainda assim, Enéas
fisgou um grande eleitorado. Em 2002, foi candidato
a deputado e teve 1,6 milhão de votos, um recorde.
Doidivanas na TV, no Congresso ele sumiu. Vivia quieto
e ensimesmado. (em maio)
"Enéas
é merecedor de respeito pela votação
expressiva que recebeu nas diversas eleições
que disputou." Luiz
Inácio Lula da Silva, presidente
Anna Nicole
Smith 39 anos |
Modelo e atriz
Ralph
Notaro/Getty Images
Aos 26 anos, Anna Nicole, uma ex-stripper, ex-coelhinha
da Playboy e veterana do silicone, encontrou
o emprego de sua vida. Casou-se com J. Howard Marshall
II, um bilionário de 89 anos. Ele só resistiu
catorze meses. A loura americana passou o resto de seus
dias lutando pela herança. Vítima de uma
overdose de remédios, a loura deixou uma filha
de apenas 5 meses, Dannielynn. Como a menina pode herdar
o dinheiro do velho Marshall, quatro ex-amantes de Anna
Nicole disputaram sua paternidade. O caso foi solucionado
em abril. O pai é o fotógrafo Larry Birkhead.
(em fevereiro)
"Ela
disse que morreria como Marilyn Monroe." Peter
Nygard, estilista
Paulo
Autran 85 anos |
Ator
Rui Mendes
O teatro brasileiro
teve grandes atores. Paulo Autran foi o maior de todos.
Brilhou jovem e belo, à frente da companhia que
fundou com a amiga Tônia Carrero. Brilhou na meia-idade,
ao interpretar clássicos do teatro com incrível
versatilidade. E brilhou na velhice, tirando partido
das rugas que lhe tomaram a face para aumentar ainda
mais sua expressividade. No cinema e na TV, fez aparições
esporádicas, mas marcantes. Dirigido por Glauber
Rocha, atuou no reverenciado e soporífero
Terra em Transe (1967). Na Rede
Globo, criou tipos inesquecíveis, como Bimbo,
da novela Guerra dos Sexos (1983), e Aparício
Varella, de Sassaricando (1987). Autran era perfeccionista.
Mesmo consagrado e com quase sessenta anos de carreira,
dizia que jamais perderia o medo de ser rejeitado pelo
público. (em outubro)
Gianfranco Ferré 62 anos | Estilista
Antes de entrar
para o mundo da moda, o italiano Gianfranco Ferré formou-se
em arquitetura. Nunca exerceu a profissão, mas usou
o que aprendeu para criar trajes sóbrios, estruturados,
de acabamento impecável. Essas características
lhe valeram o apelido de "arquiteto da moda". Em
1989, dono de sua própria confecção na
Itália, foi convidado a dirigir a maison Christian
Dior, em Paris. Nos oito anos que ocupou o cargo, abriu as
portas da alta-costura francesa para estrangeiros. Em 1998,
deu seu nome a uma das mais badaladas e rentáveis
maisons italianas. (em junho)
"Cavalheiro
de outros tempos, um inventor de formas, criava uma moda grandiosa
e impecável." Donatella Versace, estilista
Norman Mailer 84 anos | Escritor
O jovem Norman Mailer
foi boxeador e soldado na II Guerra Mundial. Depois que se
tornou escritor, manteve alguns hábitos da vida pregressa.
Polemista compulsivo, encerrou muitas discussões cobrindo
o interlocutor de socos. Chegou a esfaquear a segunda de suas
seis mulheres. Mas nada disso eclipsa sua contribuição
à cultura americana. Mailer foi um dos expoentes do
new journalism, estilo que alia técnicas da
ficção com reportagem. Influenciou gerações
de escritores com romances como Os Nus e os Mortos,
de 1948. (em novembro)
"Mailer
escreveu monumentos, livros que captam a real tradição
americana." Philip Roth, escritor
Mstislav
Rostropovich 80 anos | Músico
Reuters
Para muitos, Rostropovich foi para o violoncelo o que
Paganini foi para o violino: o maior da história.
Uma centena de compositores lhe dedicou obras, entre
eles Sergei Prokofiev e Benjamin Britten. Nascido no
Azerbaijão, uma das ex-repúblicas soviéticas,
Rostropovich combateu o totalitarismo e, protegido por
seu prestígio, ajudou perseguidos até
ser obrigado a se exilar, nos anos 70. A foto acima
o mostra em 1989, celebrando a derrubada do Muro de
Berlim. Dois anos depois, tocou no Parlamento russo,
então ameaçado de bombardeio por comunistas
insurretos. (em abril)
"Ele
fez coisas que, antes, se acreditava que eram impossíveis
no violoncelo. Tantas obras lhe foram dedicadas que
o repertório do instrumento cresceu 40%. Todos
os violoncelistas lhe são gratos por esse tesouro." Yo-Yo Ma, violoncelista
Ingmar
Bergman 89 anos |
Cineasta
Reuters
O sueco Ingmar Bergman
foi um dos grandes artistas do século XX e fez do cinema
uma forma de reflexão sobre temas como a dúvida,
a solidão e a morte. Nos anos 50, filmou O Sétimo
Selo e Morangos Silvestres, obras-primas de intensa
poesia. Numa segunda fase, mergulhou na intimidade familiar
com Gritos e Sussurros e Cenas de um Casamento
implacáveis em sua visão de uma humanidade
condenada ao isolamento. Bergman encerrou sua carreira no
cinema com o autobiográfico Fanny e Alexander
(1982), seu maior sucesso de bilheteria. Depois disso, retirou-se
para uma ilha no Báltico e só produziu esporadicamente,
para o teatro e a televisão. (em julho)
"Ele foi
o maior criador do cinema desde a invenção da
câmera." Woody Allen, cineasta
Deborah Kerr 86 anos |
Atriz
David
Boulton/Getty Images e Reuters
O rosto de traços
elegantes, o olhar altivo e o sotaque britânico faziam
de Deborah Kerr a atriz perfeita para interpretar mulheres
da aristocracia inglesa na Hollywood dos anos 50. Sua cena
mais famosa, no entanto, ficou marcada pela paixão.
Kerr foi protagonista de um dos beijos mais ardentes da história
do cinema. Em A um Passo da Eternidade (1953), de Fred
Zinnemann, ela e Burt Lancaster rolam à beira-mar em
trajes de banho, numa seqüência que deixou boquiabertas
as platéias de então. Ela também atuou
em clássicos como Quo Vadis?, O Céu
por Testemunha e O Rei e Eu. Indicada seis vezes
ao Oscar, só recebeu a estatueta em 1994, pelo conjunto
de sua obra. (em outubro)
"Uma verdadeira
dama com aquela raridade que Hollywood chama de classe." Fred
Zinnemann,
cineasta
Luciano Pavarotti 71 anos |Tenor
Kim
Jae-Hwan/AFP
O italiano Luciano
Pavarotti foi a imagem da ópera em nossos dias. Dono
de um timbre raro e de uma técnica perfeita, manteve-se
um degrau acima dos colegas de profissão. Os amantes
do canto lírico o viam como o sucessor do lendário
Enrico Caruso. Usou essa fama para conquistar multidões
fora das casas de ópera, gravando discos com árias
famosas. Seu Três Tenores in Concert, co-estrelado
por Plácido Domingo e José Carreras, é
o campeão mundial de vendas da música erudita.
Quando sua voz começou a perder a tessitura impecável,
ele ganhou fortuna fazendo duetos com estrelas do rock, como
Bono Vox, Elton John e Sting. (em setembro)
"Ele foi
um grande artista que, por meio de seu extraordinário
talento para a interpretação, honrava o dom
divino da música." Papa Bento XVI
Nair Bello 75 anos |Atriz
Desde menina, Nair
Bello tinha duas obsessões: ser atriz e ter uma
penca de filhos. Começou a conquistar cedo seus
objetivos. Aos 18 anos, estreou como atriz no rádio
e logo chegou ao cinema. Aos 23, fez uma pausa na carreira
para cuidar do primeiro filho teve quatro, dois
homens e duas mulheres. Uma década depois, conseguiu
um papel na TV, interpretando Dona Santinha, uma dona
de pensão que tinha sotaque italianado e batia
no marido com um tamanco quando ele tentava enganá-la.
O sucesso foi tão grande que Nair se tornou atriz
de uma só personagem, vivendo para sempre a mamma
italiana. Ela não se importava: "Adoro ser
mãe. Queria ter seis filhos. Como só tive
quatro, compenso nas novelas". (em abril)
"É
difícil agradar a todos, e ela conseguia." Fausto Silva, apresentador de TV
Boris Ieltsin 76 anos |Político
Ted Thai/Time Life Pictures/Getty
Images
Em 1991, quando comunistas radicais
tentaram derrubar o liberal Mikhail Gorbachev da Presidência
da União Soviética, só um homem teve
peito para enfrentá-los: Boris Ieltsin, o sanguíneo
presidente russo. Ele saiu às ruas, subiu em tanques
de guerra e barrou os golpistas. A coragem rendeu-lhe enorme
popularidade. Nos meses seguintes, o império soviético
derreteu e seu prestígio aumentou. Quando Gorbachev
saiu de cena, foi Ieltsin quem recebeu a chave do arsenal
nuclear russo. À frente do Kremlin, deixou-se consumir
pela vodca. Aparecia completamente bêbado em atos oficiais.
Seu poder esvaiu-se e a Rússia afundou num atoleiro.
Em 1999, ele renunciou e entregou o poder ao atual presidente,
Vladimir Putin. (em abril)
"Era um
homem em cujos ombros repousaram tanto grandes obras quanto
erros sérios. Um trágico destino." Mikhail Gorbachev,
ex-presidente da União Soviética
Aloísio
Lorscheider 83 anos |Cardeal
Amilton
Vieira
Aos 9 anos, Aloísio Lorscheider disse aos pais que
queria ser padre. Depois de passar por um seminário
franciscano, o gaúcho fez carreira fulgurante na Igreja.
Durante o papado de João XXIII e o de Paulo VI, conquistou
influência no Vaticano. Corre a história
jamais confirmada de que teria recebido doze votos
no conclave que elegeu o papa João Paulo I. No Brasil,
presidiu a CNBB durante a ditadura militar e denunciou a tortura
e a perseguição política. Seu único
pecado conhecido foi o apoio à Teologia da Libertação,
um desatino ideológico que misturava cristianismo e
marxismo. Nos anos 90, ergueu o Centro de Apoio ao Romeiro,
um enorme shopping center religioso ao lado da basílica
de Aparecida. (em dezembro)
"Quando
a Igreja se fez um dos lugares da resistência da democracia
e dos direitos humanos,
dom Aloísio foi um gigante." José Serra,
governador de São Paulo
Oscar Peterson 82 anos |Pianista
Esther
Bubley/Hulton Archive/Getty Images
Ele tinha 1,91 metro
de altura e pesava 113 quilos. Apesar das medidas de peso
pesado, o canadense Oscar Peterson hipnotizava as platéias
pela leveza com que suas mãos deslizavam pelo piano.
Dono de uma técnica apuradíssima, fazia parte
do seleto grupo de jazzistas capazes de criar obras-primas
no improviso. Em cinqüenta anos de carreira, dividiu
o palco com todos que interessavam: Billie Holiday, Ella Fitzgerald,
Charlie Parker, Ray Charles, Louis Armstrong. Também
foi prolífico no estúdio. Registrou sua obra
em mais de 200 álbuns, que lhe renderam oito prêmios
Grammy. (em dezembro)
"Ele redefiniu
o conceito de suingue para os pianistas de jazz." Herbie Hancock, pianista de jazz