Retrospectiva 2007
| Internacional Cadê o "sim"
que estava aqui?
Juan Barreto/AFP
Hugo Chávez
perdeu a pose populista duas vezes em 2007. Por meio da indignação
do rei Juan Carlos da Espanha, levou o inesquecível
cala boca. Pela reação heróica do povo
venezuelano, amargou a vitória do "não"
no plebiscito que lhe daria quantos mandatos quisesse. Nas
duas ocasiões, Chávez ficou tão desconcertado
que interrompeu, ainda que brevemente, a torrente de barbaridades
verbais com que tortura seu país e o mundo. A oposição
venezuelana renasceu de fontes inesperadas: um movimento universitário
liderado por um estudante que tem o improvável nome
de Stalin González, um general que até o meio
do ano era ministro da Defesa e muitos chavistas que, mesmo
iludidos pela lábia populista, não quiseram
dar um cheque em branco ao homem que chamou de "verdadeiros
traidores" os que pensavam em votar "não".
Em 2006, Chávez foi reeleito presidente com 7,3 milhões
de votos. No plebiscito de dezembro, o "sim", derrotado,
obteve 4,4 milhões.
Chávez tem
os meios e a disposição para conseguir seus
fins o poder absoluto , mas a vitória
do "não" foi um facho de luz num ano pouco
auspicioso para as instituições democráticas.
Entre os percalços, a perpetuação da
dinastia Kirchner na Argentina e a da autocracia Putin na
Rússia são alguns exemplos, retratados nas excepcionais
fotos a seguir.
Bom de boca
AFP
Na bocarra feita para
arrancar pedaços inteiros, não para mastigar,
o crocodilo-do-nilo tem de 64 a 68 dentes. No dia 11 de abril,
o veterinário Chen Po-yu sentiu a força dessa
máquina de estraçalhar. Funcionário do
zoológico da cidade de Kaohsiung, na Ilha de Taiwan,
ele estava tratando do crocodilo quando aconteceu o ataque.
Depois de atirar dardos com tranqüilizantes para adormecer
o bicho, Chen enfiou o braço pela grade do compartimento
com lago onde ficam os répteis para recuperar o instrumento
com o anestésico. Nada adormecido, o crocodilo arrancou-lhe
o braço na altura do cotovelo. O veterinário
foi salvo pelas reações rápidas dos colegas:
um fez um torniquete no braço mutilado; outro atirou
no crocodilo, que largou a presa. Em operação
de emergência, o braço foi costurado de volta.
Salvaram-se ambos, veterinário e crocodilo. As duas
balas de revólver não causaram nenhum dano visível
à couraça do bicho. Provavelmente ele tenha
largado o braço em razão do impacto, como pode
ser conferido no vídeo do YouTube, que correu mundo
junto com a inacreditável foto aqui mostrada. Chen
pretendia fazer um exame no crocodilo porque ele estava doentinho
e não comia havia uma semana.
O agente provocador
Jason Reed/Reuters
"Trabalhar mais para ganhar mais."
Foi com essa proposta revolucionária que Nicolas Sarkozy
chegou à Presidência da França. O adjetivo
não é metafórico. Uma das forças
motrizes da Revolução Francesa foi a idéia
de acabar com os privilégios conferidos pela origem
social e implantar a meritocracia: as pessoas devem ser julgadas
pelo que fazem, e não pela casta à qual pertencem.
Em nenhum lugar da Declaração Universal dos
Direitos Humanos aparece a garantia de emprego eterno
e com mínimo esforço ou de aposentadoria
integral aos 50 anos, mas com o tempo... Bem, a maioria dos
franceses percebeu que o país precisa de mudanças
e elegeu o agente aparentemente ideal para elas. Num país
em que até a direita (leia-se Jacques Chirac) era de
esquerda quando se tratava de amar os privilégios trabalhistas
e odiar tudo o que viesse dos Estados Unidos, Sarkozy injetou
uma espetacular dose de novidade. Os adversários o
tacharam de "o americano", como se fosse xingamento,
e depois de eleito, fiel ao temperamento provocador, ele foi
passar férias nos Estados Unidos (na foto, aparece
com os presidentes Bush, pai e filho, e a matriarca Barbara).
Até agora, o hiperativo presidente francês já
sobreviveu a um divórcio (a bela Cécilia o deixou),
a uma temporada de greves e a outra de quebra-quebra no subúrbio.
"Eu não vou parar. Vou acelerar", prometeu.
"Um dia vocês dirão que fui um reformista
da estatura de Margaret Thatcher." Que tal isso como
provocação?
Fazendo amigos no inferno
AFP
Na primeira
metade de 2007, o Iraque foi, mais do que nunca, uma sucursal
do inferno. Os atentados
suicidas aumentaram tanto que, a cada nova carnificina, a
reação internacional parecia se resumir a duas
palavras mais um. A matança entre xiitas e sunitas
criou dilemas como o mostrado nesta foto, em que dois funcionários
de necrotério tentam combinar as quatro cabeças
aos seis corpos encontrados num subúrbio da cidade
de Baquba.
O número de iraquianos
mortos nas lutas sectárias atingiu o ápice de
cerca de 3 000 em fevereiro sem incluir soldados e
policiais nem os militares americanos. A partir de junho,
a diminuição na violência começou
a se delinear. Em dezembro, a média estava abaixo de
500. O fator determinante foi a nova e realista política
americana pela qual uma campanha militar mais bem conduzida
se soma a alianças com os chefes tribais iraquianos
a força dos clãs ainda é grande
no país. Quantidades significativas de dinheiro trocam
de mãos para azeitar as novas amizades: os líderes
levam sua parte, os liderados ganham um salário mensal,
em média de 400 dólares, para matar terroristas
da Al Qaeda em lugar de americanos. Dinheiro bem empregado.
Um general americano calculou em 17 milhões de dólares
o custo da arregimentação de 67 000 milicianos
em Bagdá "Menos que o preço de um
helicóptero Apache".
Ele está de olho em tudo
Dmity
Astakhov/AFP
O que dar de presente a um autocrata
que já tem tudo? Um terceiro mandato, claro. Sem querer
seguir o caminho chavista da mudança na Constituição,
Vladimir Putin fez uma simulação de alternância
no poder: vai deixar a Presidência da Rússia
e virar primeiro-ministro. Para o esquema dar certo, ele precisa
colocar um aliado em seu lugar (o escolhido é Dimitri
Medvedev, de 42 anos) e o aliado precisa ganhar a eleição
de março próximo (sem problemas).
A imbatível popularidade
desse ex-agente da KGB que tudo controla se deve à
estabilidade, à recuperação econômica
e ao sentimento de orgulho nacional restaurado. Ao todo, os
deputados eleitos em dezembro que seguem a linha Putin chegam
ao nível quase soviético de 87%. Embora a vitória
do presidente estivesse garantida, o teor de intervenções
eleitorais suspeitas foi alto. Há alguma coisa de muito
errado quando um político frauda eleições
que iria ganhar de qualquer maneira. É possível
que o tenha feito para intimidar aliados, mantendo a tradição
das violentas disputas internas no Kremlin, que Winston Churchill
certa vez comparou a uma briga de buldogues debaixo do tapete.
Putin foi eleito Homem do Ano pela revista Time, com
reprodução de uma piadinha. Putin sonha com
Stalin e lhe pede ajuda para governar a Rússia. "Fuzile
todos os democratas e pinte o Kremlin de azul", diz o
fantasma. "Por que azul?", pergunta Putin. "Rará,
eu sabia que você não ia me perguntar sobre a
primeira parte."
Adeus, grandes irmãos
Brent
Stirton/Getty Images
É possível que não
os nossos netos, mas nós mesmos não mais vejamos
no futuro próximo sequer cenas de cortar o coração
como essa da retirada do gorila morto num parque nacional
do Congo. Tudo o que é humano conspira contra nossos
primos-irmãos, os grandes primatas gorilas,
orangotangos, chimpanzés e bonobos. O desmatamento
acaba com os lugares onde vivem, sua carne é cobiçada
nos mercados clandestinos e, no caso do Congo, habitat dos
majestosos gorilas-das-montanhas, uma guerra infernal não
poupa ninguém. Membros dos grupos armados locais e
de países vizinhos, que praticam massacres e estupros
em massa contra a população, às vezes
também se divertem atirando nos gorilas. Nessas condições,
não é de estranhar que os guardas do parque
de Virunga, onde vive metade dos cerca de 700 gorilas-da-montanha
ainda existentes, sejam altamente expostos à corrupção
ou à infiltração de madeireiros. A extinção
dos grandes primatas está se acelerando como nunca,
e talvez eles só sejam encontrados em zoológicos
dentro de cinqüenta anos. Ou menos. O desalento dos especialistas
é resumido numa frase: "O relógio está
a um minuto da meia-noite para os grandes primatas".
Pescoço a salvo, por enquanto
Irna/Rreuters
As notícias
que vieram do Irã durante 2007 foram, como sempre,
ruins. O presidente Mahmoud Ahmadinejad continua dizendo abominações
e as patrulhas religiosas continuam obcecadas em controlar
cada mecha de cabelo que escapa do lenço obrigatório
usado pelas mulheres na rua. Até as calças Capri
e os casacos justos foram mencionados como estritamente proibidos.
As que se pintam ou se enfeitam demais podem ser humilhadas
e presas por "prostituição". As execuções
públicas ofereceram o usual espetáculo tétrico,
com condenados sendo puxados na forca por guindastes. Um homem
acusado de adultério foi morto pelo bíblico
e bárbaro método da lapidação,
ou apedrejamento. Pelas leis religiosas, antes das pedradas
os homens são enterrados até a cintura com as
mãos para trás; as mulheres, até o pescoço.
A única notícia
boa sobre o Irã veio do lugar mais inesperado possível:
dos Estados Unidos, sob a forma de um relatório conjunto
dos organismos de inteligência do país. Segundo
a análise, o Irã interrompeu seu programa nuclear
clandestino desde 2003. Com o pescoço temporariamente
afastado da corda que viria sob a forma de um hipotético,
mas não impossível, ataque americano para ceifar
uma futura bomba nuclear, Ahmadinejad comemorou a "grande
vitória" representada pelo relatório. Ou
seja, o presidente do Irã agora gosta da CIA!
No tempo das cavernas
Reuters
A imagem é fantasmagórica,
mas o resultado é bom: as crianças tendo aula
numa caverna retratam o monumental esforço da China
para educar sua população em todos os níveis.
Nenhum outro país emergente avança tão
celeremente nesse requisito vital para o desenvolvimento e
a cidadania. Nos últimos dez anos, a taxa de analfabetismo
chinesa caiu de 22% para 4%, a população universitária
multiplicou-se por sete e o número de cientistas dobrou.
No mesmo período, o Brasil ficou para trás.
Pense numa estatística, e os chineses estarão
invariavelmente na dianteira. Na taxa de repetência,
indicador clássico da qualidade do ensino, a China
beira o zero, enquanto o Brasil pena com 20%. No outro extremo,
o do ensino de ponta, a China tem 40% mais Ph.Ds. e produz
dezesseis vezes mais patentes. Nas avaliações
internacionais feitas em 2007, o Brasil apareceu, como sempre,
em colocações vergonhosamente baixas. Numa comparação
entre 57 países, os estudantes brasileiros ocuparam
o 52º lugar em ciências. Os alunos deixam a escola
sem dominar a leitura e sem saber distinguir os órgãos
do corpo humano. Ignoram que a Terra gira em torno do Sol.
Isso, sim, remete ao tempo das cavernas.
Cristina e o choque de realidade
Geraldo Caso/AFP
Até
agora, somente os fatos empanaram o brilho de Cristina Kirchner.
Militante política, advogada bem-sucedida, deputada
e senadora durante a maior parte de seus 54 anos, ela só
chegou a presidente da Argentina via laços conjugais.
A transferência de prestígio operada por Néstor
Kirchner produziu um resultado eleitoral notável e
um problema institucional insolúvel: a sensação
de que a Presidência argentina virou herança
transmitida em família. Cristina fez uma campanha voltada
a passar uma imagem de menor imprevisibilidade e maior jogo
de cintura internacional que seu marido. O choque de realidade
foi devastador. Dois dias depois da posse da presidente, a
Justiça da Flórida divulgou os resultados de
sua investigação sobre o "caso dos dólares
venezuelanos". Através de conversas gravadas,
ficaram demonstrados a origem e os propósitos dos 790
550 dólares apreendidos em agosto com um empresário
venezuelano que viajou a Buenos Aires em comitiva oficial.
A mala de dinheiro vinha do governo Chávez e se destinava
à campanha de Cristina. A nova presidente reagiu com
ataques aos Estados Unidos. A realidade desagradável
persiste: os dólares, o emissário (pressionado
em Miami a assumir a responsabilidade sozinho, daí
o caso) e um processo como só promotores americanos
sabem fazer. Nada que se possa chamar de um bom começo
de governo.
O mistério da Praia da Luz
Rui Vieira/AFP
Duas perguntas assombraram o mundo
desde maio passado. A primeira: o que aconteceu com Madeleine
McCann, a menininha inglesa desaparecida em Portugal? A segunda,
e tão ou mais terrível: será que os pais
mataram a própria filha e simularam tudo? Maddie sumiu
do apartamento de temporada na Praia da Luz onde a família
passava férias. Faltavam nove dias para a menina completar
4 anos. Gerry McCann, cardiologista, e a mulher, Kate, clínica-geral,
estavam jantando com amigos num restaurante do condomínio.
O que parecia um caso de negligência obscurecido pela
tragédia deixar a menina mais o casal de gêmeos
dormindo sozinhos virou um cipoal de suspeitas. Em
meio a investigações policiais pateticamente
mal conduzidas e a uma guerra da imprensa popular da Grã-Bretanha
(a favor dos McCann) e de Portugal (contra), multiplicaram-se
os julgamentos baseados predominantemente em impressões.
O casal parece distante demais, controlado demais. Kate é
loira, bonita, magra e fria. Em vez de chorar, eles fizeram
uma campanha mundial para procurar a menina e levantar fundos.
Arrecadaram mais de 2 milhões de dólares. Usaram
parte do dinheiro para pagar as prestações da
casa. Foram indiciados pela polícia portuguesa (uma
tese pavorosa: Kate errou na dose ao dopar as crianças).
Os exames de DNA mostraram-se até agora inconclusivos.
Onde está Madeleine?
A última foto
Adress Latif/Reuters
Caído
no chão, o fotógrafo japonês Kenji Nagai
tenta erguer o braço segurando seu bem mais precioso
a câmera. Acabou de levar um tiro do jovem soldado
de chinelos. A bala perfurou seu coração e ele
morrerá pouco depois. Morto, matador e manifestantes
ao fundo protagonizaram sem saber uma cena impressionante,
um flagrante perfeito da violência em Mianmar, a antiga
Birmânia, um dos países mais fechados e repressivos
do mundo.
Os protestos de setembro foram
liderados por monges budistas, que, de repente, começaram
a sair dos mosteiros e a tomar as ruas, num mar de mantos
vermelhos. E como há monges em Mianmar. Segundo a tradição
budista do Sudeste Asiático, pelo menos um filho de
cada família tem de passar um período no mosteiro,
numa espécie de serviço religioso voluntário
e espiritualmente vantajoso.
Os que não voltam para
a vida mundana sobem na hierarquia e exercem grande autoridade
moral: todos, inclusive os militares, fazem de tudo para diminuir
o ciclo de reencarnações que acreditam ser o
fardo da humanidade. Entre monges de cabeça raspada
e uma ditadura militar chefiada por generais sombrios e caquéticos,
as simpatias evidentemente ficaram do lado dos primeiros.
Sem resultados. Os monges voltaram para os mosteiros e os
generais ganharam mais uma. Ficou para a posteridade a foto
em que Nagai estava do lado errado da câmera e do fuzil.
Mas o carma ruim é todo da outra parte.
O bebê que não deveria
viver
Reuters
A pequena
Amillia não poderia viver e, se o fizesse, só
poderia ter seqüelas graves. Quando nasceu, na Flórida,
tinha 21 semanas e seis dias de gestação. Pesava
pouco mais de 250 gramas e media 24 centímetros
menos do que esta página de VEJA. Seus pezinhos eram
do tamanho de um clipe de papel. As fotos da minúscula
criatura só foram divulgadas em fevereiro, quando ela
saiu do hospital onde passou quatro meses, já na condição
firmada de o bebê mais prematuro do mundo a sobreviver.
Seu bravo coraçãozinho havia driblado problemas
respiratórios e digestivos gravíssimos, além
de uma hemorragia cerebral. Em outubro, ela comemorou 1 ano,
com 8 quilos, 70 centímetros e saúde inacreditável
para quem tinha todos os prognósticos contra. Por meio
de Amillia e da equipe médica que cuidou dela, espelham-se
algumas das mais notáveis características humanas:
a dedicação à ciência e às
suas aplicações, o impulso de sobrepujar limites,
a recusa em aceitar o que parece inevitável.
A mãe de Amillia, Sonja
Taylor, que havia feito inseminação artificial
para engravidar, já voltou a trabalhar como professora
primária. O acompanhamento médico intensivo
da menina deu lugar a exames mensais. As experiências
mais radicais de Amillia no momento são com o andador.