A trajetória
empresarial de Eike Fuhrken Batista alternou feitos memoráveis e fracassos
retumbantes. Ele explorou com sucesso a maior mina de ouro e prata da América
do Sul, no Chile. Também perdeu muito dinheiro em investimentos aventureiros,
como uma fábrica de jipes e uma empresa de entregas pela internet. Com
a exuberância do mercado de capitais brasileiro, no entanto, esse empresário
de 50 anos se reinventou. Antes mais lembrado como o marido de Luma de Oliveira,
a modelo com quem tem dois filhos, o empresário promoveu uma virada em
sua imagem. De aventureiro, firmou-se como um empreendedor de peso. Foi Eike (pronuncia-se
áique) quem melhor aproveitou a onda de IPOs (oferta pública inicial
de ações), que começou em 2004 e atingiu seu auge em 2007.
Ele encabeça uma lista da revista Exame com os bilionários
que mais lucraram com a febre da abertura de capital. O resultado pode ser atribuído
ao desempenho da maior empresa de seu grupo, a mineradora MMX. Quando a companhia
abriu o capital, em julho de 2006, seu valor de mercado era de 1,4 bilhão
de dólares. No fim de 2007, a cifra atingiu 7,5 bilhões de dólares
(veja
o quadro). Em um ano e meio, Eike ganhou 6 bilhões de dólares.
No fim de novembro, o empresário
deu mais um salto surpreendente. Investiu 1,5 bilhão de reais na aquisição
de 21 áreas de exploração no leilão da Agência
Nacional de Petróleo (ANP). Sua empresa, a recém-criada OGX, superou
gigantes como a Vale e a Petrobras. Foi a grande vencedora do certame, com quase
75% do total arrecadado. O dinheiro para tal aventura? Há duas semanas,
a OGX captou 2,3 bilhões de reais numa operação de emissão
privada de ações, conhecida como private placement. Foi a maior
operação desse tipo realizada na América Latina. Ela só
foi possível com a ajuda de craques recrutados a peso de ouro no mercado
preocupação característica do "novo Eike".
Ele tem a seu lado economistas do porte de Francisco Gros, ex-presidente do Banco
Central, e Paulo Mendonça, cujo passe foi comprado por um salário
de 200 000 reais por mês. Mendonça era gerente de exploração
e produção da Petrobras. Virou diretor de exploração
na OGX.
Nascido em Governador Valadares
(MG), Eike é o segundo dos sete filhos de Eliezer Batista, que presidiu
a Companhia Vale do Rio Doce e foi ministro de Minas e Energia. Ele passou a infância
no Rio de Janeiro e, aos 12 anos, mudou-se com a família para a Europa.
Quando voltou ao Brasil, aos 23 anos, investiu numa mina de ouro na Amazônia.
Expandiu seus negócios e fez fortuna com a exploração de
minas também no Chile e no Canadá. Até alguns anos atrás,
atribuía-se, com certa dose de maldade, seu enriquecimento a uma espécie
de herança genética. Corria à boca miúda que, por
causa dos laços paternos, ele teria obtido um mapeamento do subsolo brasileiro
feito pela então estatal Vale do Rio Doce. "Esse mapa nunca existiu.
Se fosse assim, eu estaria dentro de Carajás", diz Eike, referindo-se
à mina da Vale no estado do Pará da qual, desde o início
de suas operações, em 1984, já se extraiu 1 bilhão
de toneladas de minério de ferro. Mesmo seus desafetos, no entanto, reconhecem
em Eike um talento fora do comum para atrair investidores estrangeiros para suas
empreitadas.
Assim como seu pai, Eike
sempre mantém bom relacionamento com o Planalto. Na administração
Lula, aproximou-se de José Dirceu, contratado mais tarde por Eike como
intermediário junto ao governo de Evo Morales para tentar salvar uma siderúrgica
de Eike da sanha estatizante boliviana. Como se sabe, não deu certo. Eike
não desistiu da Bolívia, mas dispensou os serviços de Dirceu.
No Brasil, mantém o apetite por novos negócios, cada vez mais diversificados.
Suas apostas atuais incluem uma empresa de reflorestamento e restaurantes
mantém o chinês Mr. Lam, no Rio, e pretende abrir, no Brasil, filiais
do nova-iorquino Nobu, de comida japonesa. Também cogita criar uma empresa
de saneamento para despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões-postais
do Rio. Há duas semanas, ele inaugurou um navio de luxo para passeios na
baía. No dia seguinte à inauguração, caiu uma chuva
torrencial no Rio. Mau presságio? Pouco importa. O horizonte nunca esteve
tão azul para Eike Batista.